Palavras que definem o silêncio

Sobre a Tagarelice, de Plutarco, mostra como o discurso esconde muitas vezes a incapacidade real de escutar o outro

Regina Schöpke, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Diderot dizia que quase nada se retinha sem o auxílio das palavras, mas que ainda assim elas nunca bastavam para transmitir o que sentimos. Para Kant, as palavras nunca poderiam lesar alguém - bastava não acreditar nelas. Nietzsche chamava a atenção para o fato de que aquele que se sabe profundo esforça-se para ser claro, enquanto aquele que gostaria de "parecer" profundo esforça-se para ser obscuro. A linguagem nos constitui: é a teia de nossos pensamentos, de nossa imaginação, de nossa vida social. Mas há menos palavras do que coisas a serem ditas e sentimentos a serem expressos. Falar é uma arte, e a língua tanto pode ser uma ferramenta para erguer mundos quanto uma arma letal. É por isso que, para Plutarco, filósofo grego do primeiro século de nossa era, ainda mais importante do que falar é saber calar.De fato, quem fala demais corre o risco de dizer o que não deve. Mas a tagarelice, segundo Plutarco, não é só um desejo desmedido de falar; oculta algo mais profundo, a incapacidade real de ouvir. Fala-se muito para não escutar os outros e, talvez, para não escutar a si próprio. Trata-se de uma espécie de "surdez voluntária" - quem fala mais do que deve atrai para si a desconsideração e a antipatia geral, não sendo poucos os exemplos de imoderados que causaram a sua própria ruína, a dos outros ou mesmo a de uma nação inteira por não conseguirem reter o que sabiam.Eis aí um pouco do que podemos encontrar em Sobre a Tagarelice e Outros Textos (tradução de Mariana Echalar, Landy,112 págs., R$ 30). Plutarco tinha um pensamento bastante eclético: ele acreditava na mística dos números, na Providência, em adivinhações e foi, inclusive, nomeado sacerdote vitalício de Apolo Pítico, em Delfos. Ele pode ser definido mais como historiador e moralista do que como um filósofo, embora essa seja uma consideração temerária, uma vez que Plutarco viveu a vida inteira para a filosofia, mesmo sem deixar nenhuma grande obra teórica. Seu pensamento chegou até nós em dois conjuntos: as dezenas de biografias de personagens célebres, denominadas geralmente de Vidas Paralelas, e a coletânea de tratados que recebeu o nome de Obras Morais.É deste último conjunto que foram extraídos os três textos que compõem este volume: Sobre a Tagarelice, Sobre a Demora da Justiça Divina e Das Doenças da Alma e do Corpo, Quais São As Mais Graves?. No primeiro, Plutarco preocupa-se com a justa medida no ato de falar, mostrando a necessidade de evitar os exageros. O que fica evidente é a valorização do discurso e a importância do silêncio e da reflexão para o verdadeiro aprendizado da filosofia. No segundo texto, vemos uma reflexão sobre o fato dos perversos não serem punidos imediatamente pelos seus delitos. Ainda que Eurípides diga que a justiça firme avança "a passos pesados", os maus sempre acabam vendo-a muito mais "como obra do acaso do que da Providência", diz Plutarco. Mas Deus, diz ele, dá a cada um o remédio necessário, não possuindo uma medida comum ou um tempo determinado para sua ação. Deus ou a Natureza, diria Espinosa, muitos séculos depois - já que, apesar de toda a mística de Plutarco, o que vemos é a constatação de que, como decorrência de sua natureza nefasta, os maus caminham para o abismo com suas próprias pernas. No último tratado, Plutarco reflete sobre uma questão eterna: que tipo de sofrimento é mais prejudicial ao homem? Como filósofo não é difícil deduzir que ele opta pelas doenças da alma, sobretudo porque as do corpo são mais facilmente denunciáveis, enquanto as do espírito, mais ocultas e em geral malignas, "roubam a percepção" dos que são acometidos por elas. Seja qual for a gravidade das doenças físicas, Plutarco sustenta que "as tempestades da alma são sempre as mais graves", pois impedem o homem de voltar a si. E, assim, "sem piloto e sem lastro, ele cai de cabeça na confusão e no desvario".Enfim, este pequeno resumo dos textos contidos neste volume serve, no fundo, para nos mostrar três coisas: não estamos diante de uma simples curiosidade literária de um passado remoto; as grandes questões humanas não variam tanto, mesmo ao longo dos séculos; e não evoluímos tanto a ponto de poder desprezar a sabedoria dos antigos. Ainda hoje continuamos inconfessadamente esperando que os maus sejam punidos por uma justiça superior, assim como continuamos deixando que o veneno inoculado em nossas almas destrua os nossos corpos. E, ainda mais do que tudo, falamos demais, quase sempre sem dizer o essencial. Regina Schöpke é filósofa e historiadora

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