Para redescobrir o talento do comediógrafo Martins Pena

Coleção Dramaturgos do Brasil publica em três volumes 20 peças de autor cuja obra vem sendo revista por estudiosos

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Na área da cultura não é incomum projetos serem abortados, ora por falta de verba, ora por desinteresse, passada a moda. Por isso, merece comemoração mais um lançamento da coleção Dramaturgos do Brasil, da Editora Martins Fontes. Depois das peças de dez autores, entre eles João do Rio, Aluísio Azevedo, Machado de Assis e até José de Anchieta, chega a vez de Martins Pena, cujas comédias vêm completas, publicadas em três volumes.Cada um dos livros abarca um período distinto. O primeiro vai de 1833 a 1844, com oito peças. Entre as de deliciosa leitura, estão O Juiz de Paz da Roça, Os Dois ou o Inglês Maquinista e O Judas em Sábado de Aleluia. Em seguida vêm as cinco escritas entre 1844 e 1845, entre elas O Noviço e As Casadas Solteiras. A coletânea termina em 1847 e traz entre seus títulos Quem Casa, Quer Casa, Os Ciúmes de um Pedestre e As Desgraças de uma Criança.Nessa coleção, os textos de apresentação sempre vêm carregados de informações preciosas e, desta vez, o prefácio é assinado pela pesquisadora Vilma Arêas. Ela começa por ressaltar a revisão que vem sendo feita da obra desse autor, já acusado de escrever com desleixo, ser indiferente às questões sociais e de só buscar o riso. ''''Hoje podemos dizer com segurança que as comédias e farsas estão longe da simplicidade, compostas que são de vários fios da tradição teatral'''', escreve.Em seguida contextualiza a obra traçando um curto panorama cultural da época em que viveu esse autor, nascido no Rio de Janeiro em 1815 e morto em 1848. Um dramaturgo que tentou escrever drama na linguagem empolada da época, mas cuja verve era mesmo de comediógrafo. A partir daí, ela destaca aspectos dessa dramaturgia, como a ''''observação acurada dos tipos brasileiros'''', traço detectado já nas primeiras comédias, assim como a crítica de costumes, por exemplo, na denúncia da corrupção da Justiça e da ''''mistura escandalosa entre o público e o privado''''.Vilma Arêas destaca a leveza nos diálogos, ''''impossível de se encontrar no teatro palavroso da época''''. Basta um diálogo da primeira peça, O Namorador - ''''Adeus/Espera/O que quer?/Eu.../E então?/Eu...'''' - para lhe dar razão.

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