Papai Noel estaciona na porta do Caderno 2

Doze ''''presentes-cabeça'''' de última hora sugeridos por jornalistas ''''prata da casa''''

O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2007 | 00h00

Quem ainda não comprou o presente de amigo secreto ou quem deixou as compras de Natal para esses últimos dias pode dar uma olhada nas sugestões culturais desta página, a cargo de 12 jornalistas que atuam diariamente nas páginas do Caderno 2. Como não poderia deixar de ser, há discos, livros e filmes em DVD, de preços variáveis, para todos os bolsos. E com selo de qualidade garantido por nossa equipe.1 Enquanto não estréia o filme Desejo e Reparação, baseado no famoso livro de Ian McEwan (Reparação), vá entrando no clima com o romance mais recente lançado no Brasil pelo mesmo autor, Na Praia (Companhia das Letras, 136 págs., R$ 33). É um presente natalino que vai fazer a alegria de quem gosta de boa literatura. Tudo se passa na noite de núpcias de um jovem casal inglês absolutamente travado, no início dos anos 60, antes do advento libertário de ''''sexo, drogas e rock and roll''''. É prazeroso saborear a prosa certeira de McEwan, na boa tradução de Bernardo Carvalho. O que impressiona mais, num enredo até trivial, é a força das palavras e o ritmo das frases, para retratar um conservadorismo extremo, paralisante, capaz de fazer dois jovens entrarem em estado de completo desespero momentos antes de tirar a roupa e ''''enfrentar'''' a intimidade física pela primeira vez. DIB CARNEIRO NETO2 Era uma vez um idiota que, descontente com sua rasa inteligência, procura uma feiticeira que pode lhe arrumar bons miolos - assim como esse, os contos de fada reunidos pela inglesa Angela Carter não são nada infantis. Na verdade, em 103 Contos de Fadas (Companhia das Letras, 504 págs., R$ 46), o leitor terá dificuldades em encontrar príncipes encantados. Angela reuniu histórias tradicionais de diversas culturas. E, ao invés de narrativas de frágeis princesas adormecidas, ela preferiu justamente as que tratam do desejo e da formação interior de cada um. Com isso, aproxima as fábulas da realidade, mesmo com seu caráter fantástico. É o caso, por exemplo, do conto Vassilissa, a Filha do Clérigo, em que a heroína é uma moça de gestos e hábitos masculinos que desperta o interesse de um rei, curioso em descobrir sua verdadeira identidade sexual. UBIRATAN BRASIL3 O Bandido da Luz Vermelha (Versátil, R$ 44,90), de Rogério Sganzerla, foi uma revolução no cinema brasileiro quando apareceu, em 1968. Ambientado na região da Boca do Lixo, tem como personagem principal o ladrão que atacava os homens e seduzia as mulheres. O mais importante é que o filme inova a linguagem cinemotográfica. Inspirado em Godard e Orson Welles, propõe uma narrativa debochada, irônica, em que o suposto mau gosto aparece ao lado de sutilezas do cinema sofisticado. O filme dialoga com o tropicalismo nascente e representa uma ruptura com o então dominante Cinema Novo, de Glauber Rocha e amigos. Em preto-e-branco, o longa foi recuperado para ser lançado em cópia digital. Paulo Villaça interpreta o Bandido e Helena Ignez faz sua amante, uma prostituta. Bons extras com o trailer, entrevistas com o diretor, a atriz e depoimentos de críticos. LUIZ ZANIN ORICCHIO4 Agradar a um fã da música clássica nem sempre é fácil. No entanto, entre o vasto catálogo das gravadoras, há alguns pontos de referência obrigatória, o que é o mínimo que se pode dizer da integral das sinfonias de Gustav Mahler na regência de Leonard Bernstein (foto). A caixa da Deutsche Grammophon tem 9 DVDs, com as dez sinfonias, mais o ciclo A Canção da Terra, gravados ao longo de duas décadas com orquestras como as filarmônicas de Viena e Israel e solistas como René Kollo e Christa Ludwig. O preço do pacote é salgado (R$ 595), mas, ao longo deste ano, os DVDs foram lançados individualmente (cerca