HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Panorama do MAM vai reunir arqueologia e obras de 6 artistas

Zoólitos do Sul e trabalhos de Cildo Meireles e Berna Reale, entre os selecionados, dialogarão na 34ª edição da mostra, em outubro

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2015 | 16h52

 Já era um projeto antigo, conta a crítica e historiadora Aracy Amaral, colocar lado a lado esculturas em basalto de povos sambaqueiros, criadas cerca de 2 a 7 mil anos atrás em uma região litorânea que vai de Iguape-Cananeia, Sul do Estado de São Paulo, até o Uruguai, com obras de artistas contemporâneos para promover uma reflexão sobre arte brasileira. “São peças de um refinamento plástico muito grande e que, para mim, lembram às vezes até coisas de Brancusi, da escultura moderna”, afirma a curadora do 34.º Panorama da Arte Brasileira, a tradicional mostra bienal realizada pelo Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo cuja atual edição está programada para ocorrer entre 3 de outubro e 18 dezembro.


De fato, dizem Aracy Amaral e Paulo Miyada, curador adjunto da exposição, o novo Panorama, sob o título Da Pedra/ Da Terra/ Daqui, vai apresentar em “conversação” um conjunto de zoólitos arqueológicos (a ideia é de que exista um núcleo central com 20 a 30 itens expostos) e trabalhos de Berna Reale, Cao Guimarães, Cildo Meireles, Erika Verzutti, Miguel Rio Branco e Pitágoras Lopes Gonçalves. “Foi difícil fazer essa seleção de apenas seis artistas”, diz Aracy Amaral. O “número mínimo” de participantes também era uma premissa, explica a curadora – e os criadores convidados articulam em suas obras, cada um em sua pesquisa própria e distinta, questões sobre território, o enigma do tempo, memória e realidade, e os limites do contemporâneo, enumera a historiadora, que completa 85 anos este mês.

“Uma das hipóteses para pensar o Brasil é buscar origens, seja moderna, seja pré-colonial”, afirma Paulo Miyada sobre conceber um Panorama do MAM, exposição que tem, segundo ele, caráter reflexivo por natureza. A arqueologia será trazida à mostra, com expografia de Alvaro Razuk, por intermédio de uma pesquisa com consultoria especial do professor André Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais, especialista que defendeu na década de 1970 tese de doutorado sobre as peças escultóricas encontradas nos sambaquis (montes de areia e conchas – que podem chegar a até 30 metros – criados pelos habitantes de uma grande extensão do litoral Sul).


As esculturas históricas, conta Aracy Amaral, que já exibiu algumas delas em mostra organizada por ela para a 8.ª Bienal do Mercosul, em 2011, podem ser de função ritualística e representam, majoritariamente, peixes e aves. Os curadores do 34.º Panorama e o consultor Prous viajarão para selecionar os zoólitos a serem exibidos em São Paulo e estabelecer parcerias com os museus que os abrigam (o Museu de Arqueologia e Etnografia da USP, o Museu Nacional do Rio, além de instituições de Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Pelotas e Montevidéu).

Já as obras dos artistas contemporâneos que vão dialogar com os objetos arqueológicos ainda estão “em aberto” e podem ser novas. “Conheço o trabalho do Cildo desde a década de 1970 e acompanho sua forte ligação com o Brasil, com as coisas da terra”, explica Aracy Amaral sobre a seleção dos participantes. “A visceralidade da obra do Miguel Rio Branco apontava que ele deveria estar no projeto, assim como a sensibilidade do olhar do Cao Guimarães. Berna Reale me interessou por sua audácia de se colocar em situações quase limites, de quase horror que a gente vive”, completa.

Dos outros selecionados, a curadora define Erika Verzutti como criadora “poética” e destaca os materiais de suas esculturas. “Tenho a impressão de que com ela podemos ver até um remanescente do sambaqui.” De Pitágoras, “telúrico”, afirma que ele “traz a memória, o ambiente que vive, de maneira delirante”. Será, portanto, um Panorama sobre “o enigma do início e de hoje”.

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