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Ignácio de Loyola Brandão
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Para tranqüilizar a todos

Terça-feira à noite, nem tinha terminado o primeiro telejornal da noite e Jairo me ligou:- Quero te tranqüilizar.- A propósito do quê?- Do avião da TAM que acabou de cair.- Sim, vejo a notícia, estou baratinado, amanhã deveria ir a Brasília.- Está louco! E vai?- Se tiver vôo, o avião subir, estou nele. Mas que história é essa de me tranqüilizar?- Estou avisando que estou vivo.- Estou vendo, aliás ouvindo.- Eu não estava naquele avião.- Percebi.- Você poderia pensar que eu estava e ficar preocupado.- Não, nem tinha pensado. Acaso você estava em Porto Alegre, ia voltar nesse vôo?- Não, estava aqui mesmo.- Portanto...- Portanto quero que saiba, estou bem, estou em casa.- Mas, por que este telefonema, Jairo?- É que levam horas para divulgar a lista das vítimas, fica uma angústia geral, tem gente que vai ao desespero. Então, quando acontece uma tragédia assim, ligo logo para meus amigos, para minha família, para acalmar.- Você faz bem. Obrigado por me avisar.- Se puder, avise a todos. Se fizer algum interurbano, te pago depois, não se preocupe. Você tem email?- Tenho.- Pode avisar a todos a meu respeito?- Posso.- Pode fazer logo?- Para que tanta pressa?- Fico agoniado só de pensar que as pessoas possam estar preocupadas comigo e comecem a telefonar para números que estão eternamente ocupados, para números que não respondem, como o das companhias aéreas, da Infraero, e outros. Não quero que as pessoas sofram por mim, não quero provocar apreensão, sustos. Acho que vou passar a noite telefonando, nem jantei.Ele me parecia ansioso. Mais ansioso que familiares e amigos de possíveis vítimas. O noticiário insistia em que a companhia aérea iria telefonar para as famílias. Telefonar como? Onde arranjaria os telefones? Lembrei-me que nas salas de embarque, a todo instante, há um pedido para que os passageiros preencham o verso dos bilhetes com um nome e um fone de contato. Também percebo que pouca gente faz e que praticamente nenhum funcionário, na porta de embarque, olha para ver se a determinação está cumprida. Dia desses, estava preenchendo o meu e o sujeito na poltrona ao lado comentou:- Para que isso? Se o avião cair, acabou.- Eles precisam avisar alguém.- Se eu morrer, estou pouco me lixando se avisam, não avisam, não é mais problema meu.- Mas é problema para quem ficou.- Vou te contar, preencher isso dá azar.- Pois eu preencho há anos e continuo aqui.Evidente que é um pouco estranho ler no dorso do bilhete: em caso de acidente, avisar fulano de tal, no fone, etc. Mas quem viaja bastante coloca no automático, preenche, entrega e pronto. Pensei até em fazer um carimbinho e levá-lo comigo, facilita. Assim como penso em fazer um carimbo para os hotéis. Não entendo por que existem aquelas fichas, para que servem, qual o objetivo. Elas nasceram durante a ditadura, era uma forma de controle. Mas a ditadura foi substituída pela corruptura (regime de corrupção total) e continuamos a colocar nome, endereço, CPF, RG, sexo, idade, motivo da viagem, de onde viemos, para onde vamos, transporte utilizado. Quem analisa tais fichas, para onde vão os dados, quais as conclusões? Posso dar RG errado, CPF fictício, posso dar qualquer endereço, posso inventar um destino. Um dia, no interior de Minas Gerais, no item transporte utilizado escrevi: barco. E ficou por isso, apesar de ser uma cidade que não está à beira-rio, nem à beira-mar nem à beira de um lago. Imagino a Marta Suplicy, com aquela competência descomunal para o nada, analisando as fichas todas e depois relaxando e gozando.- Então, promete que liga?A voz de Jairo me tirou do devaneio, como que acordei, as imagens do fogo no prédio na frente do aeroporto e a visão daquele pedaço de cauda à mostra me causavam mal-estar.- Prometo.- Obrigado.Ligar a quem? Jairo é uma das pessoas mais solitárias que conheço. Um sujeito atípico, não tem nenhum parente, primos, cunhados, tios, relaciona-se com poucos, acho que seus amigos, se os tem, são três ou quatro. Nunca o vi num bar, num restaurante, numa praça, no cinema. Acho que nem emprego tem, portanto, não tem amigos de empresa. Freqüenta a padaria aqui da esquina, toma um café puro com pão simples. Que eu saiba, nunca viajou nem mesmo de ônibus. Quem se preocuparia com ele em uma hora como está?

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