Pai e filho, dialogando com o cinema

Três vezes por semana, o canadense David Gilmour e seu filho Jesse viviam a experiência relatada no livro O Clube do Filme

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

David Gilmour assume que teve momentos de dúvida. Houve noites em que, deitado na cama, não conseguia conciliar o sono, pensando se estaria fazendo a coisa certa ou se, ao contrário, não estaria sendo irresponsável, a estragar a própria vida e a do filho? O que Gilmour não sabia é que, ao criar o clube do filme, estava lançando os fundamentos do que seria seu maior êxito editorial e, mais importante, ajudando a traçar um futuro para Jesse. É bom esclarecer quem são essas pessoas. David Gilmour, crítico e escritor canadense, é autor de O Clube do Filme, e Jesse é seu filho. O garoto, aos 15 anos, era rebelde, como costumam ser os adolescentes. David, que atravessava mau período, sem trabalho fixo, sentia que estava a ponto de perdê-lo. Jesse não queria saber de escola e, como filho único, preferia se isolar. Foi quando David lhe fez a proposta que outros pais, mais convencionais, poderão até achar indecente.David disse ao garoto que, se não gostava da escola, ele poderia abandoná-la. Mas teria de aceitar uma educação alternativa. Já que o pai era crítico de cinema, ex-crítico, eles iam fundar o Clube do Filme, assistir a três filmes por semana (clássicos, modernos, de diferentes procedências) e iriam conversar, obrigatoriamente, durante algumas horas, após cada projeção. O garoto topou. Começou o que talvez seja sonho de todo pai. A possibilidade de ter uma conversa franca, aberta, com o filho, neste caso midiatizada pelo cinema. Em geral, por mais calorosa que seja a relação familiar, há coisas que os filhos, principalmente na adolescência, preferem debater com os amigos. Anos mais tarde, partiu de Jesse Gilmour a sugestão para que David escrevesse um livro relatando a experiência de ambos. David Gilmour escreveu O Clube do Filme, que sai agora no Brasil (pela Intrínseca, 239 páginas, R$ 24,90). O sucesso foi tão grande que o pai resolveu destinar ao filho o valor de 25% das vendas - afinal, a ideia foi do garoto. Mas o que o enche de alegria é o que revela ao repórter, na conversa por telefone. O clube do filme deu um rumo à vida de Jesse e ele agora dá seus primeiros passos no cinema, como ator e roteirista. Um final feliz, como Hollywood gosta de mostrar.Como o cinema surgiu em sua vida?Eu via filmes como todo mundo, mas tive a revelação em 1972, quando assisti a Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. O filme me marcou tanto que resolvi, instantaneamente, que queria ser ator. Sou canadense, mas fui para Nova York, em busca de uma carreira. Não deu certo, porque era muito ruim como ator, mas a paixão pelo cinema continuou e consegui um trabalho como crítico no Canadá.E o filme de Bertolucci, continua uma paixão?Último Tango foi importante para mim, num determinado momento, como obra de descoberta. Aliás, dupla descoberta. Me descobri e descobri o cinema, mas a obra, embora lindamente filmada, possui seus limites. Há um lado infantil muito forte em Último Tango e toda a parte com Jean-Pierre Léaud e aquela câmera me parece hoje constrangedora. Em compensação, os solilóquios de Marlon Brando continuam sendo, talvez, os mergulhos mais profundos de um ator na complexidade da natureza humana. Quando Brando está ali no chão e fala sobre a vida, a morte para Marie Schneider, como se estivesse sozinho, não creio que alguma vez o cinema tenha atingido, antes ou depois, aquela intensidade.O propósito do clube não era didático, era?Não, porque o didatismo seria um retorno à escola, que Jesse não queria encarar. Os filmes podiam ser bons ou ruins, não importa, o importante era a qualidade da nossa conversa. Mas acredito que consegui lhe inculcar alguma coisa. Quando lhe mostrei Ran, de Akira Kurosawa, deixei claro que ele poderia gostar, ou não, mas aquele é um filme que faz a diferença. A arte, e o cinema, fazem bem para a alma. Em compensação, errei ao lhe mostrar Os Incompreendidos. Ele não estava preparado para o cinema europeu e só conseguiu gostar do filme de (François) Truffaut mais tarde.Você tem um filme, ou filmes, favoritos?Os dois primeiros Chefões. Com eles, Francis Ford Coppola atingiu a perfeição da arte de narrar no cinema. Depois, tenho a impressão que a tragédia de sua vida, a morte do filho, se refletiu na obra e ele nunca mais fez nada tão marcante.Se você tivesse me dito isso há um mês eu concordaria, mas assisti no festival de Cannes ao novo Coppola, Tetro, e é o melhor filme dele em anos. Tetro foi feito na Argentina e trata da relação entre pai e filho, trata de luto, um filho que enterra o pai e outro que assume a sua paternidade. É maravilhoso...Fico muito contente de ouvir isso e já acredito, antecipadamente, que possa ser verdade, porque os temas do luto, da relação entre pai e filho, podem ter permitido a Coppola exorcizar a dor de sua perda. Como pai, sempre fui muito sensível à sua amargura, mesmo que não me satisfizesse como artista. Será gratificante vê-lo ressurgir.

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