Para Nhá Terra, com todo carinho

Ponto de Partida e Meninos do Araçuaí estréiam espetáculo emocionante em BH

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2022 | 00h00

Difícil é conseguir assistir ao espetáculo Pra Nhá Terra sem que as lágrimas turvem a sua visão. O grupo teatral de Barbacena, Ponto de Partida, está de volta aos palcos - e, mais uma vez, convida os Meninos de Araçuaí, município do Vale do Jequitinhonha (a 678 km de Belo Horizonte), para juntos contarem a história de Nhá Terra, a mãe natureza que há algum tempo clama por ajuda. Sem didatismo ou moralismos, o espetáculo é entremeado por canções compostas inclusive pelo padrinho dos meninos, Milton Nascimento, e por um riquíssimo enredo montado pela trupe sobre poemas do mato-grossense Manoel de Barros.Guardiães das sementes, das águas, dos bichos pequenos e dos ventos enfrentam uma difícil situação e devem comunicá-la a Nhá Terra. Lamentam a devastação e se reúnem para apresentar soluções. Artêmis, a guardiã das florestas, constata que perdeu 1,2 milhão de árvores. "Cortaram, Nhá. Mas já tô criando filhotes de jacarandá no fundo da mata! Tatu me ajudou."O Tatu, como uma entidade superior, a tudo observa. "Calma, Nhá, ele vai dar jeito em dois tempos." Os guardiães se surpreendem, então, em saber que Tatu entrou no buraco e desistiu de lutar. "Vão, convoquem meus filhos, eles têm que ter olhos de ver. Eles têm que encontrar todos os motivos para Tatu voltar a ser o meu cavaleiro encouraçado", encoraja Nhá Terra. O belíssimo espetáculo, que a partir desse momento tem início com 50 artistas em cena, estreou sábado passado no Teatro Palácio das Artes, em Belo Horizonte, graças ao patrocínio da Telemig Celular.?Prest?enção? e ?ó pcê vê? são apenas duas das expressões mineiríssimas que deixam a encenação ainda mais cheia de graça. Os bambus que preenchem o cenário se transformam em girassóis, nas águas do rio, nos galhos das árvores. O público emocionado ainda ganhou mudas de plantas ao fim do espetáculo. Os mineiros conhecem e acompanham o trabalho dessa parceria entre o Ponto de Partida e os Meninos de Araçuaí desde 1999, quando lançaram o álbum Roda Que Rola.Quem não se lembra, então, do espetáculo Ser Minas tão Gerais, de 2002, quando Milton Nascimento comandou uma grande festa? Depois de gravar o DVD em 2004, seguiram para o Théâtre des Champs-Elysées, em Paris, em 2005. "Os meninos não tinham roupa de frio, nem sapatos fechados. Graças às muitas doações, eles chegaram lindos!", relembra Regina Bertola, diretora e fundadora do Ponto de Partida. Foram ovacionados pela platéia formada em maior número por franceses.O encontro entre o grupo teatral mineiro e os meninos nascidos em uma das regiões mais miseráveis de todo o País se deu graças a Tião Rocha, idealizador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), existente há 23 anos. Nascido na capital mineira, Rocha tomou contato com a realidade do Vale do Jequitinhonha quando era universitário, por meio do Projeto Rondon. Somente em 1998, quando a TV Cultura exibiu uma matéria sobre a região, a Natura se prontificou em dar o pontapé inicial para uma intensa transformação. E convocou o CPCD para realizar o trabalho. "Milhares de cestas básicas foram doadas. Mas o que eles precisavam ali era de um futuro", lembra Rocha.Ele chamou Regina, do Ponto de Partida, para juntos iniciarem um árduo trabalho de amadurecimento pessoal e profissional. "Os meninos morriam de vergonha. Eram tristes. As meninas puxavam tanto os cabelos para que ficassem lisos que tinham feridas na cabeça", conta Regina. A forte expressividade que os meninos apresentam hoje, no palco, deixa qualquer um boquiaberto. Eles interpretam as canções; entendem e repassam as histórias como delicados contadores.Yuri Hunas, por exemplo, tinha 10 anos quando começou a trabalhar com a trupe. Hoje, aos 19, é músico de Pra Nhá Terra. "Estou no 3º ano da Bituca." O apelido de Milton Nascimento batizou a Universidade de Música Popular fundada em 2004 em Barbacena. Por sua vez, Karine Montenegro, de 12 anos, é uma estrelinha reluzente. A garota que quer ser cantora estreou em Paris e diz não sentir tanta saudade de casa: "Aqui recebemos o mesmo carinho."No fim de agosto, um cine-teatro de 100 lugares será inaugurado em Araçuaí e todos estão convidados. "Eu penso em renovar o homem usando borboletas." Manoel de Barros lançou o desafio e, pelo visto, eles vêm seguindo à risca.

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