Os primeiros volumes

PRIMEIRA POESIA: O volume reúne três livros de poesia escritos por Borges entre 1923 e 1929. O primeiro, Fervor de Buenos Aires (1923), revela um devoto de Whitman vagando pela capital argentina e falando das ruas que são como suas entranhas ou de lugares silenciosos como o cemitério La Recoleta. O segundo, Lua Defronte (1925), é menos intimista. Borges quer ser moderno e, ao mesmo tempo, buscar sua identidade argentina, resgatando expressões do passado para anunciar o futuro. A cidade do primeiro livro é a cidade particular do escritor. No segundo, como ele mesmo admitiu, ela tem algo de ostentoso e público. Um dos poemas é dedicado a Montevidéu, definida como uma Buenos Aires do passado. Já o terceiro livro, Caderno San Martín (1929), é um ambicioso exercício que une o lírico e o intelectual. Nele, destaca-se A Noite em Que no Sul o Velaram, o primeiro poema autêntico de Borges. O livro faz uma elegia a Buenos Aires, de sua fundação "mítica" às transformações que sofreu, chegando a dois cemitérios, La Chacarita e La Recoleta, um plebeu e outro aristocrata, onde as cinzas dos defuntos são iguais.FICÇÕES: É o mais conhecido dos livros de Borges e um dos que ele considerava mais importantes em sua obra. Dividido em duas partes, O Jardim de Veredas Que se Bifurcam (1941) e Artifícios (1944), Ficções traz na primeira um conto policial que dá título a ela, além de contos fantásticos e notas sobre livros imaginários. Artifícios tem contos ainda mais ambiciosos, entre ele O Sul, o preferido do autor. Ele tem como personagem um homem que compra um exemplar de As Mil e Uma Noites, é acossado por visões, confundido com outro e, provocado, obrigado a participar de um duelo que acontece só na imaginação desse secretário de uma biblioteca municipal. O conto é uma parábola exemplar sobre a morte do herói, que correu o risco de morrer de septicemia num hospital. Gestos épicos e tradição eram obsessões de Borges. Nesse aspecto, o conto Tema do Traidor e Herói resume a combinação das duas identidades numa única, a de um conspirador num país oprimido e tenaz, um Judas que tanto é o doutor Jekyll como o senhor Hyde. Ficções é o mais delicioso jogo de um escritor de ilimitada imaginação.O LIVRO DOS SERES IMAGINÁRIOS: Mais que um bestiário, é uma enciclopédia de seres bizarros criados pelo espírito humano, de animais sonhados por escritores como Kafka e Poe a monstros marinhos, passando por entidades sobrenaturais e figuras do folclore religioso, como o golem. Borges aconselha o leitor a folhear o livro numa busca aleatória, como se faz com todas as miscelâneas de Robert Burton ou Fraser. Entre esses estranhos entes nascidos da fantasia humana, Borges parecia ter predileção por dois metafísicos, a estátua sensível de Condillac - uma peça de mármore com olfato apurado - e o animal hipotético de Lotze, que só tem um único ponto sensível e móvel na pele. Ambos tinham dificuldades de comunicação com o mundo externo, como Borges. A lição metafórica do centauro, animal de índole heterogênea, um homem com patas eqüínas, foi bem aproveitada por Pasolini no prólogo de Medéia, que recorre a Borges para mostrar como a barbárie do animal está amalgamada com o espírito intelectual do bicho, que foi professor de Aquiles.OUTRAS INQUISIÇÕES: Publicado há 55 anos, o livro é uma espécie de síntese de todas as inquietações de Borges, da leitura cabalística das escrituras ao enigmático nome de Deus, passando pelo suicídio e as razões de o imperador chinês Che Huang-ti ter sido o mesmo homem que construiu a muralha da China e mandou queimar todos os livros anteriores e ele, destruindo simbolicamente a história. O livro traz também ensaios sobre alguns dos autores preferidos do escritor argentino, entre eles Cervantes, Chesterton, H.G. Wells, Kafka, Oscar Wilde e Quevedo. Um dos ensaios mais complexos e desafiadores é o que fala de Pascal e sua filosofia. Borges tenta em vão procurar nas escrituras passagens que esclareçam seu pensamento filosófico. Conclui que não é a grandeza do Criador, mas da Criação, que toca Pascal. Outro ensaio irretocável é o que fala do gênero alegórico, anteriormente analisado por Chesterton, Croce e Schopenhauer. Borges divide os homens entre platônicos e aristotélicos, mas ele mesmo foi uma combinação dos dois.

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