''Para atar as duas pontas da vida''

A frase é de Bentinho, narrador de Capitu, a microssérie baseada em Machado de Assis que vai ao ar na Globo a partir de amanhã

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

08 Dezembro 2008 | 00h00

Capitu traiu ou não? Essa pergunta tem sido formulada toda hora em razão do centenário da morte de Machado de Assis. Mas a eventual traição de Capitu com Escobar, amigo do seu marido Bentinho, não estará no centro da microssérie de cinco capítulos dirigida por Luiz Fernando Carvalho e que começa a ser apresentada a partir de amanhã, na Globo. A convite da emissora, e do diretor, o Estado assistiu aos três primeiros capítulos da série no edifício da Globo, em São Paulo. Eles se concentram na infância e adolescência dos dois personagens, Bentinho e Capitu, na atração crescente entre ambos, a ida de Betinho ao seminário, para tornar-se padre, conforme promessa feita por sua mãe, dona Glória (Eliane Giardini). O roteiro teve consultoria de Daniel Piza, biógrafo de Machado e editor-executivo do Estado. Baseia-se em Dom Casmurro, o mais ambíguo dos romances de Machado de Assis, uma das obras-primas de sua fase de maturidade. Escrito em 1889, o romance continua a produzir discussão até hoje. E não apenas por deixar em aberto a possibilidade de um adultério, mas porque fornece um retrato sutil, costurado nas entrelinhas, da hipócrita sociedade carioca durante o Império. O notável é como o espírito da obra de Machado aparece na microssérie com sua força e sinuosidade, embora a adaptação em nada pareça subserviente à letra do texto. Pelo contrário. Para ser "fiel" (já que esta é uma das questões da obra), Carvalho abriu-se à invenção. O tom é abertamente teatral, operístico, concentrado quase todo num único ambiente, embora esse fato nunca signifique monotonia. A ação é, como no livro, conduzida por um narrador que, do ponto de vista da maturidade, narra sua vida, a infância, a mocidade, o amor por Capitu, as desavenças, o drama. Também como no livro, esse narrador, Bento Santiago, Bentinho, ou Domo Casmurro, como o apelida um desafeto, procura "atar as duas pontas da vida". Lembrar-se para desabafar, talvez para compreender o que for possível. De qualquer forma, uma tarefa impossível, pois essas tais de pontas da vida não se juntam jamais. Mas nessa tentativa muita coisa se diz, se pensa e se sente. Dom Casmurro (Michel Melamed) vê a si mesmo como o Bentinho jovem (César Cardadeiro) tentando fugir à promessa religiosa da mãe e encantando-se progressivamente com sua vizinha Capitolina, a Capitu (Letícia Persiles) dos "olhos oblíquos, de cigana dissimulada", como a classifica outro dos personagens de Machado, o agregado José Dias (Antônio Karnewale). O núcleo familiar é completado pela histérica prima Justina (Rita Elmôr) e o debochado tio Cosme (Sandro Christopher), ambos viúvos como dona Glória. José Dias firma um pacto com Bentinho para tirá-lo do seminário, porque deseja acompanhar o rapaz numa futura e hipotética viagem de estudos à Europa. O mais importante é que Carvalho não apenas preserva o "enredo" do livro, mas o reinventa em linguagem audiovisual sem perder a sua pegada literária. As roupas podem ser de época, mas os atores parecem decididamente modernos. Assim como contemporâneos são os procedimentos de misturar o personagem do "presente" (Dom Casmurro) com aquele que ele foi no passado (Bentinho), passar de uma seqüência temporal a outra, contemplar com segurança a vocação digressiva de Machado que não se afasta do ponto principal por indisciplina narrativa mas para olhá-lo por mais de uma perspectiva. Assim, a polifonia da prosa machadiana é transposta para esse espetáculo audiovisual encenado por Luiz Fernando. E transposta de maneira envolvente, exacerbada, paroxística, de acordo com os estados de alma dos personagens, em especial os do narrador, irônico, emocionado, cáustico com os outros e consigo mesmo, vendo tudo sempre de várias perspectivas mas sem jamais encontrar o ponto de vista ideal. Por essa impossibilidade de encontrar o "real" ou a verdade final da contraditória natureza humana, Machado costumava dizer que a realidade era boa, mas o realismo não servia para nada. E muitas vezes comparou a existência humana à ópera. Em sua interpretação de Dom Casmurro, Luiz Fernando Carvalho simplesmente seguiu a pista dessas duas observações do autor.

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