Papel é sob medida para o brilho da estrela

Mas ela, mesmo vencendo, será inferior a Sandra Corvelone, que seduziu Cannes com Linha de Passe

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

08 de janeiro de 2009 | 00h00

Há uma cena de A Troca em que o policial segue a trilha de um garoto desaparecido e chega a essa fazenda que parece abandonada. Para incrementar o suspense, Clint Eastwood coloca sua câmera na fresta do galinheiro, no ângulo de um observador que, presumivelmente, está à espreita. O desenvolvimento da cena mostra que não é nada disso. Além de falso, o recurso é velho como o cinema de Hollywood.Clint Eastwood virou mito como astro e autor. Sua sólida reputação repousa num conjunto de filmes fortes que lhe valeram dois Oscars de direção da Academia de Hollywood, por Os Imperdoáveis, western que é seu melhor trabalho, e Menina de Ouro. O recente díptico formado por A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, focalizando a Guerra no Pacífico do ângulo dos norte-americanos e dos japoneses, mostrou um diretor vigoroso e inspirado. Onde foi parar esse Clint em A Troca?Produzido por Brian Grazer, cúmplice habitual de Ron Howard, A Troca é um filme que o diretor de O Código da Vinci talvez fizesse até melhor. É um Clint pouco rigoroso consigo mesmo, entregue às facilidades de roteiro e realização. Esta última, bem no fundo, é preguiçosa e o plano previsível no galinheiro - recurso digno de telefilme - não é o que se espera do autor de Bird. O roteiro santifica a personagem de Angelina Jolie. É curioso como críticos que habitualmente são refratários ao maniqueísmo de Hollywood conseguem achá-lo palatável - de deglutir cenas patéticas - quando se trata de defender ?autores?.Angelina Jolie e Brad Pitt formam atualmente o casal 20 de Hollywood. Ambos atualizaram, para o século 21, o escândalo da dupla Liz Taylor/Richard Burton nos libertários anos 60. Angelina e Pitt foram indicados para o Globo de Ouro. Dificilmente ficarão fora da disputa do Oscar. O filme dele - O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher, é mais forte, entre outras coisas porque Fincher tem o rigor de mise-en-scène de que Clint abriu mão. Angelina já ganhou o Oscar de coadjuvante por seu papel de louquinha revoltada em Garota, Interrompida. Agora, na tentativa de ser melhor atriz, ela volta ao manicômio em A Troca.Clint já errou a mão em fracassos mais defensáveis - O Jardim do Bem e do Mal, por exemplo. A Troca, até certo ponto, refaz Sobre Meninos e Lobos, do ângulo da mãe desesperada, não da criança que foi sequestrada (e o abuso vai se refletir no adulto, no outro filme). O show é de Angelina, que sofre (e grita e chora e se humilha), dizendo todos aqueles diálogos cheios de superação e heroísmo. Se ela ganhar o Oscar, Sandra Corvelone, de Linha de Passe - premiada em Cannes -, continuará sendo melhor atriz, por sua mãe mais sóbria e não menos sofredora.

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