Palco carioca e intimista: Nu de Mim Mesmo

Trupe já premiada com APCA em São Paulo por Deve Haver Algum Sentido em Mim Que Basta traz do Rio um novo trabalho

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

Criada em 1989, portanto celebrando 20 anos de existência, a carioca Cia. Teatro Autônomo dirigida por Jefferson Miranda fez poucas incursões à cidade de São Paulo. Na última delas, com a peça Deve Haver Algum Sentido em Mim Que Basta, apresentada no Sesc Belenzinho, ganhou o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA 2005) de melhor espetáculo. Quem viu não esquece desde o espaço cênico forrado de folhas secas até a firme sutileza com que os atores envolviam o espectador e o conduziam a apreender o tempo, ou a passagem dele, agindo sobre personagens muito próximos, no sentido físico e no da identificação.Pois agora o grupo volta à cidade para apresentar, a partir de hoje no Sesc da Avenida Paulista, em curtíssima temporada, seu mais recente trabalho: Nu de Mim Mesmo. Desta vez o espetáculo nasce de depoimentos pessoais, tanto dos atores quanto coletados em entrevistas, mas que ninguém espere uma cena confessional voltada para ressentimentos mesquinhos e individualistas. No palco, os atores Adriano Garib, Fábio Dultra, Júlia Lund, Miwa Yanagizawa e Otto Jr. interpretam personagens em intenso diálogo com seu tempo.Assim, a montagem busca traçar um painel das transformações dos últimos 50 anos, a partir da década de 40. Mas sempre no campo subjetivo, ou seja, numa chave intimista de investigação do homem como agente e receptor da organização social em que está mergulhado.Roteiro e direção levam a assinatura de Jefferson Miranda e no palco estão ainda o músico Felipe Storino e Flávio Graff, dramaturgista da companhia, que também está presente com algumas interferências no palco. Bem, melhor seria dizer tablado, uma vez que público e atores ocupam o mesmo espaço cênico, cercado de telões que exibem projeções criadas por Flavio Graff e os videoartistas Fernanda Ramos e Philipe Canedo.Embora não haja uma trama no sentido tradicional, a peça gira em torno de um físico bem-sucedido em crise. Subitamente, ele percebe quanto se distanciou das relações humanas e afetivas no ímpeto de tornar-se uma referência em sua área, de ser reconhecido. Quem viu o espetáculo anterior pode esperar uma continuidade na vertente de pesquisa do grupo, que dá ao espectador a sensação de que tudo acontece aqui e agora no palco, como se não houvesse texto prévio."A partir da constatação, o personagem começa a se interessar pelas pessoas, a olhá-las e vê-las", diz Flávio Graff. "Então ele vai perceber que alguns estão no início desse caminho traçado pelo ímpeto de ser o melhor, outros, como ele, estão voltando." Graff ressalta que essa trajetória é fruto dos mitos heroicos que ainda fazem parte da Cultura e valorizam o homem que se destaca como o melhor. "E tudo o que precisamos é só ser melhores pessoas."Quanto ao atraente estilo de interpretação, Graff fala: "Tentamos fugir de códigos teatrais viciados. O que buscamos é que não exista um ?antes?, o ator só existe se colocado em cena. Ele ocupa aquele lugar naquele momento, não finge ou representa. O que buscamos é um estado emocional de interação que possa envolver o espectador. Daí a importância do processo de criação, que durou nove meses nesse espetáculo." ServiçoNu de Mim Mesmo. 3h30. 16 anos. Unidade Provisória Sesc. Av. Paulista, 119, tel. 3179-3700. 6.ª a dom. 19h30. R$ 20

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