Paranóia e conspiração na América

No centenário de Joseph McCarthy, a caça a comunistas já é passado, mas a xenofobia e o medo da diferença permanecem

Antonio Pedro Tota, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Em épocas de multiculturalismo e ações afirmativas nos Estados Unidos, o macarthismo parece continuar vivo. O republicano Joseph McCarthy faria 100 anos em 14 de novembro. Na semana passada, a deputada Michele Bachmann, do mesmo partido, sugeriu que a imprensa deveria iniciar reportagens investigativas para saber quem é "pró-América" ou "anti-América". Alguns estrategistas republicanos estão usando a expressão "un-american" para se referir a Obama, que teria escondido sua fé islâmica, além de freqüentar secretamente uma madraça palestina marxista. Não se deve confundir McCain com McCarthy, mas parece que vivemos um renascimento da "caça às bruxas". Sem falar nos dois neonazistas que planejavam assassinar o presidente eleito no Tennessee.Na década de 1950, quando floresceu o macarthismo, os EUA eram bastante diferentes do que são atualmente. A América afluente, pensada por John Kenneth Galbraith, era o país governado por Truman e Eisenhower. A América conformista, da vida nos subúrbios em casas pré-fabricadas, com shopping centers e supermercados, as super-rodovias e as filas dos Fords, Chevrolets e Chryslers. Praticamente toda família tinha, pelo menos, um aparelho de televisão. E todos viam Papai Sabe Tudo ou programa semelhante. Todos que tivessem vontade e forças para competir ganhavam o mundo feliz dos lares com geladeiras cheias, máquinas de lavar, torradeiras e, claro, automóveis na garagem. Pois esse mundo da felicidade, aliás, já garantida na Declaração de Independência, corria sérios riscos. Tudo poderia desaparecer com a explosão de uma bomba de hidrogênio, a ser lançada pelos comunistas da União Soviética.Lançada pelos russos, mas com ajuda de americanos traidores, da quinta coluna, comunistas enrustidos, e de pinkos, como eram conhecidos os intelectuais de esquerda. Foi essa gente que o desconhecido senador republicano de Wisconsin, Joseph McCarthy, denunciou. Em um inflamado e teatralizado discurso para o Clube das Mulheres Republicanas em 12 de fevereiro de 1950, afirmou ter nas mãos uma lista de 205 funcionários do Departamento de Estado filiados ao Partido Comunista. Ele nunca apresentou tal lista. Mas desencadeou o que ficou conhecido como macarthismo. Odiava os intelectuais e liberais da costa leste, em especial os que saíam de universidades como Harvard, Princeton, Colúmbia. Os Estados Unidos entravam outra vez na onda paranóica do anticomunismo, o red-scare. A primeira foi nas décadas de 1920 e 30. A Segunda Guerra Mundial fez da União Soviética e dos Estados Unidos fortes aliados contra o nazismo. O anticomunismo ficou esquecido, ou melhor latente, até 1945. Na década de 1950, renasceu com força redobrada. McCarthy teve papel de destaque num subcomitê do chamado House Un-American Activities Committee. O temor dos americanos cresceu com a vitória de Mao Tsé-tung na China e com a Guerra da Coréia. McCarthy era o teatro do anticomunismo. De forma espalhafatosa e demagógica, procurava humilhar o "acusado". Mas coube a outra figura sinistra na história americana a execução dessa política - J. Edgar Hoover, chefe da Policia Federal, o FBI. Foi nesse período que o FBI cresceu. Durante a guerra, a instituição tinha cerca 850 agentes; nos anos 50, saltou para mais de 7 mil, sem contar com a rede de informantes. Os comunistas, segundo Hoover, minavam e poluíam, com peçonhento veneno, os princípios e instituições mais sagradas da sociedade americana: a bandeira, as escolas, a família e as tradições. Eles se infiltraram no Departamento de Estado, enfraquecendo as diretrizes da política externa. Em Hollywood, os comunistas se camuflaram como roteiristas e artistas, criando filmes subversivos, com conteúdos sociais e políticos. Por isso, os grandes empresários de Hollywood fizeram as conhecidas listas negras com os nomes de atores e roteiristas que deveriam ser despedidos. As grandes universidades, com medo de ter sua reputação maculada, se adiantaram à comissão de McCarthy e demitiram professores liberais e de esquerda. Outro senador conservador chamado Pat McCarran fez aprovar uma lei, apesar do veto presidencial, impedindo a entrada em território americano de pessoas suspeitas de ligações com governos totalitários. O presidente Truman protestou: "Não devemos temer a livre expressão de idéias... nós devemos, isto sim, temer a supressão da expressão das idéias." McCarthy chegou ao ponto de mandar funcionários inspecionar as representações diplomáticas americanas, em especial na Europa, e recolher os livros de autores considerados de esquerda das bibliotecas das embaixadas: Tom Paine, o herói da independência, foi um dos autores recolhidos e, pasmem, teve seus livros queimados. A paranóia atingiu toda a sociedade americana. McCarthy foi afastado de suas atividades quando enfrentou as Forças Armadas. Não tinha provas concretas contra vários militares acusados. O presidente, e general, Eisenhower, sensível ao ataque a seus pares, pressionou para que McCarthy saísse de cena, o que ocorreu em meados de 1954. Morreu jovem, em 1957, e mereceu somente uma pequena nota nos jornais. Mas, de certa forma, o macarthismo sobreviveu ao criador. Não é coincidência a produção de filmes de ficção cientifica cuja temática era o medo: O Dia em Que a Terra Parou, A Bolha, A Invasão dos Vampiros de Alma, A Guerra dos Mundos, A Coisa, Sob o Domínio do Mal. Todos os filmes tinham como base o medo - o medo de os americanos não serem eles mesmos, medo da iminente destruição, de perder a humanidade, de se transformar em bichos, de serem dominados por alienígenas, de perder a identidade.Alguns desses filmes foram refeitos nos últimos anos, sem ter o mesmo impacto. O inimigo, hoje, não é tão fácil de ser identificado. O inimigo parece, a muitos americanos, ser a subversão representada pela eleição do "candidato diferente". O colunista conservador do New York Times William Kristol lembra que uma parte considerável dos americanos não votou em Obama. A xenofobia não vai desaparecer com a eleição d o "presidente negro". A cerca que separa o México dos Estados Unidos continua a crescer. Há notícias de que, em alguns Estados fronteiriços, exige-se uma espécie de passaporte para se ir de uma cidade a outra. Antes comunistas, agora estrangeiros. Raça?A eleição do afro-americano Barak Obama pode ser um sinal de mudança. Na campanha, o filho de um africano do Quênia com uma mãe branca americana quase não tocou na questão de raça. A noção de raça, diz meu amigo Matthew Shirts, continuou sendo uma pedra no sapato da cultura americana mesmo depois da vitória do movimento dos direitos civis. A vitória de um negro para o cargo mais poderoso do mundo afirmou o mito americano da igualdade e da liberdade. E, em especial, de que qualquer americano pode ser presidente dos Estados Unidos. Antonio Pedro Tota é historiador, professor da PUC, autor de O Imperialismo Sedutor

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