Os arautos da modernidade e as vítimas da síndrome de Peter Pan

Jon Savage, autor de A Criação da Juventude, diz que o garoto voador é a pré-história do teenager

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

O jornalista inglês Jon Savage, acadêmico de Cambridge e autor daquela que é considerada a história definitiva da música punk (England?s Dreaming, 1991), está exultante com os resultados de seu mais recente livro, A Criação da Juventude, lançado esta semana no Brasil pela Editora Rocco (tradução de Talita M. Rodrigues, 560 págs., R$ 84). Além das boas críticas que recebeu nos países em que foi traduzido, o livro vai ser transformado numa série de televisão, o que Savage planejava desde que iniciou suas pesquisas para contar como o conceito de teenage revolucionou o século 20, impondo ao mundo modelos de consumo, moda e cultura. A série deveria ter ido ao ar em 1981, quando Savage, então um jovem de 28 anos e futuro roteirista de um documentário sobre a banda pós-punk Joy Division, preparou o piloto de Teenage, programa jamais exibido pela televisão britânica. Antes tarde do que nunca. Também a história teve de esperar Savage crescer para derrubar um mito, o de que os teenagers nasceram no século 20.Segundo Savage, eles são mais velhos que o cinema e a máquina de lavar roupa - ou pelo menos da mesma idade da engenhoca, considerando que esse ícone da modernidade (ainda movido a manivela)nasceu em 1874 , justamente o ano em que o adolescente americano Jesse Pomeroy, de apenas 15 anos, foi preso por matar e furar os olhos de um menino de 4 anos. O "menino demônio" teve de enfrentar uma sentença de adulto e, sentenciado em 1875, passou seus 41 anos restantes na prisão. Nela, Pomeroy escreveu cartas ignoradas por mais de um século e que teriam esclarecido, segundo Savage, o que causou sua desumanização. A segunda personagem dessa história é uma menina mimada, Marie Bashkirtseff, filha de russos e escrava da moda, que escreveu em 1875 um livro comparado pelos críticos às Confissões de Rousseau. O que o criminoso e a intelectual tinham em comum para que Savage os escolhesse como representantes do marco zero da cultura teenage? Ambos, segundo o escritor, parecem sugerir dois polos da juventude: céu e inferno. Os dois forçaram a sociedade da época a reconhecer que existia um estado intermediário ainda não nomeado entre a infância e a idade adulta. Em outras palavras: o conceito ocidental de juventude estava mudando. A rebeldia bucaneira desses jovens rebeldes precisava ser domada numa época em que Rimbaud surgia como avatar dos decadentes e o jovem Oscar Wilde já escandalizava Oxford com suas roupas e atitudes para lá de extravagantes.De 1875 a 1945, o livro de Savage cobre revoluções, guerras e, principalmente, mostra a luta dos adolescentes para contar suas experiências segundo as próprias palavras, sem ingerência de adultos. "Embora o termo teenager tenha sido consagrado na época da Segunda Guerra, quando adolescentes passam a consumir e ser o alvo preferencial da indústria, ele já fazia sentido muito antes, desde o fim do século 19, quando se começou a consumir Coca-Cola", diz. Dito assim, pode parecer que o livro de Savage dedica-se exclusivamente ao comportamento hedonista de jovens rebeldes que consumiam drogas (a Coca-Cola, segundo ele, usava cocaína como ingrediente básico). Mas não.O estilo de vida extremado de jovens absorvidos pela indústria de entretenimento que se esboçava na América por essa época teve sua contrapartida na lei de 1899, que definiu o que fazer com jovens delinquentes americanos com menos de 16 anos. Setenta por cento dos jovens que passavam pelo Juizado de Menores eram filhos de imigrantes. Isso explica como nasceram as gangues e a cultura de rua nos EUA da virada do século.Sem pretender transformar seu livro numa enciclopédia ou num tratado sociológico, Savage associa automaticamente a cultura dos teenagers a revoltas e rebeliões, mas nem sempre elas são progressistas em A Criação da Juventude. "Cito o exemplo da Juventude Hitlerista, que chegou a reunir 8 milhões de jovens, soldados de uma organização reacionária com uma hierarquia piramidal." Do outro lado do mundo, Savage acompanha os jovens esfarrapados do exército infantil afetados pela Depressão americana que, desorganizados, ao contrário dos teenagers alemães, acabaram submetidos à hierarquia de uma comunidade primitiva formada por jovens vagabundos que percorriam o país andando em trens de carga. Savage mostra como e por que esses jovens fujões envelheciam prematuramente. Chutados pelos adultos e oprimidos por outros adolescentes, ele constituem a pré-história do rebelde sem causa que seria representado anos mais tarde por James Dean no cinema. O autor de A Criação da Juventude não considera superada essa história. Lembra que a crise econômica mundial e o desemprego podem estar alimentando um novo exército de proscritos igual ao dos fujões americanos da década de 1930, que não conheciam segurança financeira, vinham de lares desfeitos e eram deixados para viver por conta própria nos esgotos do Mississippi. Assim cresceram os filhos da Depressão, que não erradicou o consumismo, segundo Savage. "Os padrões de lazer continuaram acelerados como nos anos 1920, assim como agora e, se antes havia uma polarização entre fascismo e comunismo na Europa, hoje abre-se um novo capítulo na história, que complica ainda mais o conceito de teenager".Também por isso seu livro termina com a rendição da Alemanha em 8 de maio de 1945, quando a América assume a missão de transformar os adolescentes em obedientes consumidores. "Os aliados venceram a guerra no exato momento em que a cultura teenager nasceu nos EUA, espalhando para todo o mundo a síndrome de Peter Pan, o eterno adolescente que se recusa a crescer".

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