Os ecos de um crime político não solucionado

Destaque da programação de hoje é o filme que documenta o misterioso assassinato do prefeito de Campinas, em 2001

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Grandes destaques movimentam o fim de semana na segunda parte do 14º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. No domingo à noite, Paulo César Saraceni estará na cidade para debater com o público, após a homenagem que o evento lhe presta, em comemoração aos 50 anos de Arraial do Cabo. O filme não é apenas um marco na história do documentário brasileiro. Também é pedra de toque do movimento chamado de Cinema Novo.

A segunda parte do É Tudo Verdade é formada pelas homenagens - Louis Malle também está sendo lembrado por sua obra documentária, que o criador do festival, Amir Labaki, define como ?a parte submersa? da obra do autor - e também pela mostra informativa Estados das Coisas, que hoje exibe duas preciosidades. A primeira delas é Olhos Bem Abertos, de Gonzalo Arijón. O cineasta uruguaio estará presente à sessão.

Arijón, já conhecido do público do É Tudo Verdade, se inspirou no livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, que nos anos 60 virou referência da esquerda continental por sua abordagem crítica do colonialismo na região. Durante três anos, ele viajou por países da América Latina. Bolívia, Brasil, Equador, Venezuela e Uruguai integram o roteiro, que explora alguns dos novos rumos do continente no início do século 21, em termos de movimentos sociais, erradicação da pobreza, integração regional e soberania. A originalidade é que Arijón não vê o tema do ângulo dos governantes, mas das pessoas comuns - o povo.

Ecos foi feito por Pedro Henrique França, repórter do Estado, e Guilherme Manechini como trabalho de conclusão do curso de jornalismo na PUC, em 2007. Mas a dupla de cineastas estreantes sempre teve como objetivo final fazer uma versão do filme para o É Tudo Verdade. O grande diferencial em relação à versão escolar é que a narração é feita agora por Eduardo Moscovis. A história do prefeito de Campinas, Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, assassinado em 10 de setembro de 2001, permanece até hoje nebulosa. A explicação oficial de que ele teria sido morto ao se colocar na rota de fuga de criminosos não se sustenta (e foi desqualificada pela Justiça). Como diz a filha de Toninho, Marina, seu pai se colocou no caminho de pessoas mais poderosas.

O filme não descarta a hipótese do assassinato político, pois Toninho era - e permanece - incômodo, até para o PT. Pedro Henrique conta que começou a se interessar pelo assunto porque a viúva e a filha, Roseana e Marina, ao deixar Campinas, mudaram-se para o prédio em que mora. Ele reconhece que a forma não é o mais importante neste filme. O resgate do caso visa a preencher o que está se tornando uma lacuna na memória coletiva. O parecer favorável de três desembargadores pela reabertura das investigações lhe parece outra etapa importante, somada ao próprio trabalho. E ele assinala - os criminosos, sejam quem for, devem agradecer ao 11 de Setembro. O crime ocorreu na noite de 10 de setembro de 2001. Na manhã de 11, o impacto do ataque do terror em Nova York ajudou a abafar o que poderia ser o clamor por investigações mais rigorosas.

A Programação Completa

HOJE

14h30 - Ecos, de Pedro Henrique França e Guilherme Manechini

16h30 - Olhos Bem Abertos, de Gonzalo Arijón

18h30 - O País de Deus, de Louis Malle

20h30 - Um Presidente a Lembrar - Na Companhia de John F. Kennedy, de Robert Drew

AMANHÃ

14h30 - Cartas ao Presidente, de Petr Lom

16h30 - Um Povo nas Sombras, de Bani Khoshnoudi

18h30 - And the Pursuit of Happiness, de Louis Malle

20h30 - A Rainha e Eu, de Nahid Persson Sarvestani

DOMINGO

14h30 - Um Presidente a Lembrar - Na Companhia de John F. Kennedy, de Robert Drew

16h30 - Capturando a Realidade: A Arte do Documentário, de Pepita Ferrari

18h30 - 50 Anos de Arraial do Cabo, de Mario Carneiro e Paulo César Saraceni (debate após sessão)

20h30 - Vive le Tour e Humano Demasiadamente Humano, de Louis Malle

SEGUNDA

14h30 - Índia Fantasma - Episódio 1 - A Câmera Impossível & Episódio 7, de Louis Malle

16h30 - Place de la Republique, de Louis Malle

18h30 - O País de Deus, de Louis Malle

20h30 - And the Pursuit of Happiness, de Louis Malle

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