Para não dizer que não falei de Natal

Andávamos, Márcia e eu, pela praia de Ponta Negra no rumo do morro do Careca. Sol, porém a brisa constante amenizava a quentura, o que era agradável, porém problemático, a pele reclama depois. À medida que nos afastávamos do hotel Ocean Palace, a paisagem humana ia se modificando, a praia mostrando-se ocupada por gente cada vez mais simples, festiva, ruidosa e por vendedores de CDs de forró, redes, toalhas de renda, artesanato, castanhas de caju torradas, caipiroscas e caipirinhas, espetinhos de camarão, ostras frescas, sanduíches naturais. Acreditem, ainda existem com atum de lata e pão industrializado!A praia é limitada pela Via Costeira, na qual, há décadas, proibiu-se a construção de arranha-céus, evitando a catástrofe que aconteceu no Guarujá, no litoral paulista, inteiramente desfigurado. Os hotéis estão autorizados a erguer prédios de até três andares, o que os torna longos, com jardins e piscinas que se estendem e se harmonizam com a praia. A lei é cumprida, vimos um, de quatro andares, embargado. E seria de luxo!Letreiros investem em três línguas: Para alquilar, To rent, Aluga-se. Casas e apartamentos, hotéis e pousadas, quartos. Passamos por um ristorante, Fellini, assim mesmo, em italiano. Uns metros mais e encontramos o Bar Hemingway. Farão um bom daiquiri? Meninos oferecem um guarda-sol e cadeiras de praia por seis reais e se encarregam de buscar cervejas geladíssimas. Sentados, somos alvo fácil: "Leve uma toalha de renda para agradar a sogra", "leve um saquinho de castanha de caju para me ajudar a comprar minha casinha". De repente, passa um vendedor de sunga, camisa branca social, manga comprida, fechada e gravata com um nó bem dado. Um paulista? Ele explica: "Minha empresa quebrou, só me sobrou a gravata." Fico sabendo, é um tipo popular, criou o personagem. Compro mais castanhas de caju, gosto de gente criativa.Natal, Rio Grande do Norte. Uma dádiva de quem criou a natureza, seja quem for esse criador. A cor azul verde turquesa do mar se estende ao infinito e nos tranqüiliza. Ninguém tem pressa. Não há "estrésse", como eles pronunciam gostosamente. Nessa terra foi colocado um dos povos mais cordiais e amáveis deste Brasil. Viemos a esta cidade para o 3º Encontro Natalense de Escritores, ENE, que começa a se firmar, a fazer parte do calendário cultural do País, e cujo convite, todos que escrevemos, ficamos à espera. Bem organizado, são mil pessoas na platéia, dentro da tenda refrigerada erguida na Praça Augusto Severo, na Ribeira, um ponto revitalizado da cidade, restaurado sem descaracterizar, com técnica e apuro, respeitando a história. Organizado pela Fundação Cultural Capitania das Artes, da prefeitura, sob o comando de Dácio Galvão, merece atenção da mídia do Sul. Palestras, lançamentos, exposições e final com uma Orquestra de Violões primorosa. Tudo corre em engrenagem azeitada, desde o tratamento cinco-estrelas para os convidados, como pela gratuidade para quem quer assistir. Não há elitismo. No palco desfilaram figuras como Nicolas Behr, ícone da poesia e do ensaio em Brasília, Chico Mattoso, Silvério Pessoa, Xexéu, poeta cordelista, Antonio Carlos Secchin, Antonio Ronaldo, Nivaldete Ferreira, Homero Fonseca, Moacir Amâncio, José Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes, Washington Novaes, Zuza Homem de Mello, Cristovão Tezza, o autor mais celebrado do ano, e com justiça, Humberto Hermenegildo, Carlos Heitor Cony e outros. Aliás, na volta, no avião, Cony foi confundido comigo, acharam que ele tinham escrito Não Verás País Nenhum. Tomara achassem que escrevi Quase Memória.Para bem tratar tudo e todos há uma equipe low profile que a cada ano dobra e se desdobra, trabalha nos bastidores anonimamente, com elas a coisa não emperra. São Anna Maria, Alessandra, Ana Paula, Conceição, Débora Elenilda, Hosana, Lorena, Mayara, Núbia, Renata, Roseana e Sheila. Elas nos indicaram o restaurante Camarões (tem o Velho e o Novo, os dois bons), onde o camarão servido no jerimum, gratinado com queijo de coalho, provoca êxtase. As hostess nos levaram depois ao Camilla, no dia em que lagostas frescas haviam chegado e foram servidas com risoto venere, preparado com arroz negro. Para querer nunca mais abandonar Natal.A viagem a Natal valeu, sobretudo, para abraçar Marize Castro, poeta e jornalista, que lançou Além do Nome, antologia de entrevistas que ela fez para o caderno Viver da Tribuna do Norte. Marize Castro, jornalista solar, como a definiu Woden Madruga. Se eu fosse editor, queria Marize em minha equipe. Quando se fala em jornalismo literário, é necessário conhecer seus textos, a maneira como ela envolve o entrevistado para envolver o leitor. Se você quer conhecer a literatura rio-grandense-do-norte, passe por esse livro que deveria ter distribuição nacional. Como é grande e incompleto este Brasil. Perfis que vou lendo um a um, sossegadamente, me imaginando em Natal, sem "estrésse". Assim falei de Natal e não do Natal, a festa. A literatura, diz Antonio Torres, além do prazer do texto, tem nos levado pelo Brasil, para fazer um leitor aqui, outro ali, e amigos por toda a parte. Precisamos de dinheiro? Para comer e beber o suficiente.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

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