Para o samba de raiz não morrer

Velha Guarda da Portela vira arquivo histórico em longa de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda

Pedro Henrique França, RIO, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

Marisa Monte e Paulinho da Viola discorrem em uma bela tarde de uma quinta-feira sobre a Portela e sua Velha Guarda. Nenhuma surpresa, já que ambos têm histórias antigas com a bandeira azul e branca. A escola foi fundada em 1923 e Paulinho trouxe à tona a Velha Guarda, ao reunir membros históricos da escola para gravar um disco, em 1970. Foi daí que surgiu a Velha Guarda Show, que passou a ter Paulinho como seu padrinho. Já a diva da MPB traz ligação familiar com a escola: passou a infância vendo seu pai, Carlos Monte, como diretor da agremiação. Paulinho completou 65 anos em novembro; Marisa fez 40 em julho. No encontro de gerações e talentos, os dois admiram o samba que tanto conhecem e debatem sobre a poética das antigas e novas canções. Músicas essas criadas por veteranos nomes portelenses, como Manacéa, Argemiro Patrocínio e Monarco, figuras sagradas de Oswaldo Cruz, um longínquo bairro da zona norte carioca, que fica ao lado de Madureira, onde se concentra a tradicional escola da águia azul e branca. Em Oswaldo Cruz, que foi zona rural e o trem ainda é meio de acesso, o cenário preserva um lado rústico e as pequenas casas abrigam diamantes do samba - quase um recanto perdido no tempo. A conversa entre Marisa e Paulinho não é mero acaso. Trata-se da última tomada gravada, que conduzirá a narrativa de algumas cenas do novo longa dos diretores Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, em parceria com as produtoras Conspiração Filmes e Monte Criação e Produção - esta, de Marisa Monte.A previsão é de que o filme seja finalizado até abril de 2008, quando deve entrar em cartaz. Em entrevista ao Estado, Carolina disse já ter feito as últimas gravações. Pouco antes, outro encontro fora registrado: Zeca Pagodinho e Marisa protagonizaram um grande pagode" na Portelinha com a Velha Guarda. "Foi uma tarde linda de música", diz Carolina.Tudo começou meio que sem querer. Marisa Monte iniciou em 1998 o processo de gravação de um projeto com a Velha Guarda portelense, registrado em CD no ano seguinte e que recebeu o simbólico nome de Tudo Azul. Com produção de Marisa, damas e mestres do samba de Oswaldo Cruz gravaram pérolas, como Lenço, Sempre Teu Amor e Eu te Quero. A cantora não ficou só na produção - também emprestou sua voz em Volta Meu Amor. Foi uma forma de retomar a história destes bambas, como assim fez Paulinho em 1970.Desde Tudo Azul, Lula e Carolina registraram cenas daqueles primeiros contatos, mas sem "nenhuma pretensão maior". "Começamos acompanhando e captando as gravações de Tudo Azul. E fomos vendo que tínhamos um material bem raro e que não daria para se resumir a um registro somente do disco. Ficamos com vontade de mostrar mais daquele samba", revela. Vontade criada, missão a ser cumprida. Lula e Carolina passaram a acompanhar a rotina do subúrbio carioca e a destacar as pessoas mais antigas da própria Velha Guarda. Durante as filmagens, buscaram individualizar os personagens, com objetivo de esmiuçar casos, entender processos de criação e trazer essas figuras mais próximas do filme e público. Para alguns pode surgir uma inquietação sobre uma possível semelhança com o documentário que mostra Paulinho da Viola em meio aos seus amigos de Oswaldo Cruz. Carolina discorda da comparação e diz que Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje (2003), de Izabel Jaguaribe, se foca exclusivamente no músico. "Meu Tempo É Hoje é sobre o Paulinho, o nosso é sobre a Velha Guarda da Portela e seus compositores, ambiente e inspirações", frisa. A proposta, afirma a cineasta, não é realizar um documentário biográfico da Velha Guarda. É mais do que isso. A intenção é preservar a memória deste samba, como assim fizeram (e ainda fazem) Marisa, Paulinho e Zeca, nomes consagrados da MPB e do samba que funcionam como porta-vozes dessa arte ao grande público. Segundo Carolina, os três são muito queridos na Portela, mas nada de tratamento diferenciado. Marisa, Zeca e Paulinho fazem parte da família azul e branca.Com o longa, Lula e Carolina querem popularizar e registrar ainda mais este samba que "brota de um cotidiano comum", das ruas de Oswaldo Cruz, de pessoas que labutam no dia-a-dia e ainda arrumam tempo para se dedicar ao que realmente gostam: retratar histórias, amores vivenciados e perdidos, dor-de-cotovelo. Na Portela, até o feijão da Vicentina é tema para um bom batuque. Em meio a atividades comuns, os membros da Velha Guarda compuseram, como Carolina define, canções "sofisticadíssimas". "Todos os personagens têm uma profissão, além da música. Casemiro (da Cuíca) era pedreiro, o Argemiro era técnico de refrigerador", comenta. "O filme vai atrás do encontro com a arte mais pura, com a grandeza da composição e do cotidiano influenciando essas criações", afirma ela, lembrando ainda que o filme abrirá espaço para mostrar um lado mais geográfico, da criação de Oswaldo Cruz. Mas nem tudo são somente alegrias e ganhos no mundo de Oswaldo Cruz. Nesses últimos anos em que estiveram acompanhando o cotidiano do bairro, Lula e Carolina se aproximaram de personagens que morreram no decorrer das gravações: Argemiro Patrocínio, em maio de 2003, e Jair do Cavaquinho, em abril do ano passado. Carolina conta ter tido um aprendizado. Lá, entre aqueles com idade mais avançada, a passagem para o outro mundo que desconhecemos é encarada de forma natural - sem deixar pulsar a emoção. "Eles (da Velha Guarda) ficam muito mexidos, mas entendem como um curso natural da vida, e que é mesmo, na verdade. Eles já estão numa certa idade para estar ali e adquirem uma relação tranqüila com a morte", relata Carolina. Ela conta ainda que a perda desses integrantes não enfraquece o samba. São baixas importantes, mas Oswaldo Cruz está a todo vapor e se rejuvenesce. "Tem uma passada de bastão para novos nomes, sim, é uma relação louca isso." Carolina aponta nomes de novos representantes: Áurea, filha de Manacéa, Serginho Procópio, filho de Osmar do Cavaco, e Mauro Diniz, filho de Monarco. Entre eles, diz a cineasta, a genética fez seu papel e "o samba corre na veia". "Sinto que há essa passada de informação, para esse samba não acabar." Sem revelar valores de orçamento e sem título definido, Carolina diz estar no processo de edição do longa. Com cerca de 200 horas de gravação, hoje eles já estão com um material bruto em torno de três horas. Os cortes, diz ela, são de "cortar os pulsos". No mundo de Oswaldo Cruz, celeiro de pessoas comuns onde o samba nasce espontaneamente e com uma qualidade ímpar, terra de tantos bambas, o samba de fato não poderia - nem deve - morrer.

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