Paisagens sonoras da doce Colleen

Toca hoje em São Paulo uma artista que tem raros equivalentes no mundo do pop - se é que se pode dizer que ela habita o mundo pop. Ela é do mesmo tipo sanguíneo da harpista americana Joanna Newson, da acordeonista canadense Wendy McNeill ou da cantora israelense Keren-Ann Zeidel. Ou seja: ela é estranha, e o que ela toca é lindo. É um refinamento do qual poucos têm desfrutado (o guitarrista Daniel Kessler, da banda Interpol, por exemplo, adora). Mas é um som que não parece mesmo feito para multidões, dada sua delicadeza. Ela pinta aquarelas nos nossos ouvidos com seu som.Trata-se da parisiense Cécile Schott, que usa o pseudônimo Colleen, e que toca um leque de instrumentos também inusual - o principal é a viola da gamba, mas ela também toca violão clássico, clarineta, sintetizadores e outros badulaques eletrônicos. Colleen, que toca o repertório de seu disco mais recente, Les Ondes Silencieuses (2007), apresenta-se na mesma jornada do ex-violinista do grupo canadense Arcade Fire, Owen Pallet (mas eles não devem tocar juntos).Quais são suas expectativas para o primeiro concerto no Brasil?Bom, eu jamais estive no Brasil. Conheço um pouco da bossa nova e o tropicalismo, que eu gosto muito. Mas eu prefiro hoje a surpresa de conhecer o País e a música.Sua música é algo entre o clássico e o pop, há uma espécie de diálogo ali. É essa sua ambição na música, fazer essa ponte?Efetivamente, gosto ao mesmo tempo da música que se diz pop e da que se diz erudita. Não tenho formação erudita convencional. Quando tinha 15 anos, comecei a ouvir a música barroca, clássica, dos filmes, a música africana. Tem muita coisa na minha formação.Você toca sozinha em São Paulo?Eu sempre faço o concerto sozinha. Toco alguns instrumentos, mas o principal é a viola da gamba, que uso no último disco. Toco também violão clássico, clarineta, alguns pedais.Como chegou até a viola da gamba? É um instrumento tão incomum.De fato, não é habitual na música contemporânea. Eu sempre amei esse instrumento, quase como um encontro entre o violoncelo e a guitarra. Uma vez, quando eu tinha uns 15 anos, vi um filme chamado Tous les Matins du Monde, sobre um famoso compositor e músico do século 17, Marin Marais, que tocava a viola da gamba. Fiquei apaixonada. A viola da gamba tem 7 cordas, e seu som é bastante particular, muito orgânico, harmônico. É mais romântico que o violoncelo.Há uma espécie de coincidência entre jovens musicistas de hoje na escolha de instrumentos tão inusuais. Há aquela cantora americana, Joanna Newson, que toca harpa. É muito bela e estranha ao mesmo tempo. É uma viagem no tempo.Amo muito a música de Joanna, é interessantíssima. A diferença é que ela tem uma formação clássica, é uma virtuosa, ela canta também, e são canções de proporção extraordinária. E eu, eu não tive formação clássica, e minha música menos baseada nas canções que Joanna. É interessante que os jovens músicos saiam do formato que predomina no pop, no clássico ou no contemporâneo. É bom que os jovens aceitem o risco. Boa parte das referências do pop de hoje se situa ainda nos anos 1960, e é bom que as pessoas saiam desses formatos preestabelecidos.Apesar de tudo, me parece que a essência da sua música é mais francesa que mundial, que global.De jeito nenhum. Eu escuto muitas coisas. Por exemplo: eu adoro a cultura japonesa, e acho que minha música tem muito a ver, é muito minimalista, acústica. E ao mesmo tempo escuto a música africana, a soul music da Motown. Não penso a música em termos de nação.Na música para cinema de Yann Tiersen, também francês, há uma formulação que procura uma fusão também entre o pop e o clássico, como se fosse a memória de um tempo perdido.Eu não conheço tanto essa música. Ele é muito conhecido pela trilha original do filme Amélie Poulain, mas eu gosto muito do trabalho dele antes disso. Mas não posso falar muito da música de Yann, conheço pouco.Qual é sua avaliação da música da mulher do presidente francês, a cantora Carla Bruni?No comments (risos).Aqui, a música dela é uma música controversa: tem críticos que amam e críticos que detestam.É controversa aqui também. Infelizmente, muito da música hoje é mediado pela personalidade das pessoas que tocam ou que a fazem. São mais conhecidos pelo visual ou pela extravagância do seu comportamento do que pela música. Ela é a mulher do presidente, é uma situação completamente inacreditável. Minha opinião pessoal é que há um pouco de circo nisso. E é grave. Há assuntos da economia e da administração que pedem mais atenção. Há países muito pobres que ficam em segundo plano por conta desse circo. E essa situação coloca a política ao nível do show business.Você diz que a extravagância às vezes é um caminho mais fácil. Mas há um músico parisiense, Serge Gainsbourg, que ficou muito conhecido pela extravagância também.A grande diferença é que Serge Gainsbourg era um grande compositor e um grande cantor também. Era genial. E Carla Bruni, bem... Nos anos 1960, houve também artistas como Jim Morrison e Jimi Hendrix. Jim Morrison tinha uma aura erótica, muita gente o via por esse viés. Mas eles também faziam uma música extraordinária. ServiçoColleen e Owen Pallet. Sesc Santana. Teatro (349 lug.). Av. Luís Dumont Villares, 579, Jd. São Paulo, tel. 2971-8700. Hoje e amanhã, às 21 h. R$ 20

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

17 de setembro de 2008 | 00h00

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