Paixões em triângulo de fogo e dor

Rubens Ewald Filho mostra O Amante de Lady Chatterley intenso e elegante

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2008 | 00h00

Em sua curta vida, David Herbert Lawrence (1885-1930) incomodou o capitalismo industrial inglês e as boas maneiras do reinado de Eduardo VII. O escritor, que se assinava D.H. Lawrence era polido mas teimoso. Não quis notar o que aconteceu a Oscar Wilde. Ambos cometeram o mesmo engano que, em termos de estratégia militar, significa abrir duas frentes de combate ao mesmo tempo. Wilde é sempre visto como homem que se arruinou em escândalo homossexual. Pouco se menciona sua simpatia pelos socialistas da época que preconizavam reformas sociais mesmo que sem o teor revolucionário dos marxistas. D.H. Lawrence tinha a mesma posição; Wilde foi para a prisão, enquanto ele morreu ao ser publicado na Inglaterra seu O Amante de Lady Chatterley, romance em que Constance, nobre casada com um inválido, entrega-se a Mellors, empregado do seu castelo.O autor gostava de polêmica, e tinha talento. Vejamos detalhes das brigas que comprou. A social quando o amante plebeu se manifesta: "Viver para outra coisa. Que o nosso fim não seja unicamente ganhar dinheiro, nem para nós mesmos, nem para o quer que seja. Somos hoje forçados a isso. A ganhar um pouco para nós e muito para os patrões."Agora, a parte psicológica, dos costumes, na relação de Lady e Mellors: "Ao fogo da investida fálica do homem ela pode alcançar o coração da floresta do seu ser. Constance sentiu que atingiu o embasamento de rocha de si mesma, e que a vergonha não existe. Tornou-se ela mesma quando se libertou da vergonha. Oh! Era assim? A vida, a vida!"Foi um pandemônio. Tremeram as xícaras dos chás da cinco na Londres de 1928 diante de tamanha insolência. Para piorar, Lawrence tinha o que se chama de maus antecedentes. Em 1920 escrevera Mulheres Apaixonadas (Women in Love) com uma cena de luta entre dois homens nus com evidente sugestão sexual. Gente da alta classe, um deles patrão capaz de atiçar cães ferozes contra os empregados mineiros (cena brutal, no livro e no filme com Alan Bates e Oliver Reed). Em 1923 no conto Raposas (The Fox) explicitou a pulsão sexual ligando duas mulheres.Numa comparação com Wilde, tais ousadias custaram menos a Lawrence que continuou a produzir incansavelmente romances, contos, poesia, teatro e ensaios. Os tempos mudaram (aí estão o príncipe Charles e Camila Parker Bowles) e O Amante de Lady Chatterley permanece como uma das obras-primas da ficção do século 20. O estilo impecável e a verdade intrínseca do enredo sobrevivem gloriosos às cinzas do conservadorismo.O espetáculo de Rubens Ewald Filho, conhecido jornalista cinematográfico, é a homenagem dele ao reino dos filmes enquanto pisa o terreno do teatro. A adaptação de Germano Pereira une informações sobre Lawrence com o entrecho amoroso. Há equilíbrio - bons cortes e edição - nessa escolha que introduz um novo personagem, o artista, diante dos cânones da estratificada sociedade inglesa, um mundo de diferenças desde o manejo da linguagem aos hábitos ancestrais (o empregado é um "guarda caças", função que a nós parece distante). A relação do marido com o subalterno é uma aula de sociologia pela literatura. O primeiro é, à sua maneira, um cidadão de caráter forte. Feriu-se pela pátria na 1ª Guerra Mundial, mas olha a humanidade de cima; o empregado aparenta seguir as regras, mas quer um mundo novo. Rubens Ewald fez questão de excluir elegantemente a obviedade do sexo e nudez. Ignorou o facilitário tolo de "mostrar tudo". Com a decisiva participação da diretora de arte Nadine Stambouli Trzmielina, transformou a explosão do desejo em uma dança estilizada; um tango erótico e dramático. Os intérpretes são jovens, bonitos, as palavras de Lawrence são claras, e é o que basta para levar o espetáculo a um nível superior. Há total adequação física de Germano Pereira, sólido, ruivo como tantos ingleses; mas tem o segundo trunfo de também representar, comovido, o escritor atacado que defende sua arte. Nesse pêndulo de frustrações e sonhos femininos, Ana Carolina de Lima ilumina a outra metade do jogo. Atriz bela e de sóbria presença, ganhará apostando sempre na representação porque não lhe faltarão elogios ao rosto e olhos que lembram desde Gene Tierney às brasileiras Marlene França e Selma Egrei em início de carreira. No delicado papel de Clifford, o marido de vida mutilada, Ailton Guedes convence quando mostra o tremor interno da impotência e o ressentimento afetado. Como Rubens Ewald é - apaixonadamente - um homem do cinema, termina o espetáculo com a projeção de um texto na tela. Talvez ficasse melhor se feito um pouco antes, durante a dança do casal. Porque assim o espetáculo terminaria totalmente dentro do teatro nessa realização enriquecida por sutilezas de figurinos, iluminação e a trilha sonora de Marcelo Amalfi e Ivam Cabral. D.H. Lawrence tem a homenagem que merece. ServiçoO Amante de Lady Chatterley. 80 min. 14 anos. Espaço dos Satyros 2 (90 lug.). Pr. Roosevelt, 134, 3258-6345. 4.ª e 5.ª, 21 h. R$ 20. Até amanhã

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