Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Especial: Para ganhar likes, público elege espaços para selfies em museus brasileiros

Já na música, os celulares se tornaram uma forma de divulgação

Pedro Rocha, Especial para o Estado

06 Outubro 2018 | 18h00

Em sua primeira visita ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o Masp, a estudante Isabella Mendes, de 18 anos, confessa: parou para tirar foto na obra Cristo Abençoador, de Jean-Auguste Dominique Ingres, por ter visto diversos amigos fazendo o mesmo nas redes sociais. “Virou um meme.”

Em apenas 20 minutos na frente do quadro, a reportagem observou cerca de 15 pessoas fotografando a pintura de 1834. Muitas imitavam o gesto de Jesus, com as mãos para cima e olhos revirados. Simbolicamente, o gesto era de bênção, mas, nos dias atuais, o olhar ganhou um novo significado, de tédio ou desprezo. “É diferente ver Jesus desta forma, meio cômica”, afirma o estudante paranaense Felipe Freitas, de 23 anos. 

Para o Masp, essa onda de selfies em frente às obras é positiva. “Não é algo que necessariamente estimulamos, mas que acontece naturalmente”, afirma o curador-chefe do museu, Tomás Toledo. “Enxergamos como uma forma de aproximação dos visitantes com as obras de arte. É a oportunidade de um primeiro contato que pode ser aprofundado.” O museu constantemente publica, em suas redes sociais, fotos feitas pelo público. Tomás lembra que o hábito não é algo novo, no próprio acervo do museu há um registro da década de 1950 de um visitante imitando a pose do quadro Retrato de Leopold Zborowski (1916-19), de Amadeo Modigliani. As redes sociais, porém, potencializaram o movimento.

Bastou uma foto da cantora Katy Perry, em visita ao Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC), deitada no gigante gato da obra Um Amor sem Igual, de Nina Pandolfo, para que seus fãs, de vários lugares, começassem a demonstrar, nos comentários das fotos, interesse de conhecer o museu pessoalmente. “Precisamos ir lá”, diziam vários seguidores. Segundo o diretor, o professor Carlos Roberto Brandão, o gato é um atrativo, apesar de não ter sido colocado lá por isso. “É o mesmo das pessoas que vão ao MAC pela vista do terraço. Elas passam pelo museu. O desafio é fazer com que fiquem.”

Para ganhar likes

Se o público quer ganhar mais curtidas nas redes, alguns museus internacionais já pensam em como se adequar. Em Nova York, há cerca de dois anos, foi inaugurado o Museu do Sorvete, cujas obras imersivas foram criadas justamente para serem fotografadas para o Instagram. No Brasil, ainda não há um museu de arte especializado, mas, recentemente, uma exposição temporária num shopping de São Paulo, a FunCast, foi feita com o objetivo.

Sabendo, porém, do desejo do público, algumas exposições que estão em cartaz possuem espaços especiais para fotos. Na entrada do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, o público pode fazer selfies num gigante cubo que reproduz azulejos famosos do artista Athos Bulcão, numa mostra sobre sua obra. Ao final da exposição Irving Penn: Centenário, no Instituto Moreira Sales, também em São Paulo, os visitantes podem se fotografar num espaço semelhante ao canto em que Penn registrou nomes como Truman Capote.

Mas, nos principais museus e eventos de arte em São Paulo, a tendência parece deixar o público eleger seus espaços. Para a Bienal deste ano, o curador-geral, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, confessa não ter pensado em locais para fotos. Na campanha publicitária do evento, inclusive, a proposta é se desligar do virtual. “A Bienal tem uma proposta de desaceleração, mas temos que aceitar que é inevitável, uma guerra que vamos perder. Então, estamos com algumas tentativas de incorporação.”

Além de atividades com o educativo, a Bienal conta ainda com o trabalho do artista Bruno Moreschi, que convida o público a enviar fotografias para um site, para que sejam utilizadas num projeto que envolve inteligências artificiais. A Bienal é gratuita e, para Pérez-Barreiro, o único problema de qualquer mostra pensada para selfies seria o viés capitalista. “Se é só para vender ingressos, sou contra.” 

O Masp não pretende adotar medidas curatoriais para favorecer selfies, mas tem ajustado sua iluminação. “A selfie pode ser uma porta de entrada para um interesse maior sobre uma obra”, diz Toledo. Na Pinacoteca, a curadora-chefe, Valéria Piccoli, compartilha dessa ideia. “Sou reticente com isso dentro do circuito da exposição, mas, se nós vermos alguma coisa bem feita em outro museu, podemos nos convencer de que é um caminho”, afirma. Segundo Piccoli, a questão ainda é nova e as instituições estão aprendendo a reagir. “Mas é bacana, cada um tem que criar a própria experiência.”

