Os juros do otimismo

O governo nem precisa ser tão otimista: a mídia e a população se encarregam disso por ele. Já é voz corrente, por exemplo, que na atual crise financeira o Brasil tem vantagens relativas e deve sair mais forte; em 2010 voltaremos ao ritmo de crescimento "normal", se não for melhor ainda. Com uma opinião pública assim, Lula nem precisa ser tão politicamente esperto como é para reverter a história da "marolinha", lembrando que o Brasil cresce enquanto o mundo está estagnado e corrigindo a imagem de Dilma para a sucessão. A maioria dos brasileiros concorda com ele e acredita no país do futuro. Andar com a fé eu vou, que a fé não costuma falhar...O curioso é que aquilo que identificam como nossa vantagem na crise mundial deriva muito mais das deficiências que dos atributos. Como nosso sistema financeiro chega à minoria dos trabalhadores, não temos problemas de crédito como os do "subprime", a hipoteca imobiliária americana que foi alavancada até se perder de vista. E como nossos bancos operam com os juros reais mais altos do mundo, cobrando até 14% ao mês em cartões e cheques, sua saúde é saudada como acerto da política econômica. Nem os mais ardorosos, porém, conseguem ocultar o fato de que a economia brasileira, cujas exportações são excessivamente dependentes das commodities (soja, aço, etc.), perde muito quando o comércio internacional decai como decaiu agora.O discurso oficial vinha sendo o contrário. Segundo as autoridades, o mercado interno é tão forte, baseado no aumento da renda sobretudo da classe C, que não haveria transtornos maiores. As coisas vinham tão bem que até dispensavam reformas como a política, a tributária e a trabalhista. O desenvolvimento sustentável com crescimento anual do PIB acima de 5% daria conta naturalmente das nossas desigualdades sociais, bastando apenas um pouco de "vontade política", o que significa fazer aliança com Sarney e outros próceres da República. Modelo tucano com ênfase social - pronto, estamos quase lá. Quem discorda é porque torce contra o Brasil.Lembra o anúncio de que a classe média agora era maioria no Brasil? Os números não mentem: 51% das rendas mensais estariam acima de R$ 1 mil. Em edição recente, a revista The Economist fez um dossiê sobre o aumento da classe média no planeta todo graças a economias emergentes como China e Índia, que mesmo neste sombrio 2009 devem crescer acima de 5% (ou cinco vezes mais que o Brasil), e partiu do exemplo das Casas Bahia na favela Paraisópolis em São Paulo. Lembrou que o conceito é difuso e que comparar rendas é difícil, mas usou o padrão de US$ 15 por dia, o que dá mais ou menos o critério brasileiro. Acontece que o Brasil fala em renda domiciliar, e o Banco Mundial em renda per capita. Uma família que viva com R$ 1 mil está aquém da ideia de classe média como aquela capaz de gastar o excedente em casa própria, carro e viagens.A classe média brasileira ainda é tímida, não por causa de crises causadas pela ganância do Primeiro Mundo, mas por causa da burrice e incompetência autóctones. O pai de família que ganha de R$ 1 mil a R$ 5 mil, digamos, paga um terço disso em impostos e mais um terço em serviços como educação de qualidade. O terço que sobra, consome em alimentação, roupa e lazer, em geral ficando endividado. Não tem como poupar e fazer algum plano a longo prazo. Como boa parcela da sociedade vive no mundo informal, os servidores têm privilégios como aposentadoria integral e os crápulas da "zelite" sonegam seus castelos e fazendas, temos que os profissionais liberais, os comerciantes, os professores e todos que historicamente representam a classe média pagam um preço altíssimo pelo "crapitalismo" nacional.Essa classe média, por definição, tem opiniões mais liberais sobre temas morais e o papel do Estado, mas de um modo mais genérico que genuíno, como os votos a Maluf e Collor tanto demonstraram. Sobre segurança, um tema que lhe é caríssimo, ela se divide entre opiniões como o aval à truculência da polícia, fazendo do Capitão Nascimento um herói, e o complexo de culpa que cineastas e jornalistas supostamente antiburgueses querem "sensibilizar". E há a hipocrisia quase onipresente, em especial na questão ética, da qual me bastarei com um exemplo prosaico: um enfermeiro de um excelente laboratório de São Paulo me contou, nesta semana, que