Pantanal, praias, lagoas e dunas em um só lugar: o Delta do Parnaíba

Mais conhecida dos estrangeiros, área entre Maranhão e Piauí agora quer conquistar turistas nacionais

O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

Pense no paraíso. Um oásis que mistura praias, dunas, coqueiros e lagoas azuis. Adicione movimento: pássaros pintam o céu de vermelho, macacos se escondem nas árvores, jacarés aproveitam o sol enquanto muita gente bonita assiste ao pôr-do-sol ao lado de uma rodinha de capoeira. Acrescente aventura: veículos off-road e buggys rasgam dunas e cortam praias desertas onde esportistas descem de sandboard. E tire os excessos da cidade grande: celulares mal funcionam, saltos altos são proibidos, o luxo dá lugar ao rústico. Pronto. Você está em um dos 300 quilômetros da costa nordestina que liga o mágico Parque Nacional de Jericoacoara, no Ceará, com o exótico ecossistema do Delta do Parnaíba, na divisa de Piauí e Maranhão, e o espetacular oásis de dunas e lagoas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Um roteiro que o governo federal passou a chamar de Rota das Emoções. Como uma mão que se abre para o oceano Atlântico, o Parnaíba desemboca no mar depois de deixar para trás um paraíso quase intocado de beleza e exótica fauna silvestre. Ao chegar à praia em cinco ramificações, o rio de águas calmas e turvas ajuda a compor o cenário de um dos mais ricos e variados ecossistemas brasileiros. É como se a caprichosa natureza tivesse reunido em um único lugar a excentricidade do alagado Pantanal, com as praias paradisíacas do litoral nordestino e os oásis de dunas e lagoas das regiões semi-áridas. E, desta forma, tivesse formado um local ímpar no mapa costeiro brasileiro. Assim é o Delta do Parnaíba. Uma região de sol e ventos, de manguezais e seca, de jacarés e pescadores, de macacos e espreguiçadeiras para um banho de sol. A eclética mistura de passeios possíveis, sempre pontuados por um quê de aventura e rusticidade, é onde reside o principal encanto desta área na divisa entre o Maranhão e o Piauí. O Delta do Parnaíba, destino mais conhecido por estrangeiros do que por brasileiros, pode oferecer tanto um passeio de barco por seus igarapés para contemplar primatas, jacarés e o quase extinto guará, um pássaro cuja plumagem risca o céu de vermelho, como dunas com lagoas de água doce para um banho refrescante ou águas claras de um mar que se esparrama em belas praias quase desertas.O Delta do Parnaíba é assim chamado porque o rio, após percorrer a maior parte de seus 1.500 quilômetros, reparte-se em um conjunto de igarapés e 85 ilhas catalogadas que, visto de cima, tem a forma de um triângulo. Por conta desta foz ganha o nome da letra grega delta - assim como é o do Nilo, no Egito - com a particularidade de ser o único nas Américas a desembocar em mar aberto. Embora a peculiaridade desperte o interesse, não é por isso que o Delta tem chamado a atenção do ecoturismo, mas sim pelo que escondem seus 2.700 km² de área. Para entender onde mora o mistério, basta pegar uma lancha no Porto dos Tatus, no Piauí, ou no de Tutóia, nos Maranhão, e embarcar na aventura rumo ao que o ecossistema pode revelar. O passeio começa pela manhã e só acaba quando os olhos dos primeiros jacarés começam a brilhar na escuridão da noite. É possível, claro, escolher um roteiro com retorno para 16 horas. Mas corre-se o risco de perder o melhor espetáculo desta região: a revoada dos guarás ao entardecer. Pássaro ameaçado de extinção, o guará-vermelho tem essa plumagem quando adulto por conta dos pigmentos presentes em sua principal alimentação, o caranguejo. É o mais belo exemplar de uma variedade enorme de pássaros que cruzam os barcos no passeio. São garças-azuis e brancas, anus, biguás, pica-paus, carãos (a "ave que chora"). Os abundantes caranguejos, vermelhos e azuis, que colorem o mangue também são alvos de outro predador astuto. O macaco-prego coloca seu rabo no buraco para ser "fisgado" pelo crustáceo, que acaba devorado. Segundo o guia nativo José Carlos Nascimento, o Delta possui ainda veados-campeiros, jaguatiricas e peixes-boi, mais raros de ver. Como a observação dos animais é o ponto alto do passeio, é melhor que ele seja feito de junho a setembro, quando as chuvas já não são freqüentes e as ilhas ficam menos alagadas. Se a fauna é suficiente para fazer o turista lotar o cartão da máquina fotográfica, as dunas e lagoas do Morro Branco, primeiro ponto de parada da lancha, vão exigir equipamento extra. Local propício para o banho, os cerca de 600 metros de distância que o separam da praia - onde os turistas podem facilmente chegar a pé - formam uma paisagem semelhante à dos Lençóis Maranhenses. De acordo com Nascimento, são 25 km de morros de areia e piscinas naturais. Mais à frente, após percorrer os igarapés dos Poldros e dos Periquitos, chega-se às dunas do Feijão Bravo, de igual beleza. No regresso à noite, os nativos se encarregam de alimentar a magia do lugar com histórias como a lenda do Cabeça de Cuia, que aparece nas margens do rio assustando as pessoas com seu visual deformado. Uma das versões reza que sua mãe batia tanto em sua cabeça que ela inchou até a morte. Hoje, se um homem o vê, deve beijar sete virgens para casar. O folclore ribeirinho é apenas um dos elementos de um dos mais ricos e belos ecossistemas do Nordeste.

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