Os fantasmas do armário de Tata

Diretora investiga os efeitos da ditadura militar em Trago Comigo, em que Carlos Alberto Riccelli interpreta ex-preso político

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

01 de setembro de 2009 | 00h00

Mais do que reconstruir e refletir sobre os anos da ditadura militar, a diretora Tata Amaral está especialmente interessada em discutir os reflexos daquele período histórico nos dias atuais em Trago Comigo, minissérie de quatro capítulos que a TV Cultura apresenta de hoje até sexta-feira, às 23h10, uma coprodução entre a emissora e a Tangerina Entretenimento.Convidada a participar da terceira edição do projeto Direções - "É a primeira vez que me chamam para um projeto e dizem ?toma aqui o dinheiro para filmar?", surpreende-se -, Tata resolveu permanecer no universo do seu próximo longa-metragem, Hoje, que ela planeja começar a rodar daqui a dois meses.Baseado nas peças A Prova Contrária, de Fernando Bonassi, e Galeria Metrópole, de Mário Viana, e com roteiro de Rubens Ewald Filho e Jean-Claude Bernardet, o filme conta a história de uma mulher que recebe uma indenização pelo desaparecimento do marido, na época da repressão política. Ela compra um apartamento com o dinheiro, mas no dia da mudança o marido volta. "A minha relação com o tema começou quando fiz o documentário O Rei do Carimã, para o DOCTV, sobre o meu pai. Comecei ali um movimento pessoal de volta ao passado. E essa ideia foi ganhando espaço", detalha a diretora. "Falar sobre a possibilidade de reencontro com uma pessoa que morreu, ou que você achou que havia morrido, é o que me fez fazer o Hoje. E a série veio por aí também. A minha intenção é iluminar esse passado que assombra."Assombrado é mesmo um bom adjetivo para Telmo Marinicov, o personagem central de Trago Comigo, interpretado por Carlos Alberto Riccelli. Ex-revolucionário, ex-preso político, torturado e exilado, ele voltou ao País nos anos 80, com a Anistia, e tornou-se ator de sucesso, daqueles que participaram das mais memoráveis montagens de Gianfrancesco Guarnieri.Telmo começa a minissérie como um burocrata da política cultural, supervisor de teatros públicos. O emprego na Prefeitura, ao que parece, é a maneira que ele encontra para levar a vida e manter sob controle as feridas mal cicatrizadas que carrega, adquiridas na época em que esteve sob tortura, por causa do envolvimento com a guerrilha. "É uma experiência que deixa marcas terríveis, e a série vem iluminar o passado desse personagem, que ele mesmo quer esquecer", explica a diretora.O personagem traz Carlos Alberto Riccelli de volta à TV depois de mais de dez anos. Tata conta que o nome dele veio à cabeça por causa do Tião de Eles Não Usam Black-Tie (1981) e do misterioso Hermes, de Dois Córregos (1999).Na primeira cena da minissérie, Telmo é entrevistado num documentário sobre a resistência à ditadura militar. Ao longo dos capítulos, ex-presos políticos reais - como o deputado José Genoino e a ex-guerrilheira Crimeia Alice Schmidt de Almeida - falam sobre o período, como se participassem do mesmo documentário que Telmo. "Sempre achei que essa série tinha de usar depoimentos reais, porque as pessoas contando sua própria experiência é uma coisa muito forte. A ficção está lá, é ótima. Mas você ver uma pessoa de carne e osso, que ainda está viva e faz parte da nossa sociedade, contando fortalece a narrativa."Para Telmo, entretanto, reviver esse tipo de experiência não é fácil. Por isso, a entrevista vai desencadear uma série de acontecimentos que o fazem repassar sua história. "A estrutura narrativa, que mistura realidade e ficção, cria camadas de interpretação sobre a história do personagem", anota Tata. "E também permitiu que a gente não fosse realista - nem sei como seria se tivéssemos de fazer um flashback daquilo tudo que acontece com o personagem."Mas, diga-se mais uma vez, a intenção da diretora não é a reconstrução histórica, e sim a tradução de sensações. Por isso, a válvula de escape encontrada pelo personagem será montar uma peça de teatro, que vai marcar a sua volta aos palcos - e é nesse processo que muita coisa acontece, dentro e fora do palco. Por coincidência, aliás, nesse ponto Telmo é como o Dante (Felipe Camargo) de Som & Fúria, minissérie dirigida por Fernando Meirelles e apresentada pela Globo em julho. "Uma inspiração muito grande que eu tive foi o Ricardo III do Al Pacino, que mistura documentário e encenações. Ele fica o tempo todo tentando descobrir qual é a conexão do Ricardo III, um texto tão antigo, com o contemporâneo. Essa era uma questão que eu me colocava o tempo inteiro: o que a história daqueles presos políticos tem a ver com a nossa vida hoje?"Com um orçamento modesto, de R$ 540 mil, Trago Comigo tem ainda a possibilidade de ser montada como um longa-metragem, prerrogativa de todas as séries do Direções, uma parceria entre a TV Cultura e o SescTV. O roteiro de Thiago Dottori, que desenvolve um argumento criado por ele, Tata e Matias Mariani, entrelaça as histórias contadas pelos ex-guerrilheiros reais, o "depoimento de Telmo", o dia a dia dele e, ainda, uma espécie de making of da montagem que o personagem prepara.É bastante simbólico que na sua volta triunfal Telmo dirija atores jovens, de uma geração que cresceu na democracia. "A ideia é mesmo tratar do tema como ele é visto hoje. Os atores jovens não tiveram a experiência da ditadura, mas agora têm de interpretar o que aconteceu com o Telmo, sob seu ponto de vista", observa a diretora. "Numa das passagens, quando o Telmo fica em crise, um dos atores conta que sofreu tortura na delegacia de polícia quando era pichador. É uma forma de ele tentar compreender o que outro passou, embora seja uma picadinha em comparação com o que acontecia nos porões da ditadura."

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