Os quatro visitantes do ateliê de Duke Lee

Mostra relaciona criação de artistas que trocaram experiências com o mestre

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

Entre 1963 e 1968, Carlos Fajardo, José Resende, Luiz Paulo Baravelli e Frederico Nasser, jovens no início de suas carreiras, frequentaram o ateliê de Wesley Duke Lee em São Paulo. Entre eles não houve uma relação mestre/aluno, mas foi um período de experimentações, "sem hierarquias", como diz João Bandeira, curador executivo do Centro Universitário Maria Antonia. Ao lado de Rafael Vogt Maia Rosa, ele é também curador da exposição que abre hoje para o público, na sala principal da instituição, relacionando a obra dos cinco artistas à experiência no ateliê de Duke Lee (na época, aos 30 e poucos anos, ele já tinha vivido nos EUA e na Europa)."A contribuição do Wesley foi colocar para eles a questão de como ser artista no século 20 no contexto dos anos 60 e quais os riscos que isso envolvia", diz Bandeira. A paródia, o humor, a ideia de se fazer uma arte que não fosse retiniana (referência a Duchamp), a figuração misturada à abstração são algumas das zonas compartilhadas pelo grupo de artistas nesse período. Vê-se esse diálogo entre eles de uma forma concisa e pontual na exposição no Centro Maria Antonia. Reunindo 23 obras - com predomínio do desenho como "técnica expandida" -, a mostra torna-se também uma homenagem a Wesley Duke Lee, colocando-o para além da ideia "viciada" de que o irreverente artista foi "o importador do espírito pop" no Brasil, como diz Vogt Maia. Nove trabalhos de Duke Lee (quatro pinturas e cinco desenhos) perpassam sua criação entre 1959 e 1967.Foi uma feliz coincidência o Centro Maria Antonia ter apresentado antes dessa exposição obras de Flávio Império (1935- 1985), Maurício Nogueira Lima (1930-1999) e Marcello Nitsche realizadas nos anos 60, contribuindo para uma contextualização da época, já que há uma série de lacunas na historiografia da arte brasileira e nas instituições nacionais sobre a década de 1960. As obras colocadas na atual exposição, algumas inéditas, pertencem a coleções particulares e é raro ver as produções desses artistas, desse contexto dos anos 60, que não sejam menção ao pop, ao happening, à "arte ambiental" - com obras como Helicóptero - no caso de Wesley Duke Lee; e à experiência de Fajardo, Resende, Baravelli e Nasser à frente da Escola Brasil, criada na década de 1970. Também a exposição no Maria Antonia não entra na história do Grupo Rex, formado entre 1966 e 67 por Duke Lee, Nelson Leirner, Geraldo de Barros, Resende, Fajardo e Frederico Nasser como reação ao mercado de arte.DO FIM AO COMEÇOO projeto de realizar a exposição sobre a "zona" de experiência dos quatro artistas no ateliê de Wesley Duke Lee, curiosamente, começou a ser pensado a partir do fim dessa história. Rafael Vogt Maia conta que, em 1968, cada um dos "discípulos" realizou um retrato a quatro mãos com o "mestre"."São pinturas do mesmo tamanho e no campo do retrato muito característico da obra do Wesley", diz o curador. "Era um processo de encerramento, uma espécie de suicídio assistido", completa. Essas obras emblemáticas não estão fisicamente na exposição, mas projetadas nas paredes.De antes desse encerramento simbólico, vê-se o cruzamento de conceitos e técnicas entre as obras dos artistas para além do aspecto formal. Interessante, também, estar nesses trabalhos a indicação do que os "discípulos" - com exceção de Nasser, que abandonou a carreira artística em 1973 - desenvolveriam depois, tornando-se criadores de destaque da arte brasileira. Luiz Paulo Baravelli problematiza o campo formal da pintura e o expande; Carlos Fajardo coloca o "elemento operativo", como diz Vogt Maia, em sua obra; e José Resende, escultor por excelência, passa da figuração para a fisicalidade, destacam os curadores.

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