não há dia em que não precise colocar pilhas no controle remoto da TV do quarto de espera dos pacientes. Os abonados que frequentam o local simplesmente as levam para casa.O fato é que, mesmo assim, sem classe média não se pode falar em capitalismo democrático, nem aqui nem na China. Só com o ingresso mais acelerado e consistente das classes baixas à média é que essa mentalidade pode avançar. Isso, claro, não se faz apenas com assistência social e marchinhas contra a corrupção; educação crítica e mudanças estruturais servem tanto para vencer crises como para formar nações. Futuro não é um prêmio que o destino nos reserva porque Deus é brasileiro ou porque supomos ser menos racistas e tristes, mas algo a ser construído por indivíduos com senso coletivo. Otimismo desobrigado de ação não passa de ingenuidade.CADERNOS DO CINEMAMilk, de Gus Van Sant, é mais um filme de ator, não porque a história não seja boa, mas porque o tratamento é convencional, hollywoodiano. Sean Penn impressiona não só pela transformação física, pela maneira como achou a medida da afetação (não caricaturiza nem esconde), mas pela variedade de sentimentos que é capaz de expressar dentro dessa moldura. O filme se apoia espertamente na maneira como o ativista gay decidiu fazer política, usando conceitos genéricos como os da Constituição e, no entanto, insistindo em dar os nomes às coisas, em sair do armário - sem ceder à conversa moderadora do "precisamos dos votos deles" nem cair em radicalismo. Mas é uma personagem sem defeitos, e nos pomos ao seu lado desde o início; não há contrapontos senão reacionários ao que ele diz. Além disso, os clichês como o final "operístico" perpassam a narrativa. Submetido a agendas de novo, o cinema atual desaprendeu o que é criar um drama, o que é fazer a arte ir além de argumentos unilaterais.RODAPÉ (1)O Problema da Incredulidade no Século 16 - A Religião de Rabelais (Companhia das Letras, trad. Maria Lúcia Machado) é um livro muito interessante de Lucien Febvre, um dos historiadores da revista francesa Annales, que propôs uma historiografia mais do cotidiano, dos costumes e da mentalidade do que dos grandes esquemas classificatórios e lineares. Febvre, nesse livro, examina o período de Rabelais tentando um olhar menos anacrônico, que não lê as questões pelo prisma do que viria depois. Assim, com farto detalhamento, ele mostra que a sátira anticlerical de Rabelais não deve ser necessariamente encarada como um capítulo na história do pensamento ateu ou agnóstico. Por meio de outros autores da época, deixa claro que Rabelais falava do ponto de vista de alguém que acredita em força sobrenatural e em vida pós-morte. Febvre também não deixa de cometer um anacronismo, porque obviamente a linhagem antidogmática que teria Voltaire, por exemplo, certamente se inspira nessas primeiras dissonâncias. Mas a leitura é fascinante.RODAPÉ (2)Outro trabalho interessante sobre desafios à moral vigente é Da Neurologia à Psicanálise, de Lynn Gamwell e Mark Solms (Iluminuras, org. Jassanan Amoroso Dias Pastore), que reúne os desenhos neurológicos e os diagramas da mente feitos por Freud ao longo de sua carreira. O livro serve para lembrar não só que Freud começou como neurologista, mas também que nunca abandonou a idéia de que o estudo da mente passa pela ciência, pela análise experimental - e hoje certamente se divertiria bastante com as tomografias por emissão de pósitron, que escaneiam a atividade cerebral momento a momento. Além disso, o livro faz pensar nos diagramas, recurso que Richard Feynman tornaria famoso, como desenhos que tentam ligar o visível e o invisível, o material e o conceitual.POR QUE NÃO ME UFANOAs declarações de Jarbas Vasconcelos sobre seu próprio partido e o episódio abortado do ataque de Lobão a Furnas não contêm rigorosamente novidade nenhuma. O PMDB é a cara do poder à brasileira, impune como Renan Calheiros, e todo partido é seu aprendiz. O PT, que já chamei de PMDB do século 21, apenas acrescentou toques de sua origem ideológica no discurso e nos atos, como as verbas para ONGs, MST, UNE, sindicatos e outros velhos companheiros. Estatais e fundos de pensão são antros de corrupção e fisiologismo há muitos governos. Aforismos sem juízoArte inclui comunicação, mas não coincide com ela.

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