Para minhas queridas, com ternura

Nas cartas que a viajante compulsória Clarice Lispector trocava com as irmãs, transparece a autora angustiada pelo desajuste

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

O escritor Otto Lara Resende festejava quando recebia, pelo correio, alguma notícia de Clarice Lispector. ''''Ler as cartas de Clarice é como saborear garrafas de champanhe espumante'''', dizia ele. De fato, como viveu diversos anos fora do Brasil (diplomata, o marido Maury Gurgel Valente serviu em outros países), a escritora manteve uma ativíssima correspondência com amigos e parentes. Muitas cartas já foram publicadas em livro e justamente o que faltava, as que Clarice trocou com as irmãs Elisa e Tânia, chega agora no volume Minhas Queridas, que a Rocco lança na próxima semana.Trata-se de 120 cartas enviadas por Clarice no período de 1940 a 1957, quando acompanhou o marido em suas missões no exterior. Durante esses anos, eles viveram em Nápoles, Berna, Torkay (Inglaterra) e Washington. Passaram ainda por cidades como Casablanca, Cairo, Roma, Lisboa, Florença, Paris e Filadélfia. Sua produção, nessa época, foi pequena se comparada às décadas seguintes, quando voltou a morar definitivamente no Rio em 1959. Mesmo assim, Clarice escreveu dois romances: A Cidade Sitiada (1949) e A Maçã no Escuro (1961), sendo que O Lustre (publicado em 1946) estava terminado quando ela se mudou para Nápoles.Também produziu pequenas narrativas, incluídas nos volumes Alguns Contos (1952), Laços de Família (1960) (que absorveu os seis contos do livro anterior somados a sete inéditos) e A Legião Estrangeira (1964). Foi também durante esse período em que nasceram seus dois filhos, Pedro e Paulo.Foi, no entanto, um período difícil para a escritora. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2.ª Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses. A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma extremada relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escrita.Organizadas pela biógrafa Teresa Montero, as cartas de Minhas Queridas revelam uma mulher que, ao viver longe de seu país, se descobre desnorteada por uma desenraizamento súbito. Mas principalmente uma escritora que sofre por não estar no ambiente propício para a criação.''''Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso'''', escreveu ela em 1942, quando ainda estava no Rio de Janeiro - seu périplo europeu começou dois anos depois. ''''Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor.''''As cinco primeiras cartas do livro mostram Clarice e Elisa morando com o pai, Pedro Lispector, em uma vila na Tijuca. Com a morte dele, em 1940, as duas irmãs passam a morar com Tânia, então casada com William Kaufmann. ''''Elisa, a irmã mais velha, era dotada de um temperamento reservado'''', observa Teresa Montero, no prefácio do livro. ''''Nas cartas, Clarice mostra-se mais à vontade com Tânia para discorrer sobre os problemas pessoais.''''A viagem de Clarice e Maury começa por Belém, onde faz uma parada até chegar à África. Lá, conheceu as vilas de negros em Fisherman''''s Lake, na Libéria; as pirâmides do Egito; a cidade de Casablanca tomada por soldados ingleses, franceses e americanos; e o deserto do Saara.Quando chega a Nápoles, onde vai viver durante um ano e nove meses, Clarice descobre os horrores da guerra. ''''É verdade que se culpa a guerra de muita coisa que sempre existiu aqui'''', escreveu ela, em janeiro de 1945. ''''A prostituição, por exemplo, sempre foi aqui um grande meio de vida. A guerra é boa talvez no sentido de chamar a atenção para certos problemas. Talvez incorporem estes na resolução de outros propriamente de guerra.''''Para se sentir mais útil, Clarice trabalhou como voluntária no trabalho com os soldados feridos da Força Expedicionária Brasileira. Mesmo assim, sente-se incomodada por viver no consulado,''''onde nenhum minuto se respirava sozinha''''. O que lhe mais doía, porém, era não conseguir se sentir à vontade para escrever. Sobre O Lustre, por exemplo, que já estava terminado, Clarice não se sentia satisfeita. ''''Não sei como fazer o livro amadurecer mais. Se livro fosse como maracujá, punha-se na gaveta e ficava em vez de ''''maracujá de gaveta'''', livro de gaveta.''''A situação complicou com a obra seguinte, A Cidade Sitiada, de difícil gestação. ''''Creio que nuns dois meses posso dá-lo por encerrado. Acontece que vou encerrá-lo porque já tenho nojo dele'''', escreveu para Tânia, em 1947. ''''Foi o trabalho que mais me fez sofrer. Já são três anos que viro e mexo, abandono e retorno. E faz apenas uns 3 meses que sei afinal o que eu estava