Os dilemas que as fotos não revelam

Abaixando a Máquina discute questões éticas sobre os repórteres fotográficos

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

20 de outubro de 2008 | 00h00

Renato de Paula e Guillermo Planel são jornalistas no Rio de Janeiro. Renato, carioca de nascimento, fez pós-graduação em Jornalismo de Ciências Públicas Sociais pela UFRJ e vem atuando nas áreas de edição, direção, pesquisa e roteiro, tendo feito vários documentários para TV a cabo. Guillermo é uruguaio de Montevidéu, fez pós-graduação em Imagem pela PUC-Rio e Jornalismo de Políticas Públicas Sociais pela UFRJ. É bom destacar a experiência dos dois para que o cinéfilo, especialmente o paulistano, se prepare para ver o documentário que fizeram, Abaixando a Máquina, atração de hoje da Mostra.Diariamente, o leitor de jornais e o espectador de telejornais está acostumado a ver as imagens da violência brasileira. Abaixando a Máquina vale-se de uma narrativa simples e direta, sem firulas, para discutir questões que são complexas e que remetem ao próprio exercício da profissão de repórter fotográfico em áreas de risco do Rio. De repente, o fotógrafo está ali correndo sob o tiroteio e mal tem tempo de refletir. Tem de agir e captar o instante terrível em que um parente identifica seus mortos. Como reagir diante dessas situações?O debate ultrapassa os limites da imagem e o que o filme tenta fazer é revelar o que fica oculto nessas fotos, que elas não revelam. No caso, trata-se sobretudo de revelar o dilema ético do profissional. Wilton Junior, da sucursal do Estado no Rio, é um dos entrevistados e ele conta como é se sentir acuado, tendo de fazer um trabalho - e sendo constantemente avaliado na sua competência da captação da urgência - e ao mesmo tempo consciente de que está invadindo a intimidade das pessoas. Wilton sabe o que é isso. Seu pai, também fotógrafo, tombou vítima de uma bala perdida. Ele fotografou a menina que se aproxima timidamente do caixão em que está o corpo da irmã morta e faz um gesto, pequeno mas imenso no seu significado humano e até social.Falam os fotógrafos e também psicanalistas, professores, autoridades e líderes comunitários, que se queixam de que a imprensa só sobe o morro para mostrar tragédia. Como dizem os realizadores, eles não tiveram a intenção de definir o que é ética, mas a discussão fica aberta. Abaixando a Máquina, independentemente de ser um grande documentário, é um filme necessário e atual. ServiçoCinemateca - Sala Petrobras - Hoje, 16h20Cine Bombril 2 - 3.ª, 16h

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