Os livros que tratam de temas delicados

Alcoolismo e suicídio são temas que os autores infanto-juvenis já não evitam

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

O escritor Ignácio de Loyola Brandão lembra que, menino, foi mandado certa vez para fora da sala onde os adultos conversavam. "Tem gente descalça", justificavam eles, que comentavam sobre uma vizinha que se matara com formicida. "Perguntei à minha madrinha: ?Por que as pessoas se matam?? Não obtive resposta e durante anos o suicídio foi uma coisa que me deixou muito grilado, perplexo, me traumatizava, provocava medo", observa o cronista do Caderno 2.

Hoje em dia, além de uma boa conversa, o jovem Loyola teria à disposição o livro Os 13 Porquês, em que Jay Asher oferece uma abordagem delicada de um assunto recorrente em diversos países: o suicídio na adolescência. A obra é uma das várias opções oferecidas pelas editoras de literatura infantil e infanto-juvenil que tratam de temas tabus, mas com a ??delicadeza e cuidado necessários. Uma aposta crescente e bem-vinda. Os 13 Porquês, por exemplo, integra uma nova coleção da Ática, a Série Z, iniciada com Dizem Que Sou Louco, de George Harrar, uma surpreendente história sobre Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso T.O.C., que atinge de 2% a 4% da população mundial. Além disso, nas prateleiras de livrarias é possível encontrar livros que tratam de câncer, alcoolismo paterno, homossexualismo, morte, mal de Alzheimer, deficiência física, entre outros.

"A ficção é, muitas vezes, a melhor forma para se iniciar uma discussão importante", afirma Asher, em entrevista ao Estado. "Acredito que as crianças podem ser educadas e entretidas por histórias boas, engraçadas e interessantes", completa Harrar. Experiências pessoais, muitas vezes, representam o ponto de partida. Harrar conta que, na escola, era um aluno que sempre contava as madeiras de uma cerca além de testar a memória, passando constantemente o horário das aulas. "Assim, pude escrever sob a perspectiva de Devon, o personagem de Dizem Que Sou Louco, que come tudo de quatro em quatro (quatro minicenouras, quatro wafers, quatro M&M?s de cores diferentes) e é obcecado por limpeza e organização."

O importante, acredita Jay Asher, é tratar de um assunto que, de alguma forma, possa atingir o adolescente. Quando uma jovem de sua família tentou o suicídio para aplacar a angústia, ele percebeu que o tema não era uma exceção. Durante nove anos, fez pesquisas, especialmente conversando com a jovem, até iniciar a escrita definitiva. "Meu único receio era falhar na escrita, que sempre deve ser muito cuidadosa", disse Asher, que escolheu o número 13 por ser um algarismo que simboliza o azar.

Se a Ática inicia agora sua coleção, a SM mantém a série Estado de Alerta desde 2006. Os temas são pesados - em Se Até as Árvores Morrem, a argelina Jeanne Benameur trata da morte paterna, enquanto em As Duas Mães de Mila, a argentina Clara Vidal mostra a violência materna. O mais polêmico talvez seja Pula-Elástico, do croata Zoran Pongrasic, sobre uma menina que se recupera de câncer. O livro inspirou a Cia. O Grito a montar a peça infanto-juvenil O Armário Mágico, em cartaz no teatro Martins Pena.

Por enquanto, a quantidade de livros escritos por estrangeiros é maior. Em O Pato, a Morte e a Tulipa (Cosac Naify), por exemplo, o alemão Wolf Erlbruch trata da finitude da vida de forma poética, enquanto em Pequenos Contos para Crescer (Companhia das Letrinhas), a búlgara Albena Ivanovitch-Lair e o francês Mario Urbanet preferem o humor, com a história da velhinha que engana a morte.

Assuntos mais delicados, porém, obrigam os autores a buscar subterfúgios. Em O Cachecol Que Sempre Ficava Mais Comprido (Scipione), os alemães Bettina Göschl e Klaus-Peter Wolf narram o drama do menino que se surpreende com a súbita transformação do pai, de homem divertido para impaciente - o problema do alcoolismo é apresentado metaforicamente, na figura de um cachecol que, quanto mais comprido, mais enrola e transforma o pai.

Já Camila, a bela menina de Vovó Tem Alzha... o Quê? (FTD), da belga Véronique Van den Abeele, demora para entender a transformação de sua avó que, ativa e brincalhona, transforma-se em uma mulher reclusa e de gestos engraçados, como guardar os sapatos na geladeira. Mesmo sem entender o que é o mal de Alzheimer, Camila decide fazer o bolo antes preparado pela avó e levar para ela, na clínica onde agora vive.

"Quem quer escrever e ser bem aceito por jovens deve olhar o enredo a partir da visada de quem lerá a história, não a partir do próprio ponto de vista adulto de quem escreve", comenta um campeão de vendas, o escritor paulista Pedro Bandeira, que, em uma obra que ultrapassa os 80 livros, já tratou do suicídio (A Marca de Uma Lágrima), além da separação dos pais, adolescentes apaixonadas pelo próprio professor, personagem que se masturba, menstruação, pelos pubianos, excitação rígida masculina, excitação úmida feminina. "Claro que tudo isso com o maior carinho, com a maior dose de compreensão pelo momento do leitor, mostrando que na normalidade não há razão para escândalo."

Bandeira prega que o leitor, qualquer que seja a idade, odeia ver os próprios sentimentos criticados em um texto. É o que explica o sucesso de um pioneiro entre os autores nacionais, Wander Piroli, que publicou O Menino e o Pinto do Menino (Moderna) em 1975. "Ele falava das crianças que moram em apartamento e não sabem o que fazer com bichos de estimação", lembra Ignácio de Loyola Brandão, cujo O Menino Que Não Teve Medo do Medo (Global) trata justamente dos temores infantis.

Nem todos, porém, apoiam. "O escritor não tem responsabilidade de educar a criança", acredita Ziraldo. "Isso é tarefa para os pais, a escola e o Estado."

OUTRAS LEITURAS

VOVÔ AGORA É CAVALEIRO, de Dagmar H. Mueller (Scipione): O avô de Jonas vive como se vestisse uma armadura pesada: tem mal de Parkinson.

MEUS PÉS SÃO A CADEIRA DE RODAS, de Franz-Joseph Huainnigg (Scipione): Maria usa cadeira de rodas e se incomoda quando tentam ajudá-la com coisas que ela consegue fazer sozinha.

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