Os detetives selvagens

Acho que foi o amigo Claudio Marcondes quem primeiro chamou minha atenção para o escritor Roberto Bolaño. Lembro-me de ter recebido, do Claudio, um artigo, em inglês, anos atrás, que identificava uma nova geração de escritores latino-americanos, após García Márquez e Vargas Llosa, uma espécie de movimento, dizia a reportagem, que virava a página do realismo mágico.Depois foi minha prima Paula, aquela que é livreira em São Francisco, na Califórnia. Ele me mandou Os Detetives Selvagens, romance do escritor chileno, quando saiu em inglês, e passou meses perguntando se eu o havia lido. Dizia ela que era a melhor coisa desde pão fatiado. Perguntava, por e-mail, semana sim, semana não, até desistir. Nunca entendeu minha falta de interesse.Mas não o li. Por alguns motivos, concluí, na semana passada. Quando o comecei pela primeira vez, no ano passado, percebi que não tinha como personagem nenhum detetive. Para um velho leitor de ficção policial, como eu, é uma decepção. Você vai seco atrás de uma narrativa de crime e encontra, no seu lugar, outras coisas. Boas, literárias, repletas de sentidos e significados, curiosas. Mas sem a narrativa policialesca você se vê compelido a buscar satisfação em outro lugar. É como pedir um x-salada e receber um prato de escargot. Gosto muito dos dois, mas no momento do x-salada, não há nada que o substitua, se é que você me entende.Também ficava com a pulga atrás da orelha pelo fato de a minha prima, gringa de tudo, saber mais do que eu sobre o que se passava na literatura latino-americana. Esse foi outro fator de resistência, teimoso e estúpido, reconheço, mas fazer o quê? Sou assim, orgulhoso, às vezes.Sem dizer que Bolaño, na ficção ao menos, identificava Octavio Paz como inimigo, o que me irritava. Não o conheci pessoalmente, mas sempre li o Paz da mesma maneira que leio Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, Richard Morse e Antonio Candido. Com o devido respeito.Tudo isso para dizer que estou, enfim, lendo Os Detetives Selvagens. E, sim, é aquilo que minha prima e o Claudio diziam que era. Fui convencido pela revista Time e por algum crítico do jornal New York Times. Uma e outro chamaram o último romance de Bolaño, 2666, que acaba de sair em inglês, de obra-prima, masterpiece, no original. Tendo a acreditar no MSM, ou Main Stream Media, ou mídia tradicional, como queira. Sinto uma ponta de vergonha por isso. Deveria acreditar nos amigos, não é?Fui procurar Os Detetives Selvagens, aquele exemplar que Paula me mandara no ano passado. Estava largado no quarto de empregada não utilizado, ao lado do tocador antigo de CDs, umas luminárias e aquele ventilador defeituoso que acelera até sair voando.Estou na página 81. Agora vai. Cada uma delas é uma revelação. Existe uma tradução em português, lançada pela Companhia das Letras, vi no Google, que deve ser boa também. Adoro as diferentes maneiras que Bolaño encontra para avançar a narrativa. Sutis todas elas. Lembra um pouco meu amigo Reinaldo Moraes, que vai lançar um ?romanção?, também, no próximo ano. Já vou encomendar 2666.É muito bom ler um romance cheio de sentido. Demora um pouco, mas eleva o espírito. Fazia um tempo que não dedicava meu tempo à ficção. Culpo Wall Street e Ronald Reagan, Margaret Thatcher e George W. Bush por isso. Eles definiram as últimas décadas. Diziam que o que importava era a produção, os fatos, a realidade, o dinheiro. Mas vimos agora que era tudo mentira, ou quase, um exagero, para dizer o mínimo. Uma historinha contada por banqueiros americanos. Entre a ficção deles e a do Bolaño, prefiro o chileno.

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