Os olhares cruzados de Amos Gitai

Kiarostami Ciclo propõe diálogo sobre a obra dos dois autores que filmam o Oriente Médio

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2009 | 00h00

Amos Gitai terá seu novo filme, Carmel, exibido na mostra Masters (Mestres) do próximo Festival de Toronto, em setembro. O próprio autor israelense anuncia a novidade para o repórter, numa entrevista por telefone. Ele está em Haifa, cidade em que nasceu, preparando-se para viajar. Depois de Toronto, tem convite para apresentar Carmel no Festival do Rio. Gitai também tem forte ligação afetiva com a Mostra de São Paulo, que já o trouxe diversas vezes ao País. A partir de hoje, filmes raros do diretor integram uma programação especial que começa na Caixa Cultural.Na verdade, trata-se de um diálogo entre as obras de dois autores que veem no cinema uma forma de intervenção no mundo. "Filmes não servem somente para divertir; são também para reflexão", adverte Gitai. O evento O Cinema Além-Muros propõe um diálogo entre os filmes de Gitai e os do iraniano Abbas Kiarostami, outro amigo da Mostra de São Paulo. Gitai não apenas considera esse diálogo possível, como espera que o público o faça. Ele próprio escreveu um texto para o catálogo da mostra. "Creio que existem, sim, muitos pontos de contato entre o que Abbas e eu propomos. Se não acreditássemos na força de conscientização do cinema, talvez não seríamos os autores que somos. E ambos sabemos que o cinema, para ser político, precisa desenvolver uma estética que sustente essa proposta. Nossas obras dialogam entre si, mas também são diálogos entre estética e política."Como os cineastas iranianos estão sustentando a revolta do povo de seu país? Há algum tempo, logo após o polêmico resultado eleitoral que confirmou o presidente Mahmoud Ahmadinejad no poder, dois dos mais importantes cineastas iranianos, Mohsen Makhmalbaf e Marjane Satrapi, Abbas Kiarostami deu uma entrevista na imprensa norte-americana que o Estado reproduziu. Kiarostami criticou a manipulação do resultado das eleições e investiu contra a censura, considerando inadmissível que o cinema iraniano tenha de filmar, mesmo em cenas íntimas ou domésticas, as mulheres com burcas. "Isso é irreal", bradou Kiarostami. Em junho, perante o Parlamento Europeu - ao qual haviam sido convidados por Daniel Cohn-Bendit -, Makhmalbaf e Marjane apelaram à comunidade internacional que não reconhecesse a reeleição de Ahmadinejad. "O que houve no Irã não foi uma fraude, um golpe de Estado", sustentou a autora de Persépolis, que chegou a apresentar ao Parlamento documento interno do Ministério do Interior do Irã, reconhecendo a vitória acachapante de Mir Houssein Moussavi - 19 milhões de votos ante 5,7 milhões atribuídos ao presidente. Esses números foram depois maquiados para dar a vitória a Ahmadinejad, que recebeu o imediato aval da maior autoridade religiosa o Irã, o aiatolá Ali Khamenei.Kiarostami filmava, naquele momento, na Toscana, com Juliette Binoche - Copie Conforme -, mas fez saber ao Parlamento Europeu que estava solidário com as denúncias de Makhmalbaf e Marjane. O cinema além-muros. Nem os autores iranianos citados nem Amos Gitai são unanimidades nos respectivos países. Não é fácil fazer oposição em países nos quais o fundamentalismo religioso é dominante. O espectador da Mostra de São Paulo e, mesmo, do circuito comercial, conhece bastante o cinema de Gitai, por meio de filmes como Kadosh, Kippur, Kedma. Os filmes que agora serão exibidos nunca foram distribuídos no Brasil. Abordam diretamente o conflito árabe-israelense e sua inserção no cotidiano das pessoas comuns.Em Wadi (1981), Gitai iniciou o que terminou virando uma trilogia. Naquele momento, ele dirigiu sua câmera para a região, próxima a Haifa, em que convivem judeus sobreviventes dos campos de concentração na Europa e árabes expulsos de suas terras em 1948, quando surgiu o Estado de Israel. Gitai colheu depoimentos emocionantes. Resolveu que, a cada dez anos, voltaria a Wadi para retomar o contato com aquelas pessoas. Em Wadi Grand Canyon, de 2001, outro programa do ciclo, ele revela o que mudou na vida dos imigrantes que habitam o que define como ?coração do infinito conflito que é o Oriente Médio?. Algumas dessas pessoas se casaram, formaram duplas, apesar de suas diferenças, separaram-se. "O ambiente assemelha-se a uma favela", define Gatai. "O cenário é de destruição e abandono."Ambos os filmes provocaram discussões acirradas em Israel, mas não foram muito vistos, admite o diretor. "Os assuntos abordados desagradam a muita gente." Gitai está cheio de expectativa face às recentes pressões do presidente Barack Obama pela reinserção dos palestinos nas negociações (e territórios) no Oriente Médio. Mas ele sabe que, assim como Obama pressiona, judeus ortodoxos também protestam e chegam a chamar o presidente norte-americano de ?racista? e ?antissemita?. "É um processo complicado, que um dia terá de ser encarado, sob pena de permanecermos num impasse sem fim."Se os filmes de Gitai são inéditos, os de Kiarostami na mostra Cinema Além-Muros são divididos. Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, de 1987, Close-Up, de 1990, e Dez, de 2002, são conhecidos dos cinéfilos brasileiros. Outros programas do diretor também nunca foram distribuídos aqui. São curtas do começo de sua carreira, como O Pão e o Beco, de 1970; médias como Traje de Casamento, de 1976. Ao contrário de Gitai, com sua estética provocadoramente política, Kiarostami trabalha com situações aparentemente banais e cotidianas, que chegaram a lhe valer a definição de cineasta apolítico. Não é verdade. Na entrevista que saiu no Estado, refletindo sobre seu país e seu cinema, Kiarostami disse - "O que temos dentro de nós, dor e tristeza, é universal." Para discutir os dois autores e seus filmes, realiza-se, dia 3, um debate entre a crítica Ivonete Pinto, autora do livro Descobrindo o Irã e especialista em Kiarostami - tema de sua tese de doutorado na USP -, e o jornalista Pedro Dória, editor chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado. ServiçoO Cinema Além-Muros. Hoje, 17 h, Arena da Morte, de Amos Gitai; 19 h, O Pão e o Beco & Experiência, de Abbas Kiarostami. Amanhã, 17 h, Close-Up, de Abbas Kiarostami; 19 h, A Casa, de Amos Gitai. Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, Centro, telefone 3321-4400. De 3.ª a dom., às 17 e 19 horas. R$ 4. Até 6/9

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