No MAC, o diretor do museu afirma que tem estudado como incorporar a questão. “É um fenômeno mundial.” Brandão acredita que atrativos são positivos. “São estratégias para tornar a expografia atraente. A questão da selfie é nova e faz sentido, não vejo demérito.” Ele tem, no entanto, questionamentos quanto às fotos. “O que se pode criticar é o caráter efêmero das selfies.”

No Municipal, celular virou forma de divulgação

Teatro criou momento após as apresentações em que público é  convidado a filmar e  fotografar concertos

João Luiz Sampaio, especial para o Estado

À medida em que a Sinfonia nº 9 de Mahler se encaminha para o final, a música vai morrendo aos poucos até sumir por completo, substituída por um silêncio dilacerante – a não ser, claro, que neste momento um celular comece a tocar. Foi o que houve, há algumas temporadas, em um concerto da Filarmônica de Nova York.

O caso – e a bronca na plateia dada pelo maestro Alan Gilbert – ganhou tanta repercussão que o dono do celular chegou a dar uma entrevista ao New York Times, dizendo que a culpa o fez ficar duas noites sem dormir. Pudera. No mundo da música clássica, barulhos não costumam ser bem-vistos. Ainda mais de celulares – problema para o qual salas de concertos têm buscado encontrar soluções, em alguns casos utilizando os aparelhos como ferramenta de divulgação.

Na Sala São Paulo, os programas de concertos costumam trazer regras de comportamento que incluem o ato de desligar o celular. E quem insiste em mexer nos aparelhos durante concertos são abordados discretamente pelos funcionários. Já no Teatro Municipal e no Teatro São Pedro, os funcionários carregam um apontador luminoso, que é direcionado àqueles que sacam seus telefones. 

O Municipal, no entanto, resolveu usar a seu favor o desejo das pessoas de registrar as apresentações a que assistem. O teatro criou o Bis no Municipal: em todas as apresentações, durante o bis, é permitido fotografar e filmar e o público é convidado a postar as imagens em suas redes sociais com a hashtag #bisnomunicipal. 

“As pessoas têm vontade de usar os celulares para mostrar onde vão. Criamos o Bis no Municipal para que elas possam se concentrar durante o concerto e, depois, fotografar e filmar à vontade”, diz o secretário municipal de Cultura André Sturm. “De um lado, resolvemos esse problema e ainda ganhamos divulgação para o teatro. Fizemos buscas nas redes sociais antes e depois que começamos a fazer esta ação e notamos a diferença em termos de exposição. Passamos a ter milhares de inserções.”

O celular, nesse sentido, não precisa ser um vilão. O Instituto Baccarelli, por exemplo, iniciou este ano uma parceria com o site Catraca Livre para transmitir ao vivo pelo Facebook as apresentações de seus grupos. “Os smartphones representam uma ponte para um público erroneamente rotulado como avesso à música de concerto”, diz Edmilson Venturelli, um dos diretores do instituto.

“Esse projeto tem feito com que nossas apresentações sejam vistas por milhares de pessoas. E outra coisa fantástica é possibilidade de interação com o público em tempo real, pois os concertos são comentados por experts da área.”

Em shows, ao menos, evite fotos com flash

Proibir as fotografias é uma tarefa das mais difíceis; Eddie Vedder tentou em SP, mas não foi bem-sucedido

Pedro Antunes

 Um amigável Tom Zé aparece nos telões da Casa Natura Musical, na zona oeste de São Paulo, antes de cada um dos shows. Em meio às normas de segurança (como a localização da saída de emergência e de extintores de incêndio), ele diz: “Pode fotografar somente com autorização do artista, mas, se for fotografar, não use flash nem ‘contra-flash’”.

Invariavelmente, um flash ou outro escapa, mas o mais seguro é que nenhuma das fotografias realizadas com aparelhos celulares comuns sejam capazes de contrabalançar a luz excessiva que costumeiramente é jogada sobre o artista. 

Celulares e shows são rivais há tempos. Existe o time do “viva a experiência real” da performance ao vivo. Alguns vão até o limite, como é o caso do guitarrista Jack White, que, janeiro deste ano, anunciou que o uso de celulares seria vetado na sua turnê (eles deveriam ser depositados em bolsas específicas e só seriam usados em áreas destinadas a isso).

“Acreditamos que vocês gostarão de deixar os aparelhos de lado por um tempo e experimentar música e nosso amor mútuo por ela pessoalmente”, disse ele, em comunicado, na época. 

Eddie Vedder, na última vinda a São Paulo, tentou proibir o uso dos aparelhos. “Não seja um Trump”, disse, ao microfone, uma produtora dele. Quem sacou o celular, de início, levou uma bronca dos seguranças do Citibank Hall (atualmente, Credicard Hall), mas era quase impossível conter a todos.

Na noite de quinta-feira, 4, na já citada Casa Natura Musical, a banda Carne Doce faz um show que é um convite às fotografias.

O melhor é jogar o jogo, afinal. E pedir, ao menos, para que se evitem os flashes. 

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