Os múltiplos sentimentos femininos, segundo Agualusa

Em Aquela Mulher, Marília Gabriela revê o feminismo com veemência e sedução

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

Marília Gabriela tem uma persona sólida na TV, sobretudo como jornalista, mas o seu tipo de talento e beleza - algo realmente diferente - se espraiam por outros campos. Presença forte a ponto de quase soar meio estranho um espetáculo dela nomeado Aquela Mulher, na terceira pessoa. O que existe é um concerto dramático e cômico "desta mulher" Marília que parece saída do poema Jandira de Murilo Mendes. Basta conferir com alguns versos: "Surgiram os cabelos para cobrir o corpo/ (Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos)./ E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo./ E surgiram sereias da garganta de Jandira:/ O ar inteirinho ficou rodeado de sons/ Mais palpáveis do que pássaros./ E as antenas das mãos de Jandira/ Captavam objetos animados, inanimados./Dominavam a rosa, o peixe, a máquina."Foi para "esta mulher" que José Eduardo Agualusa escreveu o texto. O dramaturgo é de Angola, filho da elite branca do país africano de língua portuguesa que nossa indiferença mantém semi-invisível (mas Chico Buarque esteve lá e compôs Morena d?Angola). O escritor ama sua terra em romances (Estação das Chuvas, Nação Crioula) ou em críticas que incomodaram as tais elites brancas e, depois, as negras, surgidas com a independência de Portugal, o que lhe custou alguns problemas. Aí, atravessou o mar e veio conhecer o Brasil, instalando-se uns tempos em Olinda e no Rio (cenário do seu O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio). Nesse vaivém - via Lisboa - nasceu o espetáculo.Do que se trata, afinal? Nem de Marília Gabriela especificamente, nem de Angola/Portugal/Brasil, mas de múltiplos sentimentos femininos. Se não basta como definição, diga-se que mostra uma pessoa - personagem reivindicando o poder/ poderes habitualmente de domínio masculino. Mas não é um discurso à la Gloria Steinem, a bela e controversa feminista norte-americana dos anos 60. Gabriela age diferente, numa ação pendular que vai do trágico ao melodramático, dos estereótipos mitológicos às mulheres reais que entendem de poder. Há variações no enredo enxuto: dor pelo abandono, reação à prepotência masculina, fantasias e um certo delírio divertido. Tudo com punhado de sal ou gota de perfume para se criar uma mulher que poderia ter, eventualmente, o maior cargo do mundo, seja qual for.O tema não é completamente estranho à obra de Agualusa, autor de As Mulheres do Meu Pai, título bem eloquente, mas nessa incursão teatral ele está um tanto aquém do seu voo romanesco. Vale como experimento literário e abertura para Marília ser simultaneamente Lilith, o lado misterioso e rebelde de Eva, Modesty Blaise, dona de casa sofredora, e - sempre - Marília Gabriela, não em sua intimidade, mas a mulher das entrevistas, telenovelas, a cantora e atriz de teatro. Há dois tropeços no bom gosto na descrição do que um homem faria com uma sereia e um ???"viado" jogado, assim, só para provocar. Tiradas que não fariam nenhuma falta se deixassem de existir.A encenação de Antonio Fagundes tem a agilidade, rapidez, a quase pressa que ele impõe aos seus desempenhos. A ação se faz em ritmo de um flash ao contrário (segundos de escuro, black outs entre as cenas). Esta linha de representação exige preparo físico, boa respiração da intérprete, e aqui Marília é uma bela surpresa entre a ginasta e a dançarina. Porque seu potencial dramático em teatro é conhecido. O jogo de mãos, o rosto anguloso, a altura fazem pensar numa versão platinum de Ângela Davis, a ativista negra norte-americana que já foi um pôster ao redor do mundo. Não seria politicamente correto, mas se o afro-luso-brasileiro Agualusa quisesse, Marília a faria bem. Mas, por enquanto, ela é Aquela Mulher, o que é interessante, ocasionalmente confuso (o público vacila no final pois não se sabe se a peça acabou) e sério/engraçado em sua inteligente energia. ServiçoAquela Mulher. 60 min. 14 anos. Teatro Jaraguá. R. Martins Fontes, 71, 3255-4380. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 50. Até 22/2

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