de R$ 100 cada). Todos são bons mas, se for para escolher um, fique com o de ensaios, em que Bernstein prepara com a Filarmônica de Viena a interpretação da Sinfonia nº 9 e, com a Filarmônica de Israel, A Canção da Terra. Imperdível. JOÃO LUIZ SAMPAIO5 Há escritores que desenham seus textos. Jules Feiffer, Will Eisner e Art Spiegelman, nos Estados Unidos, estão entre os maiores. No Brasil, Laerte Coutinho é o inigualável narrador que desenha. Mas sua arte chega ao paroxismo com o livro Laertevisão - Coisas que não esqueci (Conrad Editora). São as memórias gráficas da infância - adornada pelos signos de uma era de inocência, fotos antigas, velhos cartazes de filmes, seriados esquecidos, e os soberanos aparelhos de TV como o móvel mais nobre da casa. Poucas obras gráficas têm a delicadeza e a refinada ironia desta aqui. Laerte olha com carinho e profunda compreensão não só seus próprios fiapos de memória, mas a forma como a gente se apega a essas coisas, e como elas humanizam a existência. Não se trata de nostalgia de uma época, mas da saudade de si mesmo. JOTABÊ MEDEIROS6 E que tal uma animação como presente de fim de ano para seu amigo mais adulto? Nos últimos anos, este gênero - ou técnica - de cinema, que muitos críticos chamam de oitava arte, adquiriu um extraordinário grau de desenvolvimento. Surgiram O Rei Leão, Toy Story e Procurando Nemo, que rivalizam com os maiores desenhos de todos os tempos - Branca de Neve, O Submarino Amarelo -mas em 2007 foi a vez de Ratatouille. Por mais que as crianças se divirtam com a história do ratinho que, vindo do lixo, quer ser chef, o programa é para adultos. A idéia é tão absurda que vira metáfora da transformação mais radical e o espectador ganhará se tiver paladar apurado. A familiaridade com Marcel Proust será muito bem-vinda. Ratatouille reencontra o tempo perdido na cena com o crítico. O DVD custa R$ 49,90. LUIZ CARLOS MERTEN7 Neste ano, a Igreja aboliu o Limbo, para onde iam as crianças que morriam sem receber o batismo. Segundo o Vaticano, a exclusão de inocentes do Céu não reflete o amor e a misericórdia divina. Seria cômico se não fosse trágico. O que diria Dante Alighieri diante da modernização da fé. Esta, por muitos relegada a última lembrança no Natal, não está morta. Muda conforme os atos da divina comédia humana. Já o clássico de Dante continua intacto. E merece estar longe do limbo em que obras como esta são delegadas quando o assunto é ''''presentes''''. Só saber que foi no limbo que Dante ''''encaixou'''' pagãos virtuosos, Platão e Sócrates, já vale abrir as páginas da edição bilíngüe de A Divina Comédia da Editora 34 (preço médio: R$ 70). Dividida em volumes (Inferno, Purgatório e Paraíso), o que facilita a leitura, Italo Eugenio Mauro faz mais que traduzir. Ajuda a entender, sem pretensão, o quanto o pensamento de um dos maiores autores ainda hoje permeia nosso imaginário. FLÁVIA GUERRA8 Muitos são os livros que tratam das diferenças culturais entre Ocidente e Oriente, mas poucos tão bons como o autobiográfico Istambul - Memória e Cidade (Companhia das Letras, 408 págs., R$ 48), por tratar justamente de uma cidade que faz a ponte entre dois mundos. O autor, Orhan Pamuk, ganhou o prêmio Nobel no ano passado e tem outros livros publicados no Brasil (Neve, Meu Nome é Vermelho). Controvertido, provocou a ira de nacionalistas turcos ao denunciar o genocídio de 1 milhão de armênios na Turquia durante a 1.