Os poemas da militância política de Ferreira Gullar

É a poesia reunida em Romances de Cordel, escrita nos anos 60

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

01 de setembro de 2009 | 00h00

O poeta Ferreira Gullar não se preocupava com seus poemas de cordel até ser procurado por um professor universitário da Bahia. "Ele me garantiu que essa poesia não é datada, já é muito estudada nas universidades e, por isso, eu deveria publicar aqueles textos", disse Gullar que, cedendo ao apelo, organizou Romances de Cordel (96 páginas, R$ 37), que a José Olympio Editora envia hoje para as livrarias.Trata-se de quatro histórias escritas no início da década de 1960 quando Gullar, então no Rio de Janeiro, atuava no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). "O convite partiu de Oduvaldo Vianna Filho e os textos, claro, tinham um evidente fundo político", conta o poeta, justificando aí seu pequeno interesse por essa obra. "Escrevi durante meu período de militância política, com o propósito ideológico de levar conscientização às pessoas."Incentivado por Vianna, Gullar escreveu o primeiro da série, João Boa-Morte, Cabra Marcado pra Morrer, que deveria servir de narrativa para uma peça a ser escrita por Vianna sobre a reforma agrária. "A peça acabou não sendo realizada, mas o poema foi editado como folheto de feira, com capa desenhada pelo gravador Darel Valença."É a história de um lavrador que vive na Paraíba, nas terras de um coronel muito rico. Com muita dificuldade, ele tenta alimentar a mulher, seis filhos e um cão chamado Chico, mas é barrado pela ganância do patrão. A situação só muda quando Boa-Morte descobre a importância da consciência de classe: "Já vão todos compreendendo,/ como compreendeu João,/ que o camponês vencerá/ pela força da união./ Que é entrando para as Ligas/ que ele derrota o patrão,/ que o caminho da vitória/ está na revolução."Quem Matou Aparecida? segue o mesmo rastro de denúncia e foi escrito a partir de um roteiro recebido por Gullar. A trama acompanha a triste vida de Aparecida, moradora de uma favela carioca que, tomada pelo desespero de não conseguir enfrentar a fome e a pobreza, derrama álcool na roupa e se incendeia, acreditando ser essa a única forma de conseguir chamar atenção. "Quem ateou fogo às vestes/ dessa menina infeliz/ foi esse mundo sinistro/ que ela nem fez nem quis/ - que deve ser destruído/ pro povo viver feliz."As duas histórias seguintes têm grande apelo. Peleja de Zé Molesta com Tio Sam é uma gozação sobre o enfrentamento na viola entre um caçador nordestino, Zé Molesta, e a figura que melhor representa os Estados Unidos, Tio Sam. A disputa acontece na sede da ONU. O bom humor é a arma utilizada na crítica ao protecionismo que desfavorece os países pobres. Já História de Um Valente foi escrito por solicitação do Partido Comunista Brasileiro e narra a prisão de Gregório Bezerra, comunista detido no Recife na época do golpe militar em 1964. "Por medida de precaução, já que a repressão se intensificava a cada dia, assinei o poema com o pseudônimo de José Salgueiro, o que levou muita gente a acreditar que se tratava de um poeta nordestino, daqueles típicos de feira de cordel, a ser o autor do texto."Gullar, que participa na quinta-feira de uma discussão sobre a obra de Fernando Pessoa no Sesc Pinheiros, contou com a vivência no Nordeste para escrever os poemas de cordel. "Foi muito útil minha experiência com o verso rimado e a métrica que aprendi quando garoto no Maranhão", conta ele, também satisfeito com as belas xilogravuras de Ciro Fernandes que ilustram Romances de Cordel. O lançamento deste livro vai retardar até o próximo ano a chegada de Em Alguma Parte Alguma, obra com poemas inéditos que finalmente ficou pronta. "Depois que escrevi o último verso, o livro declarou-se pronto. E a decisão é sempre dele."

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