Para onde segue a canção brasileira?

Artistas da nova geração, reunidos no projeto Circuito Original, falam de sua responsabilidade e se dizem desprezados pelo MinC

Pedro Henrique França, RIO, O Estadao de S.Paulo

13 de agosto de 2008 | 00h00

Faz calor no Rio de Janeiro. O termômetro confirma: 33°C. E ainda é inverno... Na capital fluminense, porém, o clima parece ser sempre quente, principalmente na Lapa. Foi ali que há alguns anos um grupo de jovens músicos fez o samba reacender, ou melhor: ganhar novas caras. Em casas no entorno dos Arcos da Lapa, como Circo Voador, Fundição Progresso e Carioca da Gema, nomes como Teresa Cristina chamaram a atenção de um público jovem, cansado da avalanche pop das décadas de 80 e 90. Foi justamente em um bar na Lapa, que Rodrigo Maranhão, Marcos Ariel, Roberta Sá, Silvia Machete, Ana Canãs, Fabiana Cozza, Rodrigo Lessa, Eduardo Neves, Marcelo Caldi e Gabriel Moura se reuniram para falar ao Estado sobre o peso de formar a nova geração da música brasileira.Antes de qualquer avaliação, a turma faz questão de ressaltar que esta geração não é tão nova assim, mas reconhece que as portas se abriram há pouco tempo. "Somos novos para o grande público, mas grande parte da turma já está ?ralando? há algum tempo", lembra o bandolinista e compositor, Rodrigo Lessa. A cantora Roberta Sá reforça o coro: "Esses meninos tocam na Lapa há 10, 15 anos, quando nem tinha esse público todo. No meu caso, tive sorte de chegar em uma geração pertinho da nossa e que formou um público interessado em música popular brasileira."É consenso, porém, que essa geração foi de certa forma ?beneficiada? pela crise do mercado fonográfico. Como não tinham atenção das rádios e da mídia, fizeram seu público timidamente. Foi em meio à lacuna, aberta com a crise, e por conta de uma saturação do universo pop que o público jovem redescobriu o samba e o colocou em pauta. "Todo mundo aqui estava trabalhando muito durante a crise. Quando ela ?acabou?, a gente tinha a faca e o queijo na mão", diz o compositor e arranjador Marcelo Caldi. Ao que Marcos Ariel emenda: "Ficou mais democrático, você tem a internet para divulgar o seu trabalho. Houve uma redistribuição de mercado." Eduardo Neves, que acompanha Zeca Pagodinho e também é compositor, analisa: "Quando eu tinha 20 anos, não havia público de choro, nem se namorava em baile de samba. Hoje, você tem uma juventude que vai atrás disso, do samba, do choro e da MPB."O fenômeno, no entanto, não se restringe ao reduto carioca. A Lapa foi fundamental no processo de revalorização do samba. Mas isso transbordou para São Paulo, em noites como do Ó do Borogodó, na Vila Madalena. "A Lapa bomba, a Vila Madalena bomba... Daí a imprensa começa a abrir os olhos e a expansão faz com que o samba seja o centro da cena de novo", analisa Fabiana Cozza. Para Roberta Sá, houve uma aceitação entre os dois Estados. "Pela primeira vez o artista de São Paulo é bem recebido no Rio, e os cariocas tem boa recepção em São Paulo."A partir de amanhã, todos esses nomes e mais Arlindo Cruz, Teresa Cristina, Diogo Nogueira e Marina Machado vão realizar, até setembro, shows individuais em espaços ao ar livre e bares de São Paulo, Rio e Belo Horizonte para mostrar os "clássicos que continuam fazendo história". É esse o tema desta edição Circuito Original, que tem toda sua programação grátis e não se foca no samba - passeia também pelo jazz e pela bossa nova. Diante de artistas que formam a nova geração, mas que têm seu repertório fortemente atrelado às influências do passado, principalmente o samba, a reportagem provoca: afinal, o que temos de novidade? A pergunta causa reações díspares. Eduardo Neves concorda e dispara: "Fala-se Lapa, Lapa, Lapa... Acho que com a quantidade de músicos novos que surgiram, o que temos de novo em termos de repertório é muito fraco. É muito preso ao passado."Até então apenas observadora, Ana Cañas vê nesse ponto da conversa a possibilidade de se manifestar. E não economiza palavras. " ''Sou a única pessoa de São Paulo sentada nesta mesa que não tem nada a ver com o samba. E acho que existe um público jovem como a gente, que foi formado pela internet e tem interesse por artistas dessa geração - independentemente do samba. Acho Cartola, Pixinguinha, todos esses caras muito bons. Mas eles cantavam o seu tempo. E a gente tem de cumprir essa função: de cantar o nosso tempo. Tenho um ditado: ?Um pé no passado, outro pé no futuro e o saco no presente."Roberta Sá, que bebe na fonte do passado, mas também grava novos compositores, como Rodrigo Maranhão, diz que sente dificuldades de achar