Para ouvir e ver Olivia bem perto

Cantora volta com trabalho intimista que levou à Europa e registrou em CD e DVD

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

05 Agosto 2008 | 00h00

Faz quase um ano que Olivia Byington estreou o show intimista que traz de volta de hoje a quinta para duas unidades do Sesc (Pinheiros e Santo André), renomeado para A Vida É Perto, título sugerido por Millôr Fernandes. Antes se chamava Cada Um Cada Um e foi apresentado aos paulistanos no Espaço Viga, comovendo o público com canções de toda uma carreira de intérprete dedicada e sutil, novidades autorais e histórias contadas em clima confessional. Palco e platéia no mesmo nível, o cenário é um misto de sala de estar e câmera de leitura, com tapete, livros, algumas peças de mobiliário antigo, tecidos no lugar de paredes, castiçais com velas acesas. Em um notebook, Olivia aciona gravações das vozes de Seu Jorge (que participou de seu mais recente CD) e Yves Montand, fazendo interação virtual. No centro, a cantora, seu violão e a música na essência, sem artifícios ou efeitos típicos do show biz atual, em que parafernálias audiovisuais são montadas para causar impacto e dissimular a flacidez do conteúdo artístico (vide Ana Carolina e afins). É um dos shows nacionais mais inspiradores e gratificantes que se viu por aqui nos últimos tempos. "Era para ser ainda mais radical, totalmente acústico, tinha pensando até em cantar sem usar microfone", lembra a cantora. Tudo fica bonito e cheio de graça na voz cristalina e dançarina de Olivia, seja a brega sertaneja Pense em Mim (Leandro e Leonardo), um samba antigo de Assis Valente (Uva de Caminhão), clássicos de Tom Jobim (Fotografia, Modinha), sutilezas de Caetano Veloso (Muito Romântico) e Gilberto Gil (Mãe da Manhã) ou da própria compositora com Cacaso (Clarão, Anjo Vadio) e Tiago Torres da Silva (Por Dentro das Canções, Areias do Leblon). Não faltam também canções que se tornaram seus padrões: Lady Jane (Nando Carneiro) e Mais Clara, Mais Crua (Egberto Gismonti), ambas com letras de Geraldo Carneiro. O resultado de tanta beleza reconhecida levou Olivia à Europa, onde chegou a cantar em lugares para 600 pessoas, em Portugal. Enfim, o show - que foi gravado na bem-sucedida temporada carioca, na Casa de Cultura Laura Alvim, e sai em DVD no dia 15 pela Biscoito Fino - cresceu, mudou parte do repertório, mas não perdeu o caráter camerístico. "Foram mais de 150 apresentações, nunca imaginei que fosse fazer tantos shows na minha vida", diz Olivia. "A possibilidade de ficar em temporada foi muito interessante. Depois vieram as viagens para Portugal e França e a idéia de fazer o DVD", conta. Quando Olivia Hime e Kati Almeida, da Biscoito Fino, viram o DVD, a convidaram para gravar esse repertório em disco. O CD, que a cantora gravou em estúdio e sai mais para a frente, também só com voz e violão, vai se chamar Perto, e tem as canções do roteiro que não estavam em seu álbum mais recente, Olivia Byington, o primeiro voltado para seu lado de compositora. "Ficaram as releituras de uma vida inteira, como Lady Jane, Anjo Vadio, Mais Clara, Mais Crua, os sambas, Caetano, Pense em Mim e uma música da Björk, New World, da trilha de Dancer in the Dark", conta. "Sou muito apaixonada por aquele disco e as harmonias daquelas músicas e isso de certa maneira juntou no trabalho de voz que estou usando para este CD. No estúdio fiz uma coisa completamente diferente, já tem um pé no próximo trabalho. A maneira de cantar é muito intimista, tem uma coisa técnica de cantar pianíssimo, que soa próximo, mas não é sussurrado." A música de Björk também está na nova fase do show, que tem ainda mais um samba (Com Que Roupa?, de Noel Rosa), uma versão a capella de Por Toda a Minha Vida (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) e uma nova parceria de Olivia com Tiago Torres da Silva, Entre a Voz e o Oceano, em homenagem a Maria Bethânia, que foi gravada em Portugal pela fadista Mafalda Arnauth. O momento a capella, além do potencial emocionante na relação entre voz e silêncio, é o que ela exemplifica como o conceito vital do show: "Não tem nenhuma máscara, o microfone capta tudo, a dinâmica de interpretação é interiorizada. Radicalizei por esse lado." Isso tudo começou em 2004, quando ela tinha planejado criar novas harmonias para canções de Caetano Veloso que iria gravar. As introduções se revelaram grandes demais e se transformaram em temas próprios, que resultaram no CD e no show. Nas conversas com Millôr surgiram reflexões sobre "a vontade desenfreada de as pessoas buscarem felicidade, prazer e alegria longe, em feitos megalômanos, como comprar casas pelo mundo, fazer viagens homéricas, procurar coisas gigantescas", conta Olivia, "enquanto às vezes a vida é perto". "Essa frase sintetiza muito bem o que acontece no show, porque, para mim e para platéia, a cada apresentação é comprovado como essa proximidade traz uma felicidade muito grande." Sem dúvida. Serviço Olivia Byington Sesc Pinheiros (100 lug.). Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. Hoje e amanhã, 20 h. R$ 12 Sesc Santo André (302 lug.). Rua Tamarutaca, 302, V. Guiomar, 4469- 1200. 5.ª, 20 h. R$ 8

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