REUTERS/Henry Nicholls
REUTERS/Henry Nicholls

Os leilões reformulados da Sotheby’s e Christie’s dão bons resultados

As duas maiores casas de leilão estão investindo no digital e reorganizando as categorias e horários das vendas, em parte para atrair um público global

Scott Reyburn, The New York Times

06 de julho de 2021 | 10h00

O que era um evento noturno, agora é à tarde. Degas e Van Gogh agora são modernistas do século 20. Os preços com vários zeros são raros.

Esta nova realidade ficou nítida durante os leilões via streaming de arte moderna e contemporânea da Sotheby’s e Christie’s, em uma Londres pós-Brexit, e que este ano tiveram início às 14h de terça e quarta-feira, para ter certeza que os ricos interessados da Ásia estivessem acordados.

“Vivemos num mundo mais global do que nunca”, disse Melanie Clore, cofundadora da empresa de assessoria de arte Clore Wyndham, com sede em Londres.

“Observamos um enorme crescimento em Hong Kong”, disse Clore que já presidiu o departamento de arte moderna e impressionista da Sotheby's em Londres. “Há uma nova onda de jovens asiáticos que têm muito dinheiro disponível. E os gostos mudaram”.



Na terça-feira, o leilão em duas partes, via streaming, de obras de arte moderna e contemporânea internacionais e britânicas, em Londres, arrecadou o valor, com as taxas, de 215 milhões de dólares, com 21 lotes. Com a inclusão de obras de arte britânicas, isto representou um decréscimo de 11% da receita total de vendas equivalentes feitas antes da pandemia, de arte internacional e britânica em junho de 2019.

As categorias de obras nas duas casas de leilão passaram por uma profunda mudança em Londres. No verão passado, com a pandemia sufocando a demanda e a oferta e a arte do século 19 ficando fora de moda, a Christie’s e a Sotheby’s abandonaram suas vendas tradicionais separadas de arte impressionista, moderna e contemporânea e fizeram experimentos com leilões em parte ao vivo e em parte on-line fundindo material dos séculos 20 e 21, de modo a se adaptarem ao gosto de colecionadores internacionais mais jovens.

As duas casas de leilão não mais oferecem seleções especializadas de arte impressionista de grandes nomes em Londres. Obras importantes do final do século 19, como pinturas de Degas ou Van Gogh, ainda são incluídas nos leilões de material dos séculos 20 e 21, se forem de valor alto o bastante. Na semana passada, por exemplo, a Sotheby's leiloou um pastel de Degas de 1883, de uma mulher no banho, por 3,7 milhões de dólares e a Christie' s leiloou uma pintura de Van Gogh de 1885 por 1,2 milhão de dólares. A Philips não realizou nenhum leilão de arte importante em Londres em junho, focada nas vendas inaugurais na sua nova sede em Nova York.

“Londres está em baixa”, disse Christine Bourron, CEO da Pi-eX, empresa de pesquisa londrina que monitora o desempenho dos leilões internacionais de arte. “A cidade precisa se reinventar. O Brexit vem tornando os negócios mais difíceis”.

Agregados ao da Sotheby’s, os leilões da Christie's e da Philips em Londres levantaram 1,2 bilhão de dólares no primeiro semestre de 2021 segundo dados da Pi-eX, comparado com o valor de 1,5 bilhão de dólares arrecadado no mesmo período em 2019. Vendas em leilão equivalentes em Hong Kong aumentaram de 892 milhões de dólares para cerca de 1,3 bilhão de dólares. As vendas no primeiro semestre de 2021 em Paris totalizaram 409 milhões de dólares, um aumento expressivo comparado com os 229 milhões de dólares em 2019.

No momento é difícil distinguir os efeitos da pandemia e do Brexit sobre o mercado de arte britânico. Mas está claro que as casas de leilões com sedes em Londres já vêm se reinventando, apresentando novos formatos de vendas e também olhando para o futuro. A Sotheby 's está abrindo uma nova sede em Colônia, na Alemanha, e transferindo seu chefe de arte contemporânea baseado em Londres, Alex Branczik, para Hong Kong. Os leilões de arte dos séculos 20 e 21 via streaming da Christie's agora rotineiramente são realizados junto com os de Paris.



As históricas salas de leilão das duas casas agora foram transformadas em estúdios de TV para as vendas via streaming, deixando espaço limitado para um pequeno público convidado. Os leilões de arte digitais têm por fim vender para clientes globais e Londres se tornou eficiente nisso, ajudada em parte por preços mínimos garantidos para os vendedores e uma posição favorável no tocante aos fusos horários internacionais.

“Londres é um local onde todos se sentem confortáveis num leilão global”, disse Bourron. “Nova York é complicada para os colecionadores asiáticos e Hong Kong para os americanos”.

O Lote Número 1 na Sotheby's deu o tom do leilão. “I’m pirouetting the night away”, uma pintura abstrata num azul e laranja brilhantes do jovem pintor britânico Jadé Fadoujutimi, de 2019, atraiu múltiplos lances de Hong Kong antes de ser vendida por 553 mil dólares, quatro vezes o preço estimado de pré-venda.

A Sotheby's aumentou seus lucros no evento com uma venda de arte moderna e contemporânea britânica, que também se beneficiou com a exposição a um público on-line internacional, adicionando 66 milhões de dólares ao total das vendas.

Na quarta-feira, o Lote 51 da Christie's, via streaming, de arte do século 20 e 21, em Londres, foi visto pelos especialistas como mais vantajoso do que o da Sotheby's. Seu total de 164 milhões de dólares representou uma melhora de 46% sobre as vendas de arte impressionista, moderna e contemporânea em junho de 2019.

O leilão em Londres foi imediatamente acompanhado por mais 40 lotes em Paris, com Grã-Bretanha e França combinando para formar uma improvável dupla dinâmica pós-Brexit. As vendas em Paris foram encabeçadas por 24 peças da coleção de obras do século 20 adquiridas pelo empresário francês Francis Gross, falecido em 1992.

O lote consistiu principalmente de obras relativamente menores de grandes artistas - mas incluiu uma pintura de René Magritte de 1936 intitulada La Vengeance, obra jamais oferecida em leilão e que foi vendida por 14,6 milhões de euros ou 17,3 milhões de dólares, o preço mais alto alcançado por uma pintura neste ano na França, segundo a Christie’s.

No total, as receitas contabilizadas em Paris representaram menos do que a metade do total obtido com as vendas da Christie's em Londres, mostrando que Paris ainda vai levar algum tempo para substituir Londres como capital do mercado de arte da Europa no pós-Brexit.

“Paris tem tentado se tornar o centro do mercado de arte europeu, mas os leilões são melhores em Londres”, disse Marco Voena, cofundador da Robilant + Voena, negociante de arte com espaços em Londres, Milão, Nova York e Paris. “As pessoas estão confiantes em Londres, apesar de ali haver grandes problemas. É a tradição”.


 TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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