Para eruditos, o mesmo encanto, em novos formatos

Para atrair mais público, o setor agora adota marketing, novos meios de fazer concertos, gravações e documentários

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Em imagens captadas nos anos 70, o violinista norte-americano Yehudi Menuhin e o pianista canadense Glenn Gould debatem asperamente sobre a eterna disputa entre o concerto ao vivo e a gravação (no DVD Glenn Gould au-delà du Temps). O primeiro diz que a referência é e sempre será o concerto ao vivo; Gould, irônico, qualifica a afirmação de "pura bobagem". A gravação "é e será inevitavelmente, daqui para a frente, a referência". Se vivos estivessem, sem dúvida se sentiriam vencedores ao contemplar a realidade das gravações e dos concertos ao vivo com dois terços já percorridos na primeira década do século 21. De um lado, a gravação sob todas as suas formas, predomina incontestavelmente. De outro, a magia do concerto permanece inalterada.Trata-se de um duplo e antagônico processo. Nos últimos 20 anos, assistimos ao apogeu e declínio da gravação em suporte físico - CD, DVD - e, inversamente, ao crescimento da música gravada em áudio e vídeo veiculada pela internet. Então, diria um apressado, Gould venceu porque a música gravada é predominante. Não, responderia outro, olhando para o fortalecimento visível da música ao vivo.O fato é que, depois de lamúrias sobre a morte da música clássica, em todas as latitudes os músicos e sua instituição mais vistosa, a orquestra sinfônica, começaram a mexer-se para encontrar alternativas. Investiu-se muito em projetos educacionais envolvendo gravações: os audiolivros da Naxos, por exemplo, misturam música do catálogo da gravadora com biografia e análise musical para "capturar" novos ouvintes para a música clássica. Colocaram até a cinquentona boneca Barbie apresentando concertos em Londres, na linha Barbie Meets Beethoven. Do lado mais consequente, o Met de Nova York passou de 3.800 lugares em 2007 para 300 mil, graças à transmissão de suas montagens líricas em tempo real, e em TV de alta definição, para cinemas de várias cidades americanas. 2008 deve fechar com 1,5 milhão de espectadores. Afinal, o ingresso no Met custa US$ 295 e o de cinema US$ 22.Na verdade, o universo da música clássica começou a usar as ferramentas de marketing, e novos meios de organização de concertos, de gravações e de documentários, mirando sempre novos públicos. Os resultados já são visíveis. E frequentam já as prateleiras das raras lojas que ainda comercializam os suportes físicos e principalmente as estantes das lojas virtuais. Um parêntese: um número impressionante, fornecido pela Universal brasileira: o Brasil é o quarto país, em volume, em downloads de música clássica na loja virtual da Deutsche Grammophone. Isso significa que estamos atrás somente dos EUA, Japão e Inglaterra.DOCUMENTÁRIOO boom dos DVDs continua. E, mesmo com data marcada para acabar como suporte físico, tem sido o soro da indústria do disco. Outro dado interessante: no Brasil, vendem-se mais DVDs de concertos do que de ópera. Uma surpresa que denota a elevação significativa do público da música ao vivo (que os 12 mil assinantes da Osesp só referendam).Mas os números ainda eram insuficientes. O ouvinte demorava para trocar o CDplayer pelo home theater. O jeito foi "educar" o público. Surgiram, então, as séries de DVDs com propósitos pedagógicos. Muitos deles se miravam, mas ficavam longe da qualidade da pioneira e melhor delas, um primoroso pacote de sete DVDs intitulados Leaving Home - A Música Orquestral no Século 20, realizados por Simon Rattle nos anos 90, quando ainda estava na Orquestra de Birmingham, para a BBC.A EuroArts lançou nos últimos dois anos a série Discovering Masterpieces, que deu um salto em relação aos documentários: traz também a obra analisada em concerto. Une-se, portanto, o lado pedagógico com o concerto. Um dos bons exemplos da EuroArts é o DVD dedicado à Sinfonia Novo Mundo,de Dvorák, com a Filarmônica de Berlim e Claudio Abbado. Mas o documentário de 27 minutos é meio chato, parece aula, e não tem envolvimento com Abbado ou músicos da orquestra; vale, no entanto, pelo concerto, gravado ao vivo no Teatro Massimo de Palermo, em 2002.Em 2006, Michael Tilson Thomas e a Orquestra de São Francisco colocaram em prática o projeto Keeping Score: são programas de 50 minutos levados ao ar pela PBS em cadeia nacional, acoplados ao concerto. Já foram lançados DVDs com documentário e performance da Quarta Sinfonia de Tchaikovski, a Eroica de Beethoven e a Sagração da Primavera de Stravinski. A qualidade é ótima, embora permaneça a fratura entre o documentário-aula e o concerto propriamente dito. A série de 6 DVDs intitulada Classical Masterpieces da Arthaus em parceria com a Deutsche Welle, idealizada por Kent Nagano e a Orquestra Alemã de Berlim, é mais interessante. Alguns minutos são ocupados com animações de situações históricas. É engraçadíssimo ver Brahms tomando vinho no café e na mesa que Beethoven preferia, em Viena, discutindo com um amigo a sua Quarta Sinfonia; ou então Robert Schumann divagando obviedades com Clara às margens do Reno. As falas são autênticas, mas nem por isso menos óbvias. O mesmo acontece com Richard Strauss. As obras são a Quarta de Brahms, a Sinfonia Renana de Schumann e a Sinfonia Alpina de Strauss - execuções muito boas. Os demais DVDs, que não vi, enfocam a Júpiter de Mozart, a Eroica de Beethoven e a Oitava de Bruckner. Nessa enxurrada de erros e acertos, a grande sacada aconteceu em 2008: levar os recursos dos documentários para o concerto ao vivo. Vitaminá-lo, envolver o espectador de modo a fazê-lo sentir-se participante do concerto. Ou seja: alterar a estrutura do concerto. Finalmente, alguém entendeu que é preciso modificar a estrutura engessada do concerto público, uma forma de se apresentar música que nasceu e é típica do século 19. Já estava na hora de o concerto levar um banho de loja modernizante. É o que realiza, de modo fantástico, o projeto Beyond Score da Orquestra Sinfônica de Chicago, iniciado em 2006. Trata-se da exploração multimídia de uma determinada obra combinada com o concerto. No caso, a Quarta Sinfonia de Dmitri Shostakovich. Tudo ao vivo, diante da plateia. Um ator encarna o compositor e os vários personagens que interagem com imagens históricas, documentais - tudo costurado por um narrador. Ambos leem -- e o que poderia ficar chato se torna impactante devido à qualidade da edição de Gerard McBurney, o narrador; e pela atuação de Nicholas Rudall. O roteiro também é excepcionalmente bem-feito. Toda essa embalagem, porém, teria pouca serventia se a execução da música não observasse igual nível. Neste caso, é até superior. O melhor é a música executada de modo maravilhoso pela Orquestra de Chicago, liderada por Bernard Haitink, o primeiro maestro ocidental a gravar a integral das 15 sinfonias de Shostakovich com a Concertgebouw, lançada numa caixa com 11 CDS pela London em 1995.Podem até dizer que uma obra dessas, com implicações políticas tão fortes - foi proibida por Stalin em 1936 e só estreou 25 anos depois -, é prato cheio para um espetáculo desses. Mas pode-se fazer a mesma coisa com praticamente qualquer grande obra do repertório, sem cair nas quase sempre ridículas animações do projeto de Nagano. O esquema é simples: 50 minutos deste espetáculo multimídia, que inclui Haitink e a orquestra no palco tocando trechos, e muitas vezes funcionando como trilha sonora das poderosas e trágicas imagens de época exibidas no telão; intervalo; e execução da sinfonia na segunda parte. Isso, sim, transforma a audição, tanto de quem não sabia nada sobre a obra ou o compositor quanto de quem acha que já sabe tudo. A orquestra fez uma turnê europeia na primeira quinzena de setembro e levou a tiracolo seu mais recente lançamento: um CD-DVD contendo o espetáculo multimídia e o concerto da Quarta de Shostakovich. Um lançamento de seu próprio selo, o CSO Resound, vendido no site csoresound.com por módicos US$ 19,99 (o DVD é qualificado como bônus). Todos, músicos, maestros, organizadores de concertos, empresários artísticos e o público em geral precisam conhecer essa fórmula que inclui os ouvintes recém-chegados (e não os espanta, como o concerto ortodoxo atual).Mas agora vem o melhor de tudo. O público brasileiro vai poder avaliar a eficácia dessa fórmula inovadora já em abril, na abertura da temporada internacional do Mozarteum: o concerto intitulado Haendel Gala, programado para os dias 14 e 15 (Sala São Paul) 16 (Sala Cecília Meirelles, Rio) e 19 de abril (ao ar livre, no Ibirapuera). É, sem dúvida, uma variante da fórmula da Chicago, vinda da Alemanha, o que comprova a tendência em termos globais. Aqui, o ator Daniel Warren será Romain Rolland (1866-1944), o dublê de escritor e musicólogo francês que escreveu uma biografia do compositor em 1910; e o próprio Haendel será interpretado por Juca de Oliveira. Os intérpretes são a Ebipolis Baroque Orchestra de Hamburgo (leva este nome porque Hamburgo está às margens do rio Elba), o Coro da Academia do celebrado Festival de Schleswig-Holstein, com solistas a serem anunciados e regência de Rolf Beck. No programa, trechos dos oratórios Israel no Egito, O Messias, Judas Maccabeus, Solomon e Jephta, além da Música para os Fogos de Artifício Reais.Não por acaso, o autor de Jean Christophe foi escolhido para contracenar com Haendel nesta Gala. Sua biografia, escrita praticamente um século atrás, tirou de Haendel a peruca, o ar bovino, a grandiloquência e um oficialismo balofo com que era visto pelo século 19. Rolland, que fazia do imperativo moral a mola propulsora dos grandes gênios da humanidade, enxergou em Haendel um digno antecessor de Beethoven. Por mais deslocado que soe hoje, faz sentido. Afinal, o alemão de Halle - adotado pelos ingleses como seu compositor nacional - foi o primeiro músico a empresariar seu próprio talento em Londres; faliu com sua companhia lírica; e reinventou-se no oratório. Assimilou, como Bach, seu exato contemporâneo, os estilos musicais que rolavam na Itália e na França, e soube criar uma música cosmopolita e de alta qualidade. Rolland, como demonstra em Jean Christophe, calcado na figura de Beethoven, e na própria monumental biografia deste último, era chegado a obras de proporções épicas. E isso é algo que Haendel sabia fazer como ninguém - nos palcos e nas igrejas. Provavelmente, o Mozarteum programou esta Haendel Gala como tributo aos 250 anos da morte de Haendel. Para o público, porém, a oportunidade é outra: testar, ao vivo e em cores, como se pode desengessar o concerto. Será importante. E divertido.

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