Para rever o ano do Brasil nas telas

Retrospectiva do CineSesc traz 59 longas-metragens lançados em 2007

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2007 | 00h00

O cinema brasileiro vai bem ou mal? Depende de como e para onde se olha. Produz cerca de 70 longas por ano, mas eles ocupam pouco mais de 11% do mercado interno, em média. Isso em termos quantitativos. E em termos qualitativos? Bem, há filmes para todos os gostos, de comédias a dramas sociais, e, claro, a qualidade também varia bastante. Enfim, quem quiser ter idéia do que foi 2007 para os filmes nacionais poderá acompanhar a Retrospectiva de Cinema Brasileiro que se realiza de hoje a 27 no CineSesc. São 59 filmes, cobrindo quase todo o espectro das estréias do ano até agora. Só ficou de fora Mutum, de Sandra Kogut, ainda em cartaz e com poucas cópias disponíveis. O restante estará lá, na tela do Cine Sesc.Hoje mesmo podem ser vistos alguns exemplos da propalada diversidade da produção atual. Você pode conferir o drama político Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, que fala da tortura e sacrifício de frei Tito nos tempos da ditadura militar. Ou pode ver /ouvir o musical Cartola, inventiva cinebiografia do mestre da Mangueira dirigida por Lírio Ferreira. Pode também curtir PodeCrer!, simpático e inspirado retrato da juventude dos anos 80, de Arthur Fontes.As atrações se sucedem a cada dia. Amanhã, por certo, será a vez de quem deseja ver, ou rever, o filme que produziu o maior tititi da temporada - Tropa de Elite. A exibição do longa-metragem de Padilha reveste-se de atrativo especial pois foi selecionado para Berlim, em fevereiro de 2008, na mostra competitiva de um dos três festivais de cinema mais importantes do mundo.Até pela natureza da proposta, a Retrospectiva é abrangente, includente e democrática. Procura ampliar-se a cada ano. Em 2006 foram 43 longas; neste ano, 59, quase a totalidade do que foi lançado até agora. Cabem filmes de empenho artístico como Cão sem Dono, de Beto Brant,ou A Casa de Alice, de Chico Teixeira, aliás duas obras aparentadas em projeto e linguagem. Entram também opções populares como A Grande Família ou A Turma da Mônica - Uma Aventura no Tempo. A separação entre ''''artístico x comercial'''' é muito discutível, mas é hipocrisia (ou demagogia) dizer que tudo é cinema e ponto. Mas, por exemplo, a melhor bilheteria do ano foi de Tropa de Elite, filme popular porém de boa qualidade, em opinião quase unânime. No entanto, é notório que produtos televisivos que se estendem ao cinema, como é o caso de A Grande Família, não têm nada de novo a propor que já não o tivessem feito em seu formato original. Mas cabem na radiografia anual proposta pelo Cine Sesc.Analisar essa produção em conjunto serve, também, para notar que, apesar a diversidade temática e de gêneros, as opções de linguagem cinematográfica são menores. Por um lado, há a dominância da linguagem televisiva em filmes que se julga destinados ao público amplo. Por outro, o realismo, em suas variantes, domina em obras que se propõem a algum tipo de crítica social, como por exemplo o brutalismo de Baixio das Bestas, um dos mais contundentes do ano. Há pouco espaço para a fantasia e também para a comédia.Esse panorama contempla também outra tendência marcante do cinema brasileiro contemporâneo - o crescente número de documentários, alguns de alta qualidade. Também entre eles prevalece a diversidade, pelo menos temática. Algumas recorrências: vários abordam temas ou personagens musicais, como Cartola, Brasileirinho, Sambando nas Brasas, Morô?, Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda e Fabricando Tom Zé. Não é que o Brasil redescubra a sua música, porque ela nunca deixou de estar em evidência. É o cinema que embarca (de novo) nessa vocação musical do País.Mas existem também as vocações políticas, como a de Silvio Da-Rin e seu Hércules 56, extraordinária recriação de um fato dos anos da ditadura, o seqüestro do embaixador norte-americano trocado por presos políticos. Em linha semelhante, Caparaó, memórias da ''''guerrilha do Brizola'''', relembra a primeira contestação armada ao regime de 1964. Encontro com Milton Santos é retrato de um intelectual e também um comentário político sobre a história do Brasil e sua posição no mundo globalizado.No entanto, talvez tenha sido no âmbito da intimidade, das relações pessoais, que o cinema de 2007 obteve suas melhores realizações. Uma ficção sensível como A Via Láctea, de Lina Chamie, é representante dessa tendência. Como também o são os documentários Santiago, de João Moreira Salles, e Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, ambos no ápice do que foi produzido por aqui neste ano. Feitas as contas, o balanço é amplamente positivo.ServiçoRetrospectiva de Cinema Brasileiro. CineSesc (R. Augusta, 2.075, 3082-0213).HojeMeteoro, 15 hPodeCrer!, 17h20Cartola, 19h20Batismo de Sangue, 21h20R$ 4 (estudantes e idosos R$ 2, comerciários R$ 1). Passaporte para todos filmes: R$ 30 (estud. e idosos 15, comerciários R$ 7,50)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.