novas letras. E, ao contrário de Ana Cañas, acha a internet um meio impessoal para trocas. "Gosto de ligar para o cara, ir à casa dele, tomar cerveja e conhecer suas músicas. Mas tenho dificuldade, acho que faltam compositores que queiram que a cantora grave." Ana e Fabiana discordam. Ambas dizem receber muito material, e Ana afirma, inclusive, que o MySpace possibilitou um diálogo "muito importante" entre os músicos.A conversa recai para as cobranças. Rodrigo Lessa diz que é importante que esta geração traga material novo. Mas cobra um apoio que considera fundamental: divulgação na rádio. Jovem talento, Marcelo Caldi afirma que, além da falta de espaço, muitas vezes as emissoras sequer mencionam o nome do compositor .Como, por exemplo, quando Roberta Sá aparece cantando Samba de Um Minuto (letra de Rodrigo Maranhão). É desse acesso que Roberta reclama: "Muitas vezes, para você conhecer um compositor é preciso ir na internet para pesquisar. Não é mais como antigamente, que você podia conhecer através das rádios." Para Gabriel Moura, porém, a internet veio suprir essa carência. E fez com que essa geração aparecesse mais, ainda que o acesso à tecnologia ainda não seja para todos. "Enquanto você tinha de ir até à Rádio Nacional e esperar o artista aparecer para entregar uma composição, hoje você acha até o Roberto Carlos pela internet", brinca.O tom leve, porém, é quebrado quando são questionados sobre as políticas culturais. Um dia antes do encontro, Gilberto Gil havia anunciado seu desligamento do Ministério da Cultura. Músico, era de se esperar que Gil desse atenção ao setor. Mas, para muitos, sua gestão foi marcada mais pelos debates do que pelas atitudes práticas. Apesar de não creditarem toda culpa ao ex-ministro, a turma se decepcionou. "Eu esperava que o governo desse dinheiro para quem realmente precisa. Essa coisa de projeto cultural, lei de incentivo... Tem gente que não precisa e consegue. E quando a gente tenta não consegue, porque a gente perde para os artistas que vão dar muito mais mídia. Isso é um erro da lei", observa Roberta Sá, que em seguida atenua a crítica. "Acho fácil culpar só o Gil por isso. O que está errado é todo o esquema."Rodrigo Lessa corrobora e diz que está na centralização a raiz dos problemas. "A partir do momento que você entrega para a iniciativa privada o que ela vai fazer com o dinheiro público, como é a Lei Rouanet, você dá a liberdade de a empresa decidir que artista ela vai patrocinar. E para ela é muito mais interessante dar dinheiro para quem já é famoso, porque o retorno é maior. E aí você não reverte o quadro das injustiças, não dá chance para o artista novo." Sambista de raiz, Fabiana Cozza bate na tecla de que tornar a cultura um negócio é equivocado. "Pensando assim a cultura perde o valor de cidadania, de educação e de arte." Mas, afinal, a gestão de Gil foi válida? Eduardo Neves ironiza: "Ele entrou dizendo que não ia ser ministro para cuidar da carreira. E do mesmo jeito que entrou ele sai falando que quer voltar a ser músico."Em mais de uma hora de conversa, revela-se ali uma turma que tem afinidade em alguns pontos. Mas que também tem divergências - o que torna a conversa saudável, sem politicagem de um querer agradar o outro. Entre o passado e o futuro, a nova geração da música brasileira confirma autenticidade, ainda que mergulhe na produção de outras décadas. Ao fim, uma das produtoras do Circuito Original dá o veredicto ao acompanhar o registro da foto que reúne os músicos. "Essa foto daqui a dez anos será histórica." No que depender desses talentos, tudo indica que, de fato, ela está certa. A história da música brasileira ainda vai bem longe. ProgramaçãoANA CAÑASData: 16/8, SábadoHorário: 15h30Local: Coreto (Praça Antonio Prado, s/n.º - Centro); em frente do Salve JorgeGABRIEL MOURAData: 20/8, quarta-feiraHorário: 20 horas Local: No Quintal (Rua Joaquim Távora, 1.223)FABIANA COZZAData: 23/8, sábadoHorário: 15h30Local: Bar Atol (Rua Barão da Passagem, 1.460)SILVIA MACHETEData: 30/8, sábadoHorário: 17 horas Local: São Benedito (Rua Benedito Calixto,78) ANA CAÑASData: 4/9, quinta-feiraHorário: 20 horas Local: Veríssimo (Rua Flórida, 1.488)MARINA MACHADOData: 8/9, segundaHorário: 20 horas Local: Barnaldo Lucrécia (Rua Abílio Soares, 207)FABIANA COZZAData: 14/9, domingoHorário: 15h30Local: Jacaré (Rua Harmonia, 321/337) ARLINDO CRUZData: 16/9, terça-feiraHorário: 20 horas Local: Boteco Seu Zé (R. Mourato Coelho, 1.144)ROBERTA SÁData: 27/09, SábadoHorário: 15h30Local: Coreto (Praça Antonio Prado, s/n.º - Centro)

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