Os projetos destinados ao fracasso

Última Noite, de James Salter, exibe o que está atrás da harmonia das relações afetivas: um universo de pequenas perversões

Paulo Schiller, O Estadao de S.Paulo

28 Setembro 2008 | 00h00

Última Noite é uma coleção de contos sobre a desesperança que permeia os desencontros amorosos, sobre o sentido inapreensível da vida, sobre os projetos destinados ao fracasso. A mesquinhez e a maldade não são ingredientes de histórias incomuns, mas o que existe de mais corriqueiro e familiar entre os homens e mulheres com quem dividimos bons vinhos em reuniões sociais descontraídas.Por trás de um semblante inocente, da exibição de harmonia e de cumplicidade, as relações afetivas escondem um universo inquieto de pequenas perversões. Os sorrisos e gracejos dos casais que demonstram serenidade e satisfação diante de amigos e parentes, em meio a talheres de prata, pratos sofisticados e antiguidades, não passam de máscaras que escondem os subterrâneos da intimidade atormentada pelo ciúme, pela inveja, pelo ressentimento e pelas traições. Obcecado pela palavra precisa, dono de uma prosa controlada e límpida, James Salter constrói, a partir de situações aparentemente banais, recortes sombrios da realidade cotidiana. Como ele diz, "Nada está seguro por mais de uma hora".Entre um parágrafo e outro, em meio a uma descrição ou um diálogo, a narrativa salta do presente para o passado, de uma situação a outra, sem anúncio ou transição, demandando, de um texto enganosamente simples, uma leitura concentrada. Os acontecimentos que preenchem os hiatos são deduzidos pelo leitor. Parece que Salter os considera inevitáveis, dispensam a necessidade do relato, embora sirvam em alguns momentos apenas para introduzir olhares conflitantes sobre uma mesma cena.O conto que empresta o nome ao livro é, certamente, o mais perturbador. Um requintado jantar de despedida reúne o marido, a mulher e uma amiga do casal. Encontram-se para uma despedida porque nessa noite o marido assumirá o papel de cúmplice e coadjuvante do suicídio programado da mulher. A verdade inesperada se revela no dia seguinte e a história não nos abandona mais, nos persegue por muito tempo denunciando a nossa identificação com o enredo de suspense que reúne crueldade e paixão.Entre os outros contos acompanhamos as reflexões de uma mulher que vive seus 20 últimos minutos de vida depois de ter sido pisoteada por um cavalo ou a disputa entre genro e sogro pela mesma amante. Diante de um livreiro que leva uma vida acomodada com a família reaparece uma antiga namorada, uma mulher sedutora que o convida para uma viagem exótica a três com uma amiga; em outra história, como muitas delas também em Nova York, uma jovem se diferencia das companheiras porque se debate com o câncer que a devora. No primeiro conto, cujo título, Akhnilo, não parece significar nada, um homem é convocado no meio da noite por um som misterioso e evanescente que promete uma revelação definitiva.Em Entregar, mais uma narrativa sobre os eternos triângulos amorosos, talvez tenhamos a síntese mais amarga da visão de Salter: "As pessoas viviam dizendo que tal coisa transformara sua vida, uma experiência ou um livro ou um homem, mas, para quem as conhecia antes, a transformação não tinha sido tão grande assim. Quem encontra uma pessoa muito atraente, mas não tão perfeita, pode até pensar que vai transformá-la depois do casamento, mas a verdade é que nos melhor dos casos você vai conseguir mudar uma coisa ou outra, e mesmo isso vai terminar voltando ao que era."Salter nasceu, com o sobrenome Horowitz que abandonou, em New Jersey em 1925. Aos 21 anos ingressou na Academia Militar de West Point. Como piloto de caça participou de mais de cem missões de combate na Guerra da Coréia. Depois da guerra, serviu a Força Aérea durante mais cinco anos, período em que começou a dedicar-se à ficção. Embora se veja diferente de Faulkner, que acordava de noite para escrever nas paredes, em 1957 Salter decidiu que ou se tornaria escritor ou morreria.No início dos anos 60 passou a escrever para o cinema. A nova carreira durou até 1977, quando Robert Redford lhe pediu que criasse um roteiro para um filme sobre alpinismo. Embora Salter tenha se dedicado ao esporte, praticando diversas escaladas no Colorado e nos Alpes franceses, Redford não gostou do resultado. Pelas mãos de um editor, o roteiro transformou-se no romance Solo Faces, admirado entre alpinistas e por Peter Mathiessen, que o considera seu melhor livro.Dusk and Other Stories valeu-lhe o importante prêmio PEN/Faulkner em 1989. Seus dois primeiros livros, The Hunters e Cassada, são novelas de suspense sobre pilotos de caça. O próprio Salter considera que Um Esporte e Um Passatempo, de 1967 (publicado aqui pela Imago), é seu primeiro livro aceitável, uma narrativa de todos os detalhes eróticos de uma história de amor. Oito anos depois aparece Light Years, relato da deterioração progressiva de um casamento que tem todos os requisitos ideais para ser feliz. Sempre distante da lista dos mais vendidos Salter, tido pela crítica como um escritor admirado especialmente por seus pares, tem um número expressivo de seguidores fiéis que cuidam de divulgar seus contos e romances como iguarias oferecidas para poucos. Paulo Schiller, psicanalista e tradutor, é autor de A Vertigem da Imortalidade (Cia. das Letras)

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