querendo dizer nele...''''Clarice conta que teve de não pensar no livro, tamanha náusea que lhe provocava. ''''Não evoluí nada, não atingi nada. Continuo com os pés no ar, continuo vaga e sonhadora, deslocando de algum modo o sentido da vida.'''' Em seguida, uma pista para explicar tal desorientação: ''''Em todo esse período de três anos, desempenhou grande papel minha desadaptação.''''A sensação de viver longe dos entes queridos (ela chega a dizer que ''''não existem lugares, existem pessoas'''') a afasta daquelas que considera as quatro musas eficientes para um escritor: saúde, sossego, paciência e inspiração. ''''Tenho receio de ficar permanentemente fatigada'''', escreve de Florença, em 1945. ''''Eu procuro fazer o que se deve fazer, e ser como se deve ser, e me adaptar ao ambiente em que vivo - tudo isso eu consigo, mas com o prejuízo do meu equilíbrio íntimo, eu o sinto.''''Clarice busca minimizar a distância escrevendo compulsivamente para as irmãs, pedindo, exigindo até, idêntica atenção. A alegria provocada pela chegada de uma carta é tamanha que ela chega a cômicos exageros - como em 1946, quando vivia em Berna e, ao ir ao cinema, carrega a recém-chegada correspondência das irmãs no sutiã. ''''Porque assim sinto o calor da amizade de vocês'''', justifica.A amargura, no entanto, não é preponderante nas cartas. Clarice revela-se também uma observadora bem-humorada, tanto de cidades como de pessoas. Sobre Eva Perón, a carismática líder argentina, ela escreveu em 1947, quando Evita passou por Berna, na Suíça: ''''Nas ruas, ela recebeu um tomate de um cidadão - o tomate lançado com violência não chegou porém a atingi-la. Em Lucerna, jogaram uma pedra. Ela é muito bonita mesmo, e deve andar ligeiramente desgostosa em ver que nem todo mundo gosta dela.''''Ainda em Berna, Clarice descobriu o existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja obra recomendou para as irmãs. No Cairo, foi a um cabaré egípcio e viu a dança do ventre. ''''Acreditem ou não, a música da dança era Mamãe Eu Quero, em ritmo adequado...'''', brincou. Durante sua estada em Washington, aproveita para conhecer Los Angeles e Hollywood, onde conhece pessoalmente o comediante Danny Kaye e o ator Peter Lawford, ambos ''''uma uva''''.Acima de tudo, estava a escritora preocupada com seu ofício. Aos poucos, percebe-se que as reclamações de Clarice têm fundamento. Para ela, escrever era a atividade mais importante de sua vida. Mais que a desaprovação externa, Clarice temia a própria autocrítica. E jamais pretendia se tornar uma escritora comum, como observou em uma carta para Tânia: ''''Fazer crônicas de estilo ligeiro tem muito perigo. O perigo de tomar gosto na facilidade de escrever. O perigo de cair no que Antonio Candido chama de literatura infernal.''''Frases''''Infelizmente sou um espírito cansado e blasé. Pouca coisa me entusiasma, eu bebi demais na literatura.''''''''O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível.''''''''Temos ido como sempre ao cinema e saio meio tonta do cinema, de tal forma estou sempre disposta a perder a consciência das coisas e a me entregar à inconsciência.''''''''Eu sempre disse a mim mesma que o amor que os outros têm pela gente cria mais deveres que o amor que a gente tem pelos outros.''''''''Berna é de um silêncio terrível: as pessoas também são silenciosas e riem pouco. Eu é que tenho tido acessos de riso. O último foi com Maury (o marido) no cinema e tivemos que sair.''''''''O meio diplomático é composto de sombras e sombras. É considerado mesmo de mau gosto ter um gosto pessoal ou falar de si ou mesmo falar de outros. Ninguém se dá propriamente com um diplomata; com um diplomata, se almoça. Isso tudo - e mais o conforto, as facilidades e a instabilidade - faz com que eles se considerem à parte e acima dos outros.''''Mais Conversas Com ClariceCORRESPONDÊNCIAS (Rocco, 2002) - Cartas trocadas com outros escritores, artistas, intelectuais e familiares.CARTAS PERTO DO CORAÇÃO (Record, 2001) - Correspondência com Fernando Sabino, trocada entre 1946 e 1969.OUTROS ESCRITOS (Rocco, 2005) - Além de diversos textos inéditos da escritora, o livro traz a transcrição da entrevista concedida para os amigos Affonso Romano de Sant''''Anna e Marina Colasanti, arquivada no MIS do Rio.ENTREVISTAS (Rocco, 2007) - Entre maio de 1968 e outubro de 1969, Clarice Lispector manteve uma seção na revista Manchete, na qual publicava entrevistas com figuras importantes da cultura do País, como Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar, Emerson Fittipaldi, Oscar Niemeyer e Vinícius de Moraes.

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