Para recuperar um personagem perdido na poeira do tempo

Tudo Isto me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno, resgata a figura do general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Simon Bolívar

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

Foi árdua a última noite de competição do Festival de Brasília. Depois de dois bons curtas-metragens, Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho, e Superbarroco, de Renata Pinheiro, veio o longa-metragem de Geraldo Sarno, intitulado Tudo Isto me Parece um Sonho. É obra que mistura ficção, documentário e metalinguagem. Tudo isso na tentativa de reconstruir a trajetória de um personagem histórico esquecido, o general José Ignácio Abreu e Lima, pernambucano que lutou ao lado de Simon Bolívar e participou da Revolução Praieira, em 1848. As primeiras cenas são de ficção -- ou melhor, de reconstituição, com um ator interpretando o general em sua casa, velho, à espera da morte, escrevendo suas memórias. Diga-se de passagem: o título do filme é tirado dos textos de Abreu e Lima. Ele escreve que, ao recordar sua vida aventurosa ao lado de Bolívar e outros libertadores da América, tudo lhe parece tão incrível que é como se tivesse sido um sonho. No entanto, logo o filme se converte no making of de si mesmo, pois Sarno se dá conta da dificuldade (e mesmo da impossibilidade) de retratar personagem sobre o qual se sabe muito pouco. Daí em diante, o que procura fazer é uma espécie de arqueologia. Como se disse, usa imagens encenadas com atores para mostrar os momentos finais de Abreu e Lima. Vai atrás dos traços do general na Venezuela de Hugo Chávez, entrevista intelectuais e não se furta a gravar os discursos longuíssimos de partidários de Hugo Chávez. De volta ao Brasil, entra pelos canaviais de Pernambuco e visita velhas usinas desativadas. Visita também terreiros de candomblé e, num deles, tem uma iluminação. Anda pelas ruas do Recife com o intelectual Vamireh Chacon e ouve dele uma aula de história. Nota-se também que, em certo sentido, a busca pelo general Abreu e Silva converte-se, no contraplano, em busca do diretor por si mesmo. O cineasta que visita os canaviais e experimenta sua habilidade com um facão é o mesmo que um dia, em 1974, fez um documentário sobre Casa Grande & Senzala, o clássico de Gilberto Freyre sobre a família patriarcal no ciclo da cana-de-açúcar. O diretor que experimenta uma epifania em uma casa de candomblé é o mesmo que um dia documentou a religiosidade popular em Iaô, em 1976. O filme é, assim, um exercício de conhecimento, autoconhecimento, em ritmo digressivo, que não deixa de lembrar, em alguns momentos, a técnica de Glauber em A Idade da Terra. Recorde-se que Glauber, em seu último e controvertido filme, alternava a encenação barroca do advento do Cristo negro em plena Brasília, com uma longa entrevista política com o colunista Castello Branco, o Castelinho, do Jornal do Brasil. Nem por essa referência ilustre, o longa-metragem derrotou menos os espectadores. No mínimo, uma boa metade do público do Cine Brasília retirou-se em algum momento ao longo dos 150 minutos do longa (e ponha longa nisso) metragem. Os que ficaram, aplaudiram de maneira discreta. CURTASOs dois últimos curtas-metragens em concurso foram bem interessantes. Cães recria clima árido e levemente fantástico de um relato de Juan Rulfo adaptado ao sertão brasileiro. É, sobretudo, um filme de atmosfera e de idéias surpreendentes, muito bem realizado, em textura de imagem que vai da cor ao preto-e-branco. Também em Superbarroco, o clima buscado é onírico. Um homem (Everaldo Pontes) convive com seus fantasmas, ecos de vidas que já se foram. A técnica usada para colocar na tela essas evocações é bem pensada, com o mundo de imagens convivendo com o personagem real. Claro que o filme dispõe de outro trunfo considerável - Pontes (ele fez o São Jerônimo, de Julio Bressane) é ator completo, capaz de dizer tudo com as expressões e nuances do rosto. Quem tem um ator desses, dispõe de um instrumento de precisão para passar idéias e emoções. O repórter viajou a convite da organização do festival

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