ª Guerra Mundial. Em Istambul, essa vocação para a polêmica é esquecida em favor de uma análise das transformações sofridas pela cidade desde a secularização promovida pelo fundador da Turquia moderna, Atatürk. Pamuk, filho de família rica, descreve a visão melancólica que desperta o Bósforo e elege o Edifício Pamuk, onde nasceu há 55 anos, como cenário dessa sua história de amor à cidade. ANTONIO GONÇALVES FILHO9 Dos vários bons CDs de música brasileira lançados em 2007, Que Belo Estranho Dia pra se Ter Alegria (Universal, R$ 20), de Roberta Sá, merece indicação para presente nessa época porque além de tudo tem componentes divertidos que combinam com festa. A cantora deu um salto significativo neste segundo álbum, em que a tônica é a da alegria. Roberta acertou em tudo: na produção, nos arranjos, no canto afinado e prazeroso, na escolha do repertório, de melodias cativantes e letras inteligentes. Ela é boa de samba em diversas formas e prova isso nos suinguados Alô Fevereiro (Sidney Miller), Interessa? (Carvalhinho) e Laranjeira (Roque Ferreira). Mas avança por outros ritmos e variantes, alternando faixas mais serenas - como Novo Amor (Edu Krieger) e Mais Alguém (Moreno Veloso/Quito Ribeiro) -, com as incendiárias Girando na Renda, Fogo e Gasolina e Samba de Amor e Ódio, todas de Pedro Luís com parceiros. É para rodar sem parar. LAURO LISBOA GARCIA10 O trailer do novo Batman, O Cavaleiro das Trevas, já está na internet e, para esquentar os motores, nada melhor do que (re)ler uma das HQs mais cultuadas de todos os tempos. A editora Panini Comics lançou neste ano uma edição luxuosa da série O Cavaleiro das Trevas (R$ 95,90), escrita por Frank Miller nos sombrios anos 80 e que serve como base para o novo filme, que deve estrear em 18 de julho. O álbum traz as duas aventuras escritas por Miller para o Cavaleiro das Trevas - 15 anos depois do sucesso da série de 1985, o autor voltou ao personagem -, além de croquis e explicações detalhadas do autor sobre como fazer diferença num mundo pasteurizado. Bruce Wayne está à beira dos 50 anos, desacreditado, e em crise de identidade. Batman havia se aposentado 10 anos antes, mas Gotham City ainda sofre com uma escalada da violência. O caos social é acentuado pela pirotecnia da mídia, um dos alvos preferidos de Miller. PATRÍCIA VILLALBA11 Um Romeu sanfoneiro sobre pernas-de-pau se apaixona por uma Julieta que adora uma boa moda de viola. Mercúcio é um moleque levado e Frei Lourenço é um virtuose no sax. A clássica história de amor de Shakespeare ganhou uma autêntica e emocionante versão na atuação do Grupo Galpão, que realizou, em 2000, uma apresentação mais do que especial: os mineiros encenaram Romeu & Julieta no palco do Globe Theatre, teatro elisabetano fundado pelo dramaturgo inglês em 1599, em Londres. A montagem, cuja concepção e direção é de Gabriel Villela, foi transformada num belo documentário, dirigido por Paulo José, disponível para venda no site da companhia, por R$ 30 (www.grupogalpao.com.br). Nesse caso, a teoria, muitas vezes comprovada, de que teatro quando filmado perde a sua força, vai por água abaixo. O registro do DVD intitulado Shakespeare para Inglês Ver, parte da comemoração dos 25 anos do grupo em 2007, é vibrante. Faz rir e chorar. LIVIA DEODATO12 O samba de Teresa Cristina é garantia de uma infinidade de noites e dias felizes. Filha da Lapa, onde começou a cantar nove anos atrás, a cantora carioca ficou conhecida fora do Rio graças aos dois lindos CDs em homenagem a Paulinho da Viola. Em Delicada, seu quarto disco, ela mostra belas composições próprias, além de pérolas esquecidas (a mais preciosa é A Gente Esquece, justamente de Paulinho). Para quem é bom da cabeça, trata-se de um presentão de Natal. Lançado pela EMI em setembro, o CD tem sambão do bom (Fim de Romance, Quebranto, A Paz do Coração, Fechei a Porta), um delicioso Caetano (Gema), um antigo sucesso de Fafá de Belém (Carrinho de Linha) e lindas letras de Teresa (Cantar, Delicada, Saudade de Você). E tem a voz marcante de Teresa. O pandeiro, o violão, o cavaquinho e a percussão do Grupo Semente - que acompanha a sambista desde os inesquecíveis shows no bar que deu nome ao conjunto, aos pés dos Arcos da Lapa - não poderiam ficar de fora. ROBERTA PENNAFORT

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