Ötvös toca Dvorák e dá lição que não se deve esquecer

Apresentação de quinta-feira do maestro húngaro à frente da Osesp está entre os concertos mais notáveis deste ano

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

A segunda apresentação do maestro Gábor Ötvös, na quinta, confirmou o acerto da política iniciada pelo maestro Neschling, na Osesp, de enquadrar, com duas obras conhecidas e populares, uma importante peça pouco conhecida do público. Assim, pilares do repertório, de Prokófiev e Dvorák, acompanharam o Concerto para Viola op. póst. de Béla Bartók, admiravelmente executado pelo violista chileno Roberto Díaz.É difícil saber o que seria o Concerto para Viola, se Bartók o tivesse podido terminar. Quando ele morreu, em 26 de setembro de 1945, a peça ainda não estava orquestrada, e Tibor Serly, o seu aluno predileto, a terminou. Mas a linha do solista - que Béla discutira com o violista inglês William Primrose, que encomendara o concerto - estava virtualmente pronta. E a ela, a esta a sonoridade encorpada do instrumento de Díaz deu um relevo excepcional. Desde a exposição do primeiro tema, no Allegro moderato, manteve a proeminência da viola, mesmo quando a orquestra se adensa, fazendo soar, após a magnífica cadência, o belo solo de fagote que opera a transição para o Adagio religioso.Na melodia estaticamente meditativa desse movimento de forma ternária, que Díaz plasmou com contida emoção, está o epicentro dessa perturbadora música, escrita por um homem que sabe que está morrendo e, nela, faz sua última declaração de crença na vida - traduzida na seção central, Allegretto, de que Díaz extraiu todo o efeito virtuosístico. O Finale: Allegro vivace é o movimento mais sumário, e talvez tivesse sido mais extenso, se Bartók tivesse podido revê-lo. Mas em seu moto perpétuo, de intenso sabor húngaro, a que Díaz imprimiu o impulso rítmico que torna a música de Bartók inconfundível, está a despedida da terra que nunca mais veria.Ao acompanhá-lo, Ötvös e a Osesp se empenharam - ao mesmo tempo que abriam todo o espaço para o discurso da viola -, em explorar o que a escrita orquestral tem de melhor, em especial os momentos que nos trazem à mente ecos do Concerto para Orquestra, última peça orquestral de Bartók. Ouvindo essa grande despedida da vida, entendemos por que, momentos antes de entrar em coma, Béla disse ao médico: "O mais triste é que estou indo embora com a bagagem cheia."E ouvir Roberto Díaz dar, no extra - o movimento Rapidíssimo da terceira sonata de Hindemith para viola-solo - uma demonstração da soberba escola de instrumento que tem, impõe a pergunta: por que Tortelier, que é um reconhecido bom intérprete de Hindemith, não traz de volta, no futuro, para tocar aqui Der Schwanendreher, para viola e orquestra?A Sinfonia nº 1 em ré maior op. 25 "Clássica", de Serguêi Prokófiev, com que o programa foi aberto, foi realizada por Ötvös e a Osesp com uma transparência de texturas e elegância de fraseado que se deliciou com o transbordante bom humor dessa peça. E mais: eles a tocaram de modo a fazer sentir que, ao retomar o modelo clássico, Prokófiev permanece russo dos pés à cabeça - é como se Iósif Haydn tivesse nascido em Sontsóvka, em 1891.O título da sempre estimada Sinfonia nº 9 em Mi Menor op. 95 "Do Novo Mundo" fica mais claro, se nos lembramos do título em inglês ''From the New World''. Não é uma sinfonia "sobre a América", mas a obra nostálgica de um homem que, longe de casa, sente saudades de seu país e conta nos dedos os minutos que faltam para voltar a vê-lo. Ötvös teve isso sempre em mente, ao levar a Osesp neste passeio pela última sinfonia do compositor checo.O tema cíclico de sabor boêmio, que estará presente em toda a sinfonia, e o ritmo de polca que marca o segundo tema do Adagio-allegro molto, criam o clima da obra. Mas foi no Largo que o corne inglês de Natan Albuquerque Jr., a flauta e o o oboé de Jéssica Dalsant e Arcádio Minczuk, ou o violino de Cláudio Cruz, recriaram toda a magia das citações de temas americanos que se entrelaçam, contrastando com a exuberância dos ritmos de dança da Europa central com que se constrói o Scherzo molto vivace seguinte. Tratamento de vigorosa liberdade rítmica foi o que Ötvös deu à canção americana sobre os "Três ratinhos cegos", envolta numa roupagem wagneriana - que, apesar da ligação do compositor com Brahms - é prova da sua liberdade e independência de espírito.Ouvir Ötvös tocando Dvorák, mostrou quanto ele compartilha a crença bartokiana de que a música - Béla fez pesquisas não só do folclore húngaro, mas também do eslovaco, romeno, checo e até do árabe - poderia, numa época de grandes conflitos, ser o elo de solidariedade entre os homens. Lição mais do que nunca atual, quando vemos intelectuais do porte de Edward Said e Daniel Barenboim recorrerem à música, como uma forma de reaproximação no conturbado Oriente Médio. Todas essas reflexões nos levam a crer que esta apresentação de Gábor Ötvös coloca-se entre os concertos mais notáveis a que pudemos assistir este ano. ServiçoOsesp. Sala São Paulo (1.484 lugares). Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3223-3966. Hoje, 16h30, R$ 30 a R$ 104

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