Osesp em um concerto não menos que brilhante

Yan Pascal Tortelier reassumiu comando da orquestra na homenagem ao ano da França no Brasil

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

Três faces da arte musical francesa; três sonoridades orquestrais nitidamente distintas: Yan Pascal Tortelier reassume esta semana o comando da Osesp, em um brilhante concerto em comemoração do ano da França no Brasil, quinta-feira passada, no Sala São Paulo.O Gracioso a que se refere o título da peça é a personagem cômica grotesca, o típico bufão da comédia clássica espanhola. E é isso o que justifica que a Alborada del Gracioso - orquestração da quarta peça dos Miroirs para piano - se equilibre entre a sensualidade lânguida e o frenesi da dança, traduzida em coloridos orquestrais de uma rara opulência, combinados pela sábia alquimia de um dos maiores orquestradores do século 20. Do solitário solo de fagote que introduz o episódio central à fusão luminosa de castanholas, harpas, xilofones, e dos ritmos, sempre fascinantes para os franceses, de uma Espanha sonhada, tudo respira, nessa fascinante peça de Maurice Ravel, uma contagiante alegria de viver - que Tortelier soube expressar com refinamento e energia.O parisiense Xavier Philipps tem de ser um violoncelista muito bem equipado, para enfrentar as dificuldades técnicas de Tout un Monde Lointain, o concerto para violoncelo de Henri Dutilleux concebido, em 1970, para Mstislav Rostropovitch. Tirando de seu Matteo Gofriller, de 1710, sonoridades de rico colorido, nessa série de meditações suscitadas pela poesia de Baudelaire, Philipps esteve à altura dos desafios da partitura. A orquestra que envolve o onipresente discurso do solista - a lentidão obsessiva da cantilena de Regard, a virtuosística representação do movimento do mar em Houles, ou na fragmentação melódica de Miroirs, o mais surpreendente dos cinco episódios - é ora luminosa e intensamente lírica, ora impalpavelmente sutil. Tortelier não só obteve da Osesp um grau superior de execução, como de seu público uma resposta inesperadamente calorosa a uma peça muito densa de música contemporânea, interpretada com extrema precisão e de forma emocionalmente persuasiva.Passados 179 anos de sua estréia, a Sinfonia Fantástica ainda conserva intacto o seu poder de nos surpreender com a sua inventividade. A eternamente jovem obra de Hector Berlioz coroou a apresentação de quinta-feira, com uma abordagem que trabalhou cuidadosamente os mais refinados aspectos da partitura. As texturas leves brilhantes da valsa, na cena do baile; as diversas aparições da "idéia fixa", desde a sua lírica enunciação inicial até as deformações grotescas por que passa no fim; a idílica cena no campo, iniciada com o solo de corne inglês, e que culmina na ameaçadora aproximação da tempestade; a entrada aterrorizante da tuba, introduzindo o tema do Dies Irae -, cada detalhe foi tratado com um efeito que justifica o julgamento recente da revista inglesa Gramophone de que a Osesp é uma das orquestras para as quais vale a pena estar atento. Tortelier construiu cumulativamente a sua interpretação da sinfonia, levando-a a um final catártico de grande impacto emocional.

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