Os campos da morte em fotos e no cinema

Marcha da Vida é registrada por Márcio Pitliuk e pelo fotógrafo Márcio Scavone

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

25 de maio de 2009 | 00h00

A Marcha da Vida, realizada desde 1989 para lembrar as vítimas do Holocausto, leva a cada ano mais de 10 mil pessoas aos campos de extermínio da Polônia, onde nazistas da Alemanha, sob liderança de Hitler, mataram 6 milhões de judeus durante a 2ª Guerra. Nesses 20 anos, ninguém teve a ideia de registrar a marcha, que começa nos campos poloneses e termina em Israel. O projeto pioneiro chega agora assinado por dois brasileiros, o publicitário, dramaturgo e escritor Márcio Pitliuk, e o fotógrafo Márcio Scavone, que lançam amanhã, às 19h, na Livraria Cultura, o livro Marcha da Vida, publicado em três línguas (português, espanhol e inglês). O volume faz parte de um projeto maior, que engloba um documentário dirigido também por Pitliuk. O filme, em fase de montagem, deve estrear em setembro.O livro é um registro emocionado de Pitliuk e Scavone, que no ano passado acompanharam os passos de 300 estudantes de São Paulo e do Rio e mais 200 adultos, do antigo campo da morte de Auschwitz-Birkenau às muralhas de Jerusalém, chegando ao Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do judaísmo. Nos 60 anos da criação do Estado de Israel, a dupla registrou imagens marcantes como a comoção de estudantes diante dos campos de Auschwitz e Maidanek e das pedras de Treblinka, sinistro conjunto escultórico que se ergue, segundo Scavone, "como um monolito" numa paisagem desolada. Lá, conclui Pitliuk, "nem os passarinhos ousam cantar".Pode parecer uma poesia de T.S. Eliot, mas foi de fato a insólita beleza desse lugar - que no passado exalou o cheiro da morte - a responsável pelas fotos de Scavone. "Contra toda a expectativa, esse é um lugar que parece um bosque com um jardim de esculturas", define Scavone. Todos esses campos, segundo sua impressão, são presenças fantasmagóricas que impressionam pelo aspecto cenográfico de um filme de terror. "Maidanek parece um cenário de Hollywood", observa, para logo em seguida revelar a imagem que mais lhe impressionou: a nuvem em forma de um fantasma que sai da chaminé do forno crematório do campo de extermínio polonês de Auschwitz-Birkernau, a 300 metros da residência familiar de Rudolf Hoess, seu comandante, que, ao lado de seus cinco filhos, podia ver de seu quarto a macabra edificação. Por lá passaram grandes escritores como Elie Wiesel, Imre Kertész e Primo Levi, sobreviventes do Holocausto, além de Edith Stein, que morreu na câmara de gás. Algumas das fotos feitas por Scavone estarão expostas na Livraria Cultura até dia 7 de junho. No auditório Eva Herz, na mesma livraria, um sobrevivente de três campos de concentração, Julio Gartner, fará três dias de palestras (quarta, quinta e sexta, às 10h) relatando a traumática experiência que o fez pesar menos de 30 quilos ao final da guerra. Gartner esteve no gueto de Varsóvia, destruído pelo oficial nazista Amon Goeth, comandante do campo de extermínio de Plaszow, na Polônia, e retratado no filme A Lista de Schindler, de Spielberg.Autor do texto que acompanha as fotos do livro Marcha da Vida, Márcio Pitliuk também realizou o filme que será lançado no segundo semestre, produzido pela Conspiração Filmes, para que a história do Holocausto jamais seja esquecida. "Agora é hábito comparar genocídios como os de Ruanda com o Holocausto, mas há um detalhe que faz toda a diferença", observa Pitliuk. " O genocídio alemão foi um ato organizado pelo governo de Hitler com uma logística monstruosa, uma verdadeira indústria de matar criada pelos nazistas, com bancos alemães financiando a construção de campos e fornos crematórios". Tudo testemunhado pela população vizinha aos campos, como os habitantes de Lublin, que não só podiam ver Maidanek como sentir o cheiro de carne saindo do forno crematório, o mesmo registrado por Scavone no livro.Alguns campos poloneses surgem hoje, 70 anos após o início da guerra, como bucólicas paisagens silenciosas no meio do nada, o que obrigou o fotógrafo a viajar no inverno para captar a atmosfera de desolação de lugares como Birkenau. Era necessário recriá-la, segundo a dupla de realizadores , Pitliuk e Scavone, para pessoas que não tiveram a oportunidade de fazer a Marcha da Vida, criada justamente quando caiu o muro de Berlim e a Polônia se abriu ao mundo ocidental. A marcha reprisa a trágica jornada dos prisioneiros entre Auschwitz, campo de trabalhos forçados, e Bikernau, campo de extermínio - três quilômetros de agonia percorridos há seis décadas pelas vítimas do nazismo. E por que a uma marcha como essa vem agregada a palavra vida? Porque ela termina em Israel, que garante a sobrevivência de um povo um dia ameaçado de extinção por um lunático."Tenho amigos não-judeus e, para eles, o Holocausto é algo tão distante que resolvi documentar a marcha em filme, justamente para mostrar que os barracões onde doze pessoas dividiam uma cama de madeira ainda estão lá", justifica Pitliuk. Respostas para o Holocausto existem - e são muitas. Falta explicar, segundo o escritor, como os alemães aceitaram e até colaboraram para matar professores de seus filhos e médicos que salvaram suas vidas. ServiçoMarcha da Vida. De Márcio Pitliuk e Márcio Scavone. Pitcult . 225 págs. R$ 100. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073. Lançamento amanhã, 19 horas

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