Páginas da revolução dos frades

Diário de Fernando, de Frei Betto, detalha o papel dos dominicanos no combate à ditadura militar

José Maria Mayrink, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O envolvimento dos frades dominicanos com a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, foi mais longe do que se acreditava ou, pelo menos, do que admitiam os implicados no esquema. "Pau para toda obra, só não apertamos o gatilho", revela frei Fernando de Brito, 40 anos após a morte do líder revolucionário, que foi assassinado numa emboscada armada pela polícia, em 4 de novembro de 1969.

"O trabalho dos frades na ALN consistia em favorecer o desabrochar da luta armada. Base de apoio de militantes envolvidos em expropriações bancárias, sequestros, bombas, etc., acolhíamos feridos e perseguidos, facilitando-lhes a recuperação e a fuga do País; escondíamos armas e material considerado subversivo, fazíamos o levantamento de áreas potencialmente adequadas ao desencadeamento da guerrilha rural", afirma o religioso no livro Diário de Fernando - Nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira.

Escrito por Frei Betto, outro participante do esquema e seu principal historiador, o livro baseia-se nas anotações feitas por Frei Fernando em quatro anos de prisão. Escritas com letras minúsculas e acondicionadas em canetas Bic, as anotações foram contrabandeadas com a ajuda de amigos que visitavam os presos. Muitas vezes, o frade destruiu e perdeu o material escondido nas canetas para ele não cair nas mãos dos carcereiros.

"Frei Fernando, que ousou fazer o diário na prisão, tinha o propósito de ele mesmo redigi-lo para o livro. Não o conseguiu e, há cinco anos, me repassou todo o material, sobre o qual trabalhei entre 2006 e 2009. Foi ele quem preparou o rascunho ao transformar em texto as telegráficas anotações contidas em papel de seda e escritas com letras microscópicas", diz Frei Betto, ao explicar a coautoria. Como o diário só registrava os fatos, Frei Betto checou nomes e descreveu episódios aos quais eles se referiam.

Em Diário de Fernando, há detalhes sobre o apoio dado à luta armada pelos dominicanos ligados a Marighella que falta em Batismo de Sangue, lançado por Frei Betto em 1982. Mas um livro completa o outro, segundo o autor. "No Batismo, conto, por exemplo, como funcionava o esquema de fronteira para dar fuga aos perseguidos pela ditadura. Isso não consta no Diário. Mas este revela, com mais clareza, como o convento das Perdizes funcionava como ponto de apoio aos que lutavam contra o regime militar", afirma Frei Betto. De todo modo, Diário de Fernando reitera o que diz Batismo de Sangue sobre a postura da Igreja em relação à prisão dos frades.

As anotações de Frei Fernando remetem a outros livros de Frei Betto - Cartas da Prisão (1974) e Das Catacumbas (1976) - que relatam o sofrimento dos frades no cárcere. Uma terceira publicação, O Canto na Fogueira (1977), reúne cartas de Frei Betto, Frei Fernando e Frei Ivo Lesbaupin, na época frade dominicano, que também esteve preso por envolvimento no esquema de Marighella. Os três religiosos foram condenados a quatro anos de detenção. "Fomos presos em 1969, julgados em 1971 e condenados a quatro anos de reclusão. Nosso recurso foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal em 1973, um mês antes de completarmos os quatro anos. Nossa condenação foi reduzida de quatro para dois anos, de modo que temos um crédito de dois anos com a liberdade", comenta Frei Betto, lamentando o tempo sofrido.

Quando veio a Anistia, em 1979, os dominicanos já haviam cumprido a pena que a medida anulou. Ao serem anistiados, recuperaram os direitos políticos que haviam sido cassados. "Cassaram os direitos de Frei Betto, mas não os do eleitor Carlos Alberto Libânio Christo", lembra o frade. Impedido de votar como religioso e militante de esquerda, era obrigado, sob pena de multa, a votar como civil. A solução encontrada foi uma saída mineira: no dia da eleição, Frei Betto não votava, mas Carlos Alberto justificava o voto fora do domicílio eleitoral.

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