Os segredos por trás de Madagascar

Brasileiro que trabalha na Dreamworks fala sobre 3D, Pixar, Shrek e tecnologia

Bruno Galo, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Ainda criança, o gosto pelos desenhos lhe criou problemas até com um padre. Isso, quando aos 11 anos ele resolveu transformar a Bíblia em uma espécie de flip book (uma sequência de desenhos feito em um livro que, ao ser folheado rapidamente, cria a ilusão de movimento). "Fui descobrir a animação nas aulas de catecismo", lembra, saudoso, o desenhista carioca Ennio Torresan. Muito antes, porém, aos 3 anos, ele começou a destruir alguns brinquedinhos em casa, ao desmontá-los para tentar entender como eles eram por dentro. Seu pai não gostava muito das traquinagens mas, para sua sorte, Ennio sempre teve mamãe ao seu lado. "Ela foi visionária o suficiente para perceber que aquilo se tratava de um exercício de exploração", analisa.O fato é que hoje as travessuras de Ennio ficaram para trás. E o que começou como uma brincadeira infantil acabou virando profissão. Aos 45 anos, ele trabalha na Dreamworks Animation, estúdio responsável por animações como Shrek, Kung Fu Panda e Madagascar. Ennio, por sinal, fez parte da equipe desses dois últimos. Antes de chegar a Dreamworks, em 2004, Ennio passou por diversos grandes ateliês de animação na Inglaterra e nos Estados Unidos. Tendo participado, entre outras produções, da equipe que desenvolveu o ingênuo e sensacional Bob Esponja, para a Nickelodeon.Atualmente, ele trabalha em Kung-Fu Panda 2, continuação do simpático filme do panda Po, com estreia prevista para 2011. Direto da Califórnia, nos EUA, Ennio falou ao Estado, em virtude do lançamento no Brasil do DVD de Madagascar 2 - A Grande Escapada, continuação que superou nas bilheterias o primeiro filme da série. Ah, e para os fãs do desenho uma boa notícia: dado ao imenso sucesso e uma predileção da Dreamworks pelas continuações - não por acaso, Shrek 4 estreia já no ano que vem - a terceira parte das aventuras do leão Alex, da zebra Marty, da hipopótamo Glória e da girafa Melman estão previstas para 2012.Você fez parte da equipe de história de Madagascar 2. Como exatamente se desenvolve o seu trabalho?Em animação o roteiro nunca é final. Trabalhamos durante os 2 anos da produção de Madagascar 2 com os roteiristas refazendo a história em storyboard, até que tudo se encaixasse. É assim que descobrimos o filme que queremos contar. O segredo das animações terem se tornado um gênero tão bem-sucedido hoje está justamente nesse cuidado com cada detalhe. Esse trabalho de lapidação é essencial. Kung-Fu Panda, por exemplo, demorou 5 anos para ser feito.Como que, apesar de todo esse cuidado, as animações dificilmente atrasam a data do seu lançamento?Geralmente eles começam a animar as cenas que já estão aprovadas pela equipe de história. Enquanto isso, continuamos retrabalhando as partes que ainda não estão suficientemente boas ou engraçadas. Por isso, muitas vezes, o filme pronto acaba sendo como uma colcha de retalhos. Primeiro se faz o meio, depois o fim, para finalmente se chegar ao começo.A Dreamworks tem investido forte em continuações. É mais fácil fazer uma sequência?Em parte. Quer dizer, costuma ser mais rápido porque já temos os personagens bem definidos. Mas, ao mesmo tempo, não podemos nos repetir e esse perigo é muito grande. Fazer uma continuação ou não, tem que ser uma decisão artística, nunca comercial.Boa parte dos desenhos recentes parecem querer passar a impressão de hiperrealismo. Qual a importância da tecnologia para a animação?O truque todo está na luz. É a iluminação que cria essa sensação de real. E a tecnologia é formidável. É fruto de nossa capacidade criativa. Mas nada disso adianta se os personagens não cativarem o público e a história não for boa. Agora mesmo, tem saído muitos filmes em 3D que parecem estar fascinados pela tecnologia e esquecem da história. Coraline, por exemplo, é um filme maravilhoso em que eles souberam usar direitinho o 3D. Já A Lenda de Beowulf era horrível, um dos piores filmes que vi na minha vida.Em 2001, com Shrek e seu humor corrosivo a Dreamworks mudou os filmes de animação...Completamente. Hoje em dia, o humor rola muito em volta do desagradável, do estranho. Shrek tirou as pernas da Disney, que até hoje perdeu sua identidade.Qual a diferença entre a Dreamworks e a Pixar (de Toy Story, Procurando Nemo e Wall-E)?Somos especialistas em humor. E o nosso estilo é um pouco mais ácido, mais irônico do que o da Pixar, que é muito doce. Os filmes deles são lindos. Eu acho que eles reciclaram a identidade da Disney para uma nova geração. Olha, por exemplo, os olhos dos personagens da Pixar são imensos, bem ao estilo da Disney. Eles são a nova Disney.

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