Para entender a reinvenção da literatura norte-americana

Textos de Kerouac e Burroughs e estudo de Claudio Willer iluminam movimento

Ronaldo Bressane, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Eles sempre foram assim: estão por aí, então desaparecem, ficam um tempo longe, parecem esquecidos... e então ressurgem atropelando, causando, quebrando tudo. É desse jeito desde que William S. Burroughs, Allen Ginsberg e Jack Kerouac cruzaram suas erráticas e alucinadas existências em suspeitos bares e apartamentos da Nova York dos anos 40, formando a geração beat. O assunto estava adormecido até que dois lançamentos da L&PM (Visões de Cody, de Kerouac, e Geração Beat, de Claudio Willer) e um da Companhia das Letras (E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques, de Burroughs/Kerouac) devolvem à ordem do dia a ambição por transformar vida em literatura, e daí em vida de novo, típica daqueles iluminados vagabundos. Didático e lírico, Geração Beat (128 págs., R$ 12) esmiúça vidas e obras da sacrílega trindade (Burroughs/Kerouac/Ginsberg) e de coadjuvantes essenciais (Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Michael McClure, Gary Snyder), além de aproximar a beat da vanguarda de vários países e estabelecer pontes entre os norte-americanos e a contracultura brasileira - de que são figuras importantes Roberto Piva, Chacal, Paulo Leminski, Torquato Neto e Mário Bortolotto.A multiplicidade de nomes não é exagerada. A imagem de um escritor solitário numa torre de marfim é absolutamente contrária à beat. Conforme Willer, a amizade é conceito fundamental para cada texto e cada movimento da geração. "Adesão a um programa literário ou artístico nunca é impessoal. Mas na beat a amizade foi transcendental, no sentido romântico do termo (...)."E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques (176 págs., R$ 34, tradução de Alexandre Barbosa de Souza) ilumina a fundação dessa amizade. Verdadeiro achado arqueológico, a parceria entre Burroughs e Kerouac só apareceu em 2008, três anos após a morte de Lucien Carr, pivô do obscuro "assassinato que deu origem aos beats". Em 1944, Carr, então um adolescente que enlouquecia homens e mulheres por conta de sua beleza rimbaudiana, esfaqueou o amigo David Kammerer, um vagal intelectual quarentão que queria porque queria consumar sua obsessão sexual pelo garoto, a quem conhecia desde os 11 anos. Carr jogou o corpo de Kammerer no rio Hudson e em seguida procurou Burroughs, então com 30, e Kerouac, 22, para se confessar. Depois se entregou à polícia - que chamou a dupla para depor como testemunha. Carr, matriculado na Universidade Columbia, tinha apresentado Kerouac a Ginsberg (na época com 18 anos); já Kammerer havia sido colega (e amante) de Burroughs quando estudaram em Sant Louis.O crime detonou os primeiros escritos da santíssima trindade. Ginsberg escreveu poemas e peças autobiográficas; Burroughs e Kerouac, este pequeno romance em capítulos alternados, recusado por inúmeras editoras até que fosse enterrado sob as tábuas do assoalho da casa do autor de On the Road, esquecido por décadas e proibido pelos autores de vir à tona até a morte de Carr - afinal, o Rimbaud de boteco se tornaria anos depois o poderoso diretor de jornalismo da United Press International. O romance vale pela combustão espontânea e narrativa adrenalinada. Já estão aí a volúpia descritiva, a busca pelo êxtase profano/religioso e o sentimento de exílio característicos do melhor Kerouac. E impressiona como, bem antes de Junky e Almoço Nu, o sarcasmo de Burroughs surge com personalidade - até em procedimentos próximos ao cut-up, técnica que aproxima violentamente fragmentos narrativos. O que explica o título é a frase que a dupla ouviu em um bar, proferida por um locutor de rádio ao narrar um incêndio em um zoológico. Com Carr, Ginsberg, Kerouac e Burroughs já mortos, o livro demonstra como um crime pode projetar uma sombra criadora sobre um grupo de escritores - para quem "um incêndio no zoológico" seria definição exata.Se Hipopótamos seria o Gênesis beat, Visões de Cody (448 págs., R$ 79, tradução de Guilherme da Silva Braga) vale por todo um Pentateuco para Kerouac - e também só foi publicado após sua morte. O retrato do muso Neal Cassady, fora da lei essencial cujo jeito de falar rápido, engolindo as palavras, iluminou a escrita beat - ao lado do hard bop, das anfetaminas e das viagens incessantes -, é também um livro de memórias vertiginosamente detalhadas e um grandioso hino aos Estados Unidos dos caçadores de aventura. A história? Uma reedição dos fatos de On the Road, vistos sob novos ângulos, contando até com transcrições e recriações de conversas entre Kerouac e Cassady. Sem começo, meio ou fim precisos, os longos fluxos de consciência de Cody são parentes da action paiting de Jackson Pollock e das invenções poéticas e jogos sonoros de James Joyce. Não é narrativa fácil. Com este, Hipopótamos e Geração Beat, o leitor dispõe de combustível suficiente para uma viagem beatnik - isso se não puser o pé na estrada antes de virar a próxima página.Ronaldo Bressane é autor de Céu de Lúcifer (Azougue)

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