EDUARDO ORTEGA/DIVULGAÇÃO
EDUARDO ORTEGA/DIVULGAÇÃO

Os cubanos Los Carpinteros ganham primeira exposição antológica no Brasil

Mostra do coletivo criado em Havana em 1992 vai ser apresentada em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Rio

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 05h00

“Cuba está em transição desde os anos 1990”, diz o artista cubano Marco Antonio Castillo Valdes. Em 1992, quando ele, Dagoberto Rodríguez Sánchez e Alexandre Jesús Arrechea Zambrano reuniram-se para criar o coletivo Los Carpinteros, em Havana, a ilha vivia seu momento de mais profunda crise econômica. Era o fim do bloco socialista, como lembra Rodolfo de Athayde, curador da exposição Los Carpinteros: Objeto Vital, que será inaugurada no próximo dia 30/7 no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo.

Hoje, há a “aproximação inusitada” de Cuba com os EUA. “É como um mambo: são dois passos para frente e um para trás; ou dois para trás e um para frente”, brinca Dagoberto Rodríguez sobre a atual situação dos cubanos, divididos entre o passado e o presente. Sendo assim, mais do que uma antologia – a maior já realizada sobre o grupo, a mostra, que depois circulará, até 7 de agosto de 2017, por Brasília, Belo Horizonte e Rio, não apenas promove um mergulho na obra dos celebrados criadores contemporâneos, como toca a história recente de um país em plena transformação.

Pelas mãos de Los Carpinteros, observa Rodolfo de Athayde, os objetos ganham vitalidade – e essa seria a razão principal do êxito internacional do coletivo, que, desde 2003, com a saída de Arrechea, é formado por Marco Castillo e Dagoberto Rodríguez. No início da carreira do grupo, “criar, aproveitar e reconstruir”, como explica o curador, eram conceitos conectados ao contexto cubano. Movidos, portanto, pela ideia de “buscar soluções”, Los Carpinteros engendraram uma obra marcada pela inteligência, doses de humor e, sempre, uma motivação política, características que vemos entrelaçadas nas (grandes) aquarelas, instalações e esculturas desses artistas, que têm, desde 2000, uma relação muito próxima com o Brasil.

“São Paulo é como nossa segunda casa”, diz Dagoberto Rodríguez. Representados na cidade pela Galeria Fortes Vilaça, Los Carpinteros exibiram em 2015, no Galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda, uma exposição dedicada à cena política brasileira. Para a ocasião, os cubanos criaram a Constrictora, uma gigantesca serpente feita de buttons de partidos políticos brasileiros, mas a “fábrica” de biscoitos criados de moldes com palavras e expressões que “resumiam” a situação brasileira do momento – entre elas, “panelaço” – fez sucesso, inclusive, na última feira SP-Arte, este ano.

“O Brasil é um país que estava politicamente adormecido”, comenta Marco Castillo. “Falo em termos das massas, pois havia um ativismo muito poderoso nos anos 70 e tal, mas o País estava muito tranquilo até as últimas manifestações”, continua o cubano. As Galletas Dulces (bolachas doces), inspiradas nas populares bolachas da marca Maria e criadas para que o público as leve para casa, é um trabalho que, por falta de logística, não participará da antologia dos Carpinteros nos CCBBs. Já a Constrictora, peça que sintetiza questões políticas através de metáforas, como o fato de a serpente trocar de pele, destaca Athayde, vai integrar a nova exposição dos cubanos apenas em Brasília (2/11 a 15/1/2017); Belo Horizonte (1.º/2 a 24/4) e Rio (17/5 a 7/8).

“É a primeira vez que se vai a fundo sobre nós”, afirma Dagoberto sobre a mostra Los Carpinteros: Objeto Vital. O artista menciona a inclusão inédita do período estudantil dos criadores, que se formaram em 1994 no Instituto Superior de Arte da capital de seu país, por meio da publicação da tese de conclusão de curso no catálogo da antologia. Dessa maneira, os espectadores terão a oportunidade de ver trabalhos antigos e nunca antes exibidos de desde 1991 – alguns, feitos em duplas, outros, individuais – como a obra Dos Pesos (1992), emprestada do Museu Nacional de Belas Artes de Havana.

Segundo o curador e produtor cultural Rodolfo de Athayde – cubano que, expulso de Cuba em 1991 depois de estudos na Rússia e residente no Rio, foi responsável pelas mostras de Kandinsky e da Vanguarda Russa no Brasil – a exposição, com cerca de 70 trabalhos, não fica presa ao “localismo” e toma a questão do objeto para percorrer as diferentes etapas da carreira do grupo. Por meio de três segmentos temáticos – Objeto de Ofício, Objeto Possuído e Espaço-Objeto –, os visitantes, afinal, acompanham a potência das operações de transformação das coisas do cotidiano e de signos por Los Carpinteros.

Serpente política

Por falta de espaço, a Constrictora (2015), serpente de 16 metros criada com buttons de partidos políticos brasileiros, não estará na mostra de Los Carpinteros no CCBB de São Paulo, mas vai ser incluída nas itinerâncias da exposição dos cubanos a partir da abertura em Brasília (2/11). A obra foi exibida no ano passado no Galpão Fortes Vilaça.

LOS CARPINTEROS: OBJETO VITAL

CCBB-SP. Rua Álvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3651. 4ª a 2ª, 9 h/21 h. Grátis. Até 12/10. Abertura dia 30/7

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