Osesp mostra virtuosismo com maestro russo

Guennádi Rojdéstvienski conduziu com delicadeza um programa que a orquestra executou com nível excelente

Crítica Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

Pensar que aquele senhor de cabelos brancos conheceu Dmitri Dmítrievitch, conviveu e colaborou com ele várias vezes! A interpretação que Guennádi Rojdéstvienski ofereceu da Sinfonia nº 10 em mi menor op. 93, de Shostakóvitch, em seu primeiro concerto à frente da Osesp, foi a de quem tem com a obra a mais perfeita familiaridade. Com seu gestual muito discreto, Rojdéstvienski conduziu a orquestra com segurança através dos meandros dessa vasta construção sinfônica, estreada em dezembro de 1953, logo após a morte de Stálin.O imenso painel do Moderato inicial, de temas longos, tensão crescente, episódios em que a flauta ou o fagote dialogam com as cordas, e culminam em dilacerantes trinados estridentes dos metais, foi desenvolvido com absoluto senso de estrutura. Basta citar a segurança com que a Osesp fez erguer-se o angustiado primeiro crescendo do movimento. Ou a dramaticidade do fim, com o desolado solo do clarinete enquadrado por soturnos pianíssimos.O mecanicismo implacável do scherzo, com seus ritmos deslocados, reminiscentes do gopak georgiano, no qual - segundo o biógrafo Solomón Vólkov - Shostakóvitch teria retratado Stálin, foi uma demonstração espetacular de virtuosismo orquestral. Com essa imagem da incontrolável máquina infernal que foi a tirania stalinista, contrasta a complexidade do Allegretto, no qual surge, pela primeira vez, a assinatura do compositor - DSCH (ré, mi bemol, dó, si) - símbolo da criação artística que, apesar de todas as dificuldades, permite ao indivíduo resistir e sobreviver.Com ela convive o insistente apelo da trompa - mi, lá, mi, ré, lá - no qual, combinando as notações germânica e latina, Shostakóvitch escreveu o nome de sua aluna Elmira Nazírova, pela qual estava apaixonado na época. O significado é claro: do amor também, que dá à vida humana seu pleno significado, vem a força para vencer a adversidade. Foi profundamente emocionante a maneira como Rojdéstvienski realizou esse terceiro movimento, centro nevrálgico da sinfonia, depois do qual o último movimento, perpassado de intervenções solistas que evidenciaram o nível atingido pelos músicos da Osesp, leva a uma conclusão ambígua típica de Shostakóvitch. Aparentemente, o clima de festa popular freneticamente dançante é de exaltação. Mas ele é percorrido por uma corrente subterrânea de inquietação, de amargura. Com a sensação de alívio ao ver chegar o fim da Era Stalin, convive com a incerteza, o medo do que poderá vir.O som do violino de Sasha Rojdéstvienski é pequeno, pouco brilhante e, por vezes, o solista encontra-se demasiado nivelado com a orquestra. Mas o filho do maestro é muito bom violinista - quando demonstrou isso claramente foi na página de Bach que tocou em extra. Foi muito persuasiva a maneira como se desincumbiu das exigências virtuosísticas do Concerto nº 1 em ré maior op. 19, de Prokófiev, ouvido no final da primeira parte: notas muito árduas no registro agudo, trinados, staccatos, arpejos quebrados. Foi particularmente boa a forma como executou o final do Scherzo vivacíssimo, em que explode toda a veia sardônica do compositor. O tratamento orquestral dado por Rojdéstvienski a esse concerto foi de extrema sutileza: explorou com felicidade as filigranas da orquestração, sobretudo as que emolduram a bela cantilena do Finale moderato.As Estações, de Aleksandr Glazunóv, com que a apresentação se iniciou, tem as qualidades e os defeitos da música para balé. Sem chegar ao nível de um Tchaikóvski - que às vezes Glazunóv imita claramente -, é partitura melodiosa, colorida, com momentos dançantes envolventes. Mas não resiste bem à audição sem o suporte da dança. Sua longa sequência de movimentos mais ou menos curtos acaba tornando-se repetitiva e tediosa. Essas observações, porém, nada têm a ver com a qualidade da execução orquestral, que foi de nível excelente.SEGUNDO CONCERTOEm contraste com o neoclassicismo sorridente da primeira (a Clássica), a Sinfonia nº 2 em ré menor op. 40, de Serguêi Prokófiev, é produto típico do construtivismo dos inquietos anos 20, com sua evocação de sociedade moderna e industrializada. Foi boa escolha para o segundo concerto regido por Guennádi Rojdéstvienski à frente da Osesp, pois, por suas sonoridades angulosas e cruas, harmonias asperamente politonais, a Segunda é a mais raramente ouvida das sete sinfonias de Prokófiev.Foi muito enérgica e rica em contrastes a execução da Osesp desse amplo painel em dois grandes movimentos, em especial no coral de metais que introduz o segundo tema do Allegro ben articolato; ou na impressionante passagem para as cordas graves com que se abre o desenvolvimento desse primeiro tempo. O segundo movimento, iniciado com uma melodia no oboé, surpreendentemente delicada dentro do contexto geral da obra, contém um conjunto de seis variações a que a orquestra deu tratamento muito diferenciado: o tom folclórico, de ritmos sincopados, da segunda, em contraste com a energia da terceira; a extroversão da quinta levando à apoteótica síntese temática da sexta. E foi muito bonita a forma como Rojdéstvienski conduziu o apaziguado final da sinfonia.Os dois poemas sinfônicos de Anatóli Liádov que enquadraram, na primeira parte, a sinfonia de Prokófiev, ilustram o namoro russo com o simbolismo e o impressionismo. O Lago Encantado op. 62, peça atemática, que visa a sugerir o movimento da água com suas fluidas texturas de cordas divididas, flauta, celesta e harpa, soa hoje bastante datada. Em compensação, Bába Yága op. 56, evocando a feiticeira dos contos populares, é mais interessante, com seu tema grotesco no fagote e seu final ironicamente brusco. A ambos a Osesp e Rojdéstvienski deram interpretação muito convincente.A apresentação do Concerto nº 2 em sol maior op. 44, de Tchaikóvski, que ocupou a segunda parte, deixou a desejar, não fazendo jus à sólida reputação de Viktória Postníkova, esposa do maestro, como intérprete do compositor. Foi uma execução de acabamento meio grosseiro, com passagens demasiado marteladas, sobretudo no Allegro brillante inicial - que é enérgico, mas não precisa ser truculento. O que é estranho pois, no extra - o Outono das Estações op. 37bis do próprio Tchaikóvski -, a pianista deu mostras de ser capaz de um toque delicado e envolvente. Além disso, da maneira atropelada como Postníkova atacou as passagens de bravura tanto do primeiro movimento quanto do Allegro con fuoco final, resultou um fraseado às vezes bem mal definido.O melhor momento foi o Andante non troppo central, não só pela conduta mais pausada e reflexiva da solista, mas sobretudo pelo excelente desempenho de Emanuele Baldini e Eliah Sakukáshev, no verdadeiro concerto tríplice que se estabelece, quando o violino e o violoncelo dialogam um com o outro, respondidos pelo piano.

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