Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Os museus no pós-pandemia

No futuro, como será retratada a crise de saúde pública que já dura mais de um ano?

Sabrina Gabriela, Especial para o Estadão

07 de julho de 2021 | 20h00

Embora a pandemia da covid-19 tenha afetado todos os setores da economia, alguns ramos sofreram mais do que outros. Um dos setores mais impactados pela atual crise de saúde pública foi o da arte, com foco especial para os museus. Mas, mesmo com todos os problemas trazidos pelo coronavírus, artistas e museus pelo mundo não deixaram de trabalhar, fazendo com que nos perguntemos o que a arte tem guardado para os tempos pós-pandemia.

O prejuízo econômico foi enorme. Sozinho, o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, projeta suas perdas na casa dos 150 milhões de dólares (equivalente a R$ 785 milhões). O Louvre, maior museu do mundo e lar da Mona Lisa, anunciou um rombo de 110 milhões de dólares (cerca de R$ 575 milhões). 



Como resultado da crise, os museus tiveram de ser criativos para suavizar a situação financeira. Alguns optaram pela venda de obras de arte como forma de se sustentar. Outros, como a mansão de Elvis Presley, escolheram oferecer tours virtuais por algumas dezenas ou centenas de dólares. Já o Louvre leiloou um encontro pessoal com a obra-prima de Leonardo Da Vinci por quase 100 mil dólares.

Esse, aliás, foi um impacto positivo da pandemia no mundo da arte. De acordo com a diretoria do Conselho Federal de Museologia, a necessidade de compensar a escassez de visitantes resultou no crescimento da produção de conteúdos digitais que dinamizaram as páginas dos museus e a visitação online e obrigaram os profissionais a dominarem outras linguagens de comunicação. Segundo a entidade, a experiência contribuirá também para que o cenário museal seja no futuro mais empático, pró-ativo na construção de soluções para abarcar a diversidade e interagir de forma mais ativa com seus diferentes públicos.

Enquanto alguns museus lutavam para sobreviver, outros estavam em plena ascensão. O Covid Art Museum, criado no começo de 2020, reúne em uma página do Instagram fotografias, ilustrações e montagens criadas durante a pandemia. Com mais de 860 publicações e 170 mil seguidores, o museu serve como lembrete de que, mesmo nos mais difíceis tempos, a arte não deixa de existir - seja para retratar, embelezar ou criticar a forma como o mundo está.



Fora do universo virtual, museus se esforçam para decidir como irão apresentar a pandemia aos visitantes no futuro. Em maio do ano passado, alguns deles já começavam a requisitar itens da população geral que possam ajudar a representar os anos de 2020 e 2021. A ideia é criar exibições baseadas nos testemunhos reais de pessoas que viveram durante esse período.

"É muito importante que coletemos artefatos desse período. Quando olho as fotografias e máscaras guardadas na época da epidemia de gripe espanhola de 1918, penso que gostaria que mais itens tivessem sido guardados", relata Sarah Rogers, diretora do Museu da Universidade de Kent, na Inglaterra. "É essencial que os museus consigam contar essa história às gerações futuras."

Assim, equipamentos de proteção pessoal, máscaras, fotos e até mesmo histórias contadas oralmente têm sido recolhidos por museus espalhados pelo mundo. Embora possam parecer comuns agora, itens como protetores faciais e oxímetros serão, no futuro próximo, objetos do passado. E, nessa condição, cabe aos museus preservá-los. Um exemplo icônico de memórias que podem ser exibidas no futuro são os retratos feitos de pontos turísticos famosíssimos completamente vazios em decorrência da implementação de quarentenas por todo o planeta.

Seja como for, a história está sendo feita em frente aos nossos olhos. Da mesma forma que, hoje, visitamos museus com alas dedicadas aos anos das grandes guerras ou de ditaduras, no futuro, haverá seções exclusivas para os anos pandêmicos. É uma consequência de se estar vivendo em tempos certamente históricos para a humanidade.

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