Os coelhos e a glória perdida

Como Leon Trotsky transformou-se numa figura trágica do teatro totalitário internacional

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

A cerca de 50 quilômetros ao norte da Cidade do México localiza-se a cidade de Teotihuacán, talvez o sítio arqueológico mais impressionante e indubitavelmente o mais importante do continente americano. Estendendo-se ao longo dos 4 mil metros de uma antiga avenida central na qual se encontra a terceira maior pirâmide do planeta, Teotihuacán é um conjunto de templos perfeitamente preservados da capital de uma civilização pré-azteca que floresceu em meados do primeiro milênio. Em seu apogeu, a cidade pode ter tido 200 mil habitantes. Mas, embora esses edifícios se encontrem em um estado de conservação realmente impressionante, e as cores originais de algumas pinturas em suas paredes pareçam frescas como se tivessem sido concluídas ontem, em razão da falta de documentos escritos (ou, mais prudentemente, em razão da nossa incapacidade de identificar qualquer documento que possa ser decifrado nesse local), não sabemos praticamente nada sobre a vida cotidiana, as ambições e as ameaças políticas, e até mesmo as práticas religiosas que constituíam a vida de Teotihuacán. Mais provavelmente, essa civilização julgava que o poder e o destino dependiam das divindades do Sol e da Lua, que exigiam sacrifícios humanos regulares - mas, mesmo essa visão comumente aceita, pode ser resultado da imaginação e da cultura dominantes e sem restrições da época da Revolução Mexicana, no início do século 20, mais que de um comprovado conhecimento histórico.Depois de perder a luta pelo poder com Stalin, Leon Trotsky foi expulso da União Soviética em 1929, e após estabelecer-se de forma temporária e sempre precária na Turquia, França e Noruega, chegou ao México em 1936, onde o governo lhe ofereceu oficialmente asilo político e abrigo. Ao que se afirma, Trotsky ficou impressionado com Teotihuacán e seu culto do Sol que, aliás, os intelectuais mexicanos de sua geração tentaram reviver como uma nova religião. O filme produzido recentemente sobre a vida de Frida Kahlo, com Selma Hayek no papel principal, chega a mostrar um suposto caso entre Trotsky e a artista, que teria começado no topo da Pirâmide do Sol. Mas embora hoje seja a aura de Kahlo, ícone global do feminismo e da Grande Modernidade que contribui para preservar a memória de Leon Trotsky pelo menos como um personagem secundário, 70 anos mais tarde ela não passa da esposa de Diego de Rivera, poderosa figura de artista pertencente ao modernismo mexicano e um dos fundadores do Partido Comunista Nacional, a cuja fama e influência Trotsky deveu seu exílio mexicano. Não surpreende que, considerando o momento histórico, a nação e seu machismo predominante, a percepção do caso Kahlo/Trotsky tenha levado a um conflito irreparável entre o pintor muralista e o ex-revolucionário. Talvez em consequência desse afastamento, Trotsky e sua esposa se mudaram da suntuosa propriedade de Rivera e Kahlo no elegante bairro de Coyoacán, na periferia da Cidade do México, para uma residência muito mais modesta, a poucas quadras de distância.Enquanto hoje à preservação da casa de Kahlo/Rivera, apresentada como peça central do patrimônio nacional pelo Ministério da Cultura do México, são destinados consideráveis recursos, uma organização privada, que se encarrega do apoio a exilados políticos, administra com visíveis dificuldades financeiras a casa em que Leon Trotsky viveu desde 1937, e foi assassinado em agosto de 1940. Alternando longos períodos em que Trotsky se dedicava à redação de textos (ou ditando em um estranho ditafone) e breves pausas para o repouso, impostas pelas dores de cabeça provocadas pela hipertensão, Trotsky trabalhou de forma ascética e incansável preparando comentários políticos para a imprensa da esquerda internacional, uma história da Revolução Soviética em vários volumes, e uma biografia de Stalin por quem - inevitavelmente - estava obcecado. Uma pequena equipe de secretárias, interlocutores profissionais e guardas do corpo, que ele manteve enquanto pôde com generosos salários, servia de apoio.Em nossa retrospectiva, as atividades obstinadamente otimistas de Trotsky são comoventes, mas um sentimento melancólico, quase terno, é despertado pela humilde habitação e a completa dependência em que passou os últimos anos de sua vida o homem que organizou a Revolução de Outubro e venceu a guerra civil que se seguiu para os bolchevistas contra a resistência conservadora. Nenhum outro acontecimento do século 20 inspirou esperanças tão grandes, mais intensas e mais nobres quanto as despertadas por Leon Trotsky; nenhuma ideologia política contemporânea constituiu uma homenagem maior para a humanidade do que sua fé no advento de uma "Revolução permanente" - e, no entanto, ali estava ele, nos subúrbios da Cidade do México, infinitamente distante da nação que contribuíra para criar, cuidando diariamente de suas gaiolas de coelhos e de seus galinheiros, aprisionado entre as absurdas paredes de uma casa transformada em fortaleza em miniatura, e sob um governo que, temos razões para acreditar hoje, estava em entendimentos com Stalin sobre o assassinato do seu adversário.O primeiro atentado contra a vida de Trotsky, de sua esposa e de seu neto, cujos pais haviam sido mortos no Império comunista, foi realizado pelo pintor mexicano David Alfaro Siqueiros, em maio de 1940. Só fracassou porque seus capangas decidiram despejar sobre os aposentos da família centenas de balas em um ataque que foi mais teatral do que eficiente - permitindo que Trotsky, combatente dotado de grande experiência, se escondesse com a esposa debaixo da cama. Três meses mais tarde, um comunista espanhol, agente soviético, Ramón Mercader, alegando ser um admirador belga de Trotsky, que queria lhe oferecer alguns manuscritos, foi admitido em seu escritório e cravou uma picareta de alpinista no crânio do homem de 61 anos. Trotsky não morreu imediatamente. Ele se manteve firme e, num tom quase religioso, disse solenemente: "Está acabado." Foi feita uma intervenção cirúrgica de emergência em um hospital local da qual, como costumava acontecer na época na cirurgia do cérebro, Trotsky não acordaria. Morreu um dia mais tarde, em 21 de agosto de 1940. Depois de cumprir pena de 20 anos, em condições consideravelmente brandas, em prisões mexicanas, Mercader foi solto em 1960 e seguiu para a União Soviética, onde foi condecorado com a Ordem de Lenin.No pátio da casa de Coyoacán, perto do local onde repousam as cinzas de Trotsky, foi erguido um monumento de pedra com o emblema da foice e do martelo, debaixo da bandeira vermelha da antiga União Soviética. Hoje em dia, os adolescentes que visitam o local, talvez não entendam necessariamente o significado do emblema nem a relação - para eles um tanto fantástica - entre a bandeira e a história da casa e de seu antigo proprietário. É que a melancolia que paira sobre esse local histórico diz respeito apenas em parte a Leon Trotsky, figura trágica do teatro totalitário mundial, que ocupou a primeira metade do século 20. Acima de tudo, ela é fruto da premonição de que, num dia remoto, a União Soviética e o comunismo, dois dos ideais da nossa apaixonada adolescência, poderão tornar-se o equivalente ao que Teotihuacán é hoje para nós: o vislumbre de um culto cruel e estranho com sacrifícios humanos, cujo sentido e cujas exigências já não conseguimos apreender. Hans Ulrich Gumbrecht é professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Companhia das Letras)

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