Outro Sentido para o fado, na voz de Zambujo

Cantor português lança em show no Teatro Tom Jobim, no Rio, CD com releituras de clássicos portugueses e nacionais

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

Aos 33 anos, ele é saudado na Europa como "a nova voz do fado". "Se João Gilberto cantasse fado", dizem alguns, "seria assim". Caetano Veloso e Ivan Lins se encantaram por seu jeito de interpretar fados clássicos de uma forma pouco ouvida por aqui. Apaixonado por música brasileira e pelo cool jazz norte-americano, o português António Zambujo, está no Brasil para lançar o terceiro CD de sua carreira, Outro Sentido. Ouça Quando Tu Passas por MimO cantor faz show no Rio hoje à noite, no Teatro Tom Jobim. Cantar no espaço que leva o nome do maestro "será o maior privilégio" de sua carreira, diz Zambujo, fã das músicas de Tom, dos poemas de Vinicius, das canções de Chico Buarque e de Ivan Lins e das interpretações de Elis Regina, Maria Bethânia e Simone. Da "nova geração", anda impactado pelas composições de Marcelo Camelo, Rodrigo Maranhão e Seu Jorge, e a força de Maria Rita e de Vanessa da Mata.João Gilberto é um ídolo. Tanto que ele deixará Lisboa, onde mora, para ir a Madri, em julho, só para assistir a um show do cantor. "Sou completamente rendido a ele. Acho que vou morrer antes!", brinca Zambujo, já com ares brazucas - ele falou ao Estado no saguão do hotel em Copacabana, anteontem, de chinelos nos pés e fitinha do Nosso Senhor do Bonfim no pulso direito.É a segunda vinda ao País, que já conhecia através de seu cancioneiro, o qual ouve "desde sempre". Acha que tudo de que gosta - João, Caetano Veloso, Chet Baker, Nina Simone, Tom Waits, as canções que ouvia em sua terra quando criança - influencia seu jeito de cantar.Residente no restaurante Senhor Vinho, conceituada casa de fado de Lisboa, Zambujo já foi eleito o melhor cantor do gênero pela Fundação Amália Rodrigues. Mas os puristas têm lhe torcido o nariz. Com Outro Sentido, ele deve ter entrado de vez na lista negra daqueles que só admitem o fado tradicional. No disco, a chamada guitarra portuguesa (de 12 cordas) e a viola (nosso violão) convivem com o contrabaixo, o violoncelo e a guitarra elétrica. "Alteramos um pouco a base de voz e violão. A guitarra portuguesa passa a ser um instrumento convidado", ele explica. "As críticas não me chateiam. Se não quiserem chamar de fado, que chamem de outra coisa!"Lançado em Portugal em 2007, o CD, ora catalogado como "fado", ora como "world music", foi muito bem recebido na Europa. Na França, entrou na lista dos mais vendidos da megastore Fnac; críticos o colocaram entre os melhores do ano. O repertório tem clássicos atemporais da música portuguesa, eternizadas na voz de Amália Rodrigues, como Nem Às Paredes Confesso e Fadista Louco, e fados tradicionais: Loucura, Eu Já Não Sei, Fado Menor, A Nossa Contradição e Foi Deus.A versão lançada no Brasil pela Universal e MP,B Discos tem faixas especiais: Lábios Que Beijei (J. Cascata/ Leonel Azevedo), sucesso de Orlando Silva, Bilhete, de Ivan Lins, nos vocais e ao piano, e Quando Tu Passas Por Mim, um samba desconhecido de Vinicius e Antonio Maria, aqui um fado lindamente cantado por Zambujo. Roberta Sá é outra convidada, na faixa Fado Partido, e Zé Renato, em Se Tu Soubesses.Apesar de preferiu as mulheres fadistas aos homens, Caetano conheceu o CD em 2008 e chamou a atenção dos leitores do blog que mantinha para ele: "É de arrepiar e fazer chorar", ele escreveu.Zambujo nasceu em 1975 em Beja, no Sul de Portugal. Começou a estudar clarinete no Conservatório Regional do Baixo-Alentejo aos 8 anos. Sempre amou o fado. Hoje, seu instrumento é o violão. O primeiro CD, O Mesmo Fado, saiu em 2002, e tinha fados tradicionais; o segundo, Por Meu Cante, dedicado ao cancioneiro alentejano, ele lançou em 2004. Zambujo não acha que está modernizando o gênero. "É mais uma questão de interpretação do que de atualização. O fado prima pela singularidade. Cada pessoa tem o seu. Felizmente é assim."

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