Parados

Entrou no táxi parado no ponto e pediu:- Rua tal, número tal.O motorista virou-se para encará-lo e perguntou:- Tem certeza?- Como, "tem certeza"? Tenho sim. Vamos lá.- O senhor sabe como está o trânsito naquela zona?- Muito ruim, é?- Péssimo. E não é só naquela zona. É em toda a cidade. Tudo parado.- Eu sei, eu sei. Mas eu preciso ir.- Precisa mesmo?- Olha aqui, meu amigo, se você não quer me levar...- Não, pense bem. Precisa mesmo? Certeza absoluta?- Claro. Tenho uma reunião importantíssima.- Importantíssima? - Bom... Importante.- Importante?- Está certo. Não é questão de vida ou morte. Pensando bem, nada é uma questão de vida ou morte. A não ser a morte.- E a vida.- Como assim?- A única coisa vital da nossa vida é a nossa vida. O senhor concorda?- Não sei se eu...- Tome o seu caso. Correndo para ir a uma reunião importante que não é tão importante assim. Enfrentando trânsito que não anda, se irritando, enfim, se matando. Transformando uma questão que não é vital numa questão de vida e morte. É ou não é?- É, mas...- Eu sei. O senhor precisa ganhar dinheiro. Tem que sustentar a família. É casado?- Estou me separando...- Então. Precisa de dinheiro. Eu também. Não posso ficar parado. Mas o dinheiro não compra vida. Pelo contrário, a gente gasta vida para ter dinheiro. É uma troca em que sempre se sai perdendo. Qual foi o problema?- Como?- A separação. - Ah. Pois é. Foi isso. Eu vivo irritado com essa loucura toda, ela vive irritada, nós acabamos só nos irritando mais um ao outro. Mas foi ela que quis se separar.- E não tem jeito mesmo?- Sei lá. Por mim, teria. Mas ela diz que eu não consigo me desligar do meu trabalho e das minhas preocupações. Que eu estou sempre ligado, que viver comigo é como viver com uma caixa 24 horas.- Faça o seguinte. Quando chegar em casa hoje, gire um botão imaginário, ou torça o seu próprio nariz, e diga que está se desligando. Que nada é mais importante na sua vida do que o amor dela, e do que ficar com ela. - É, pode dar certo.- Eu sei que vai dar.- De onde você tirou tanta sabedoria?- Dos engarrafamentos. Trancados no trânsito o dia inteiro, temos duas opções. Ou nos transformamos em neuróticos com fantasias assassinas, ou aproveitarmos o tempo parado para filosofar. Eu escolhi a filosofia.- Talvez você possa me ajudar com outro problema...- Só um instante. Se o senhor não se importar, vou ligar o taxímetro durante a sessão. - Tudo bem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.