Os dez mais

Consideremos a improvável hipótese de Deus vir conferir de perto a quantas anda o mundo que criou. Completamente desiludido, Ele poderia decidir acabar de vez com a bagunça e reabrir as torneiras do dilúvio, opção que não seria muito divertida para a humanidade. Ou, se Lhe restasse alguma esperança, bem que poderia tentar consertar os estragos, opção que não seria muito divertida para Ele próprio.Haja vista Sua infinita bondade, digamos que o Criador optasse pelo bem das criaturas, arregaçasse as mangas, e começasse a reforma. Após tomar as providências mais urgentes (encarcerar os corruptos, contradizer os donos da verdade, colocar guardas gentis nas esquinas, etc.), é possível que Deus chegasse à conclusão que era hora de atualizar os Dez Mandamentos. E haja boa vontade, Senhor, pois o trabalho seria enorme.Logo no primeiro deles, "Amar a Deus sobre todas as coisas", se faria necessário lembrar que amar não pressupõe pagar nada para ninguém, muito menos para Deus que nem deve ter conta bancária. Seria perfeito se Ele deixasse bem claro que quem ama a Deus deveria amar também, indiscriminadamente, todos os Seus filhos. E ainda aproveitasse o tema "amor" para relembrar alguns detalhes básicos que há muito foram esquecidos. Nada muito profundo, senão a moçada teria preguiça de ler. Algo como "Amar a Deus e ao próximo sem pretender se dar bem sobre todas as coisas" como conceito geral (deixando a redação final a encargo do Autor, obviamente), talvez fosse um bom toque para os homens.Ao constatar o estado do planeta Terra, era preferível que o Nosso Senhor anulasse o segundo mandamento, "Não tomar Seu Santo nome em vão", visto que, ai, meu Deus do céu, seria realmente difícil viver atualmente sem poder dizer "ai, meu Deus do Céu" de vez em quando.Chegamos ao "Guardar domingos e festas". Mas como o pessoal anda bastante estressado por aí, "guardar", no caso, não necessariamente significaria se abster totalmente de uma farra ou outra. Inclusive porque muita final de jogo cai em domingo. Além do que, a interdição dos trios elétricos e escolas de samba, por exemplo, prejudicaria em muito o turismo e as divisas geradas por essa atividade. "Em vez de desperdiçar seu tempinho de descanso pensando em ganhar mais dinheiro ou enchendo a cara para esquecer os problemas, que tal elevar o nível dos pensamentos?" ou qualquer frase similar que promovesse a reflexão e o conhecimento, e ainda ajudasse a gente a evitar futilidades e ressacas desnecessárias, seria realmente oportuna."Honrar pai e mãe". E o atual marido da mãe. E a atual mulher do pai. E a ex e a futura também. Um adendo sobre a necessidade de pais e mães fazerem por onde serem honrados também não faria mal nenhum na atual conjuntura. "Não matar." Essa não tem erro. A idéia é impedir quem quer que seja de matar quem quer que seja sob qualquer hipótese. Talvez uma menção ao contrabando de armas, à banalização da violência, e aos abusos de poder fosse importante na versão portuguesa do documento final.Para manter o mandamento "Não pecar contra a castidade" era essencial que Deus explicasse o que vem a ser castidade, visto que a palavra anda em desuso."Não roubar." Este, sem dúvida, é o item que mais carece de esclarecimentos. Nunca é demais lembrar que desvio de dinheiro, superfaturamento de obras, exploração do trabalho alheio ou pagamento de percentuais indevidos se constituem não só em roubo, mas numa descarada tentativa de enganar o povo.Fixar placas com o preceito "Não levantar falso testemunho" escrito em letras garrafais em todas as salas das CPIs torna-se indispensável nos dias de hoje."Não desejar a mulher do próximo" merece o acréscimo "Nem o homem da próxima" nesses tempos de mudanças de valores, afinal, homem anda difícil mesmo.E, finalmente, "Não cobiçar as coisas alheias" é um mandamento que talvez devesse vir acompanhado de nomes e telefones de psiquiatras ou zen-budistas, com o objetivo de ajudar a gente a se libertar dessa insaciável busca por bens materiais gerada pela milenar sensação de incompletude. "Quem sabe o que você tanto procura não está dentro de você mesmo?", apesar de soar um pouco como frase auto-ajuda, ou talvez por isso mesmo, podia surtir algum efeito.Na falta de Moisés para ser portador dos adendos notificados, é provável que Deus escolhesse um meio de comunicação mais moderno, e em vez de esculpir tudo em tábuas de pedra, recorresse aos jornais, à televisão, ou à internet. Um eficiente layout com direito a cores e imagens chamativas certamente ajudaria a divulgação do texto. Mas como o Brasil tem o segundo maior índice de analfabetismo da América do Sul, o melhor mesmo era que, por aqui, os anjos tocassem uma vinheta, o céu se abrisse, e o recado fosse dado, em alto e bom tom, pelo próprio Todo-Poderoso.

Adriana Falcão, O Estadao de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